A cobertura do Festival Cinéma du Réel, em Paris, continua, com a análise a On A Grèvé, de Denis Gheerbrant, e ao português Que Farei Eu Com Esta Espada?, de João César Monteiro.

On A Grèvé (2014), de Denis Gheerbrant

O valor maior da sessão de On A Grèvé, realizado por Denis Gheerbrant, incidiu no carácter concreto que revestiu: a distribuição de panfletos sindicais aos espectadores abriu margem para uma interpretação ainda mais restrita do que pode constituir um “Cinema du Réel”, de realidade no tempo presente, carecendo de intervenção.

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A luta trabalhista representa, para a facção política que envolve, a dimensão mais concreta da construção social: o eterno confronto entre forças produtivas e detentores dos meios de produção. E é nessa base que o filme se constrói: um grupo de empregadas de hotel que, insatisfeitas com as suas condições laborais, reivindicam melhores termos contratuais.

Pontuado recorrentemente com momentos musicais, este filme demonstra como com percussão e cantos étnicos se constroem protestos, servindo esta afirmação identitária como contraponto aos maus tratos e xenofobia que afirmam sofrer. As grevistas são retratadas, portanto, como dedicadas e fortes a uma causa que consideram justa, pese a inexperiência geral no que a este tipo de protesto diz respeito. Para minorar essa falta de know how, são apoiadas por movimentos sindicais, sendo aí que surgem críticas ao desenvolvimento da narrativa. Por um lado, o exagerado paternalismo sindical. Por outro, o carácter demasiado simplista do retrato, visto que na tentativa de desmistificar as questões da luta de classes acabam por reduzi-la a “uma vitória das mulheres” – desenlace final algo fútil tendo em conta o grave problema estrutural subjacente.

Que Farei Eu Com Esta Espada? (1975), de João César Monteiro

Subversão, luta, sexo e terror são os ingredientes que, conjuntamente considerados sob a égide da simbologia, formam a estrutura temática desta controversa (difícil é encontrar uma obra deste autor que não mereça este rótulo, diga-se) de João César Monteiro.

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Esse pendor simbólico tem um carácter referencial na recorrente associação com o Nosferatu de Murnau: obscura e mórbida figura que, sugando incessantemente a vitalidade ao que o rodeia, representa perfeitamente a acção de um Estado autoritário para com os seus cidadãos.

Mesmo após a necessária revolução, os efeitos fazem-se ainda sentir.

Na realidade, as cenas deste filme têm, sobretudo, um objectivo político, tais sequências contrastando com discursos revolucionários – um grupo de operários louva o comunismo como ideal salvador; africanos denunciando o violento colonialismo; manifestantes que ordenam a destituição da NATO e o fim do imperialismo yankee.

É, portanto, um filme de oposição e conflito, de indecisão geral. Estes vectores estão representados na figura da rapariga, materializando uma metáfora da Nação travestida de Afonso Henriques sem saber como e contra quê lutar: o que fazer com a espada, portanto.

Assistimos, então, a uma osmose entre a procura identitária e a política, funcionando os rostos e paisagens e as coisas como símbolos de um questionar filosófico e denso.

Em paralelo com essa camada mais séria surge outra mais irónica, nomeadamente quando uma mulher revela, de forma explícita, pormenores da sua vida sexual com um padre: o ridículo e o absurdo como forma de abordar certas idiossincrasias individuais ou de um povo, essa clássica aproximação temática de César Monteiro.

Texto redigido por: André Guerreiro (em Paris)

*Por opção do autor, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945