A cobertura do Festival Cinéma du Réel, em Paris, continua, agora com a análise ao filme Eco De La Montaña, de Nicolas Echevarría.

Eco De La Montaña (2014), de Nicolas Echevarría

O título do filme constitui, mais que uma enunciação do objecto do documentário, uma espécie de wishful thinking: que o mundo ocidental reconheça valor artístico a obras que escapem a seus cânones e das suas tipificadas estruturas de produção. Neste documentário seguimos Santiago de la Torre, artista mexicano da tribo Huichol, cujo expoente máximo de reconhecimento constitui a permanente exposição de um seu mural na estação de metro do Louvre. Poderia pensar-se que isto seria um símbolo da abertura desejada, mas só o foi em termos abstractos e formais: o dito mural foi colocado ao contrário da orientação certa (gag clássico do mundo artístico que se julgaria ultrapassado) e, o artista não foi sequer convidado a estar presente na cerimónia de exposição ao público. O próprio local de exposição ao público é quase irónico, parecendo a estação de metro um representação metafórica do interesse ocidental, pelo facto de por lá passarem milhares de pessoas diariamente demasiado ocupadas para que possam prestar atenção a algo exterior às suas vidas.

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E é na terra natal de Santiago e com o expressar deste da profunda tristeza que sente perante tais factos enunciados no prólogo que o filme tem o seu verdadeiro início, parecendo contextualizar um uma ideia de fim – da tradição e da inviolabilidade da própria terra (Santiago diz-nos que esta começa a ser alvo de exploração industrial, como a mineira e outras).

Porém, entrecruzando o processo de produção de um novo mural de Santiago e a peregrinação deste até Wirikuta de modo a pedir autorização aos deuses para a criação da nova obra – uma espécie de pitching divino -, o filme demonstra que não é o fim que releva. É a ideia de continuidade, como documento histórico deste tipo de obra, por esta constituir um encapsular experiências religiosas, mitológicas e históricas do universo Huichol. É interessante, do ponto de vista etnográfico, compreender a diferença substancial entre símbolos civilizacionais. A serpente, por exemplo, não tem para os huichóis um significado negativo, representando a energia interior. O peyote – conhecido alucinogéno – é considerado um veículo de comunicação com os deuses e a própria alma, sem o rótulo negativo do qual sofre no ético mundo ocidental. Relativamente ainda a estas clivagens culturais, será de referir a omnipresença (passe o jogo metafórico) da espiritualidade na vida de tribo. Não estamos aqui perante uma subtil influência religiosa motivado por factores históricos: na tribo a ética pessoal e a religiosa praticamente se confundem, e perto do artista Santiago de la Torre encontramos sempre o xamã, mediando entre a vida terrena e os deuses.

É sempre relevante fazer um exercício especulativo de quanto a arte, para além da óbvia transposição de mentalidade do seu criador, é influenciada pelo cenário vivencial em que nos habituamos a existir: a poética visual do documentário parece também resultado de uma osmose com o seu objecto de estudo – o belo e colorido mural, que finalmente vemos terminado, de Santiago de la Torre.

Texto redigido por: André Guerreiro (em Paris)

*Por opção do autor, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945