A grande maioria das cadeiras do Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém esteve, ontem à noite, bem ocupada: a abertura de um curto ciclo de três espetáculos da Companhia Paulo Ribeiro despertou o interesse de muitos corpos expectantes que não deixaram de marcar presença adiantada para a primeira apresentação.

Sem um tu não pode haver um eu, de autoria e interpretação de Paulo Ribeiro suscitou, logo à partida, aguçada curiosidade e entusiasmo nos meados de um público atento, na sequência do exemplar percurso profissional do bailarino e coreógrafo. Pouco depois das 21h, a sala estava já de luz baixa e silêncio a aproximar-se do absoluto: o bailarino, de blazer e calças cor de vinho entrou em palco e alguns segundos se guardaram para uma habituação, por um lado, de um público expectante e, por outro, da presença de um corpo seguro, limpo e livre, em palco.

Em voz off, um informal monólogo adquire lugar: uma quente e confortável exposição textual revelou-se linha de orientação para o que lhe seguiu. Após calmamente se descalçar e estender o blazer no chão, Paulo Ribeiro ocupou-se do centro do palco e, de costas, um inesperado gingar de anca surgiu, fazendo-se, pouco depois, acompanhar do arrastado e delicioso Insensatez, de Robert Wyatt. Desde logo muito se revelou. Com base na biografia de Ingmar Bergman, Lanterna Mágica, toda a coreografia se avizinhava uma revelação de emoções, um jogo entre uma transparência muito própria do coreógrafo e uma presença constante de elementos relacionais, associados à obra de Bergman, que se fecharam e abriram num labirinto infinito.

Ainda de costas, o bailarino abraçou-se a si mesmo e dançou; balançou e envolveu-se como nunca antes, sentiu a presença do toque, das mãos de um outro, de tudo de um outro, de um outro, de um tu. Seguiram-se cinquenta minutos de uma alma que, de opaca, se tornou transparente, penetrável e completamente acessível. Uma linha temporal que se preencheu numa suspensão do espaço envolto em prol de uma fixação no meio de transmissão, num corpo acesso, sedento de emoção e desprovido de razão. Uma abordagem permanente de uma relação conjugal que às tantas se resolve numa relação de um eu exterior para um eu interior ou vice-versa, uma relação que procura uma resolução em si.

Intercalando breves conversações com base na obra de  Bergman e em experiências próprias, Paulo Ribeiro expôs-se através de um movimento sem reservas e viu-se enquanto instrumento emocional perto de não encontrar solução. Entre longas transferências de peso, prolongados e esteticamente complexos movimentos de braços, conceitos universais foram colocados no cerne da situação e trabalhados enquanto livro aberto. A dor, a angústia, a tristeza, o desamparo, a inquietação, a impossibilidade, o desequilíbrio, o inalcansável ou o rejeitado, todos convergiram numa apreensão simultaneamente assustadora e libertadora. Por entre saltos carregados de peso, corridas afincadas e ansiosas e a permanente estimulação de si mesmo, sobressaiu um corpo reativo ao sentir-se frente a frente com inúmeras suposições e infindáveis possibilidades.

Um ritmo musical que não se estabeleceu obedeceu às constantes alterações do bailarino que rigorosamente se fundiu em sinfonias eletrizantes, batuques incessantes e melodias dengosas que definidamente indicavam um propósito ou desejo. Um jogo entre poderes de contorno e reação a universais condicionantes humanas e a fragilidade, pequenez e efemeridade de um corpo a solo, despido de estatutos ou atributos.

Encostado a um pano, é iluminado: Uma alma que parecia crescer a cada segundo, fez-se acompanhar por um momento de entrega completa, em que a moeda de troca se apagou e ascendeu a vontade de ser, de se exprimir, de se dar a si e a alguém, de ser sentido. Entra de novo Insensatez, mas, desta vez, o bailarino encosta-se ao pano e a ele se dá enquanto outro, culminando num choro desmedido e soluçado sem capacidade de se resolver. As mãos, enquanto fonte de expressão por excelência de toda a coreografia, esmiuçaram-se em movimentos desmedidos e descontrolados numa procura, num desassossego, numa ausência.

‘’Talvez os meus sonhos fossem um pouco belos demais e, como castigo, a vida castiga-nos quando menos esperamos. Quando atinges o teu orgasmo, o teu nariz está tão metido na merda que quase sufocas’’, enfatizou o bailarino no último excerto proferido.

O programa termina hoje à noite: a bailarina Leonor Keil  guiar-se-á pelas criadoras Olga Roriz e Tânia Carvalho e interpretará, a solo, duas coreografias. Bits & Pieces e Como é que eu vou fazer isto? têm início marcado para as 21h.