Dia 27 de março. Dia mundial do teatro. O dia em que parece que todos se importam com esta pedra basilar da cultura portuguesa – o teatro, a arte tantas vezes renegada mas nunca com pouca força; a forma de arte que talvez mais se tenha desenvolvido, albergando todas as outras formas de representação num só: a música, popular ou burlesca, alternativa ou mainstream, preenche um palco que até vazio pode ser tanta coisa; o cinema cada vez mais é o ponto de referência, em termos de ideias e conteúdos teatrais, contudo não superior a este (ao fundo, uma tela, fruto do desenvolvimento tecnológico e audiovisual, pode acrescentar elementos apenas visuais ao que é relatado em palco); o espaço cénico não é mais que um quadro em movimento, em constante alteração, rodeada por uma moldura cénica, a boca de cena; a dança complementa a sempre tão importante noção corporal de um ator que se preze – o conhecimento corporal é fundamental para que no palco não esteja um ator, mas uma personagem, com uma vida e personalidades próprias; a literatura, enfim, basta olhar-se para Shakespeare, um dos mais famosos e emblemáticos dramaturgos mundiais, que rapidamente se tornou leitura obrigatória de qualquer estudo académico-literário-cultural e por aí adiante.

Nesta data criada em 1961, pelo controverso Instituto Internacional do Teatro da UNESCO, Portugal e todo o mundo dão as mãos pela mais maravilhosa forma artística.

Em Atenas, naquele espaço público só para alguns, eram as máscaras que criavam a expressão das personagens – essa persona que se transformou em pessoa, que como em Pessoa, é um conjunto de máscaras invisíveis quotidianas, onde somos tantos, e ninguém.

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Deixemos de lado o passado, porque ele só serve como contextualização de um futuro não muito longínquo. Estamos hoje soterrados numa mágica máquina teatral, onde quem conhece, pode maravilhar-se e em simultâneo temer o que aí vem. A cultura não pode estar sujeita às barbaridades políticas que por aí se fazem – porém, delas depende, para subsistir na sua plenitude, enquanto bem social, cultural e até turístico. Não tratamos de lazer, tratamos de Cultura, com c grande, porque é a base de qualquer sociedade dita desenvolvida.

Após inúmeras tentativas, nesta democracia pouco democrática, conseguiu-se finalmente terminar com tudo o que podia haver de apoio cultural (não sejamos alarmistas, foi apenas quase tudo): após a fabulosa invenção da Secretaria de Estado da Cultura, um gabinete insular, lá bem longe no meio do Atlântico, com ela vieram outras também incríveis medidas, “devido à crise”. Parece que é demasiado complicado pensar que a cultura é talvez a única forma de expansão real de uma economia, para não falar da importância que esta tem para a identidade de uma nação. Três dedos abaixo do joelho, um espetáculo do Mundo Perfeito, escrito e encenado por Tiago Rodrigues é uma das muitas provas que a cultura só não é bem mais exportável porque não deixam. Esta mensagem de tempos passados, mas tão enraizados, de uma censura salazarista, correu o mundo todo – mesmo que quase ninguém saiba, esteve ainda há pouco a viajar pela Ásia, com uma reação estupenda. Se queremos ser ainda mais atuais, basta olhar para o S. Luiz Teatro Municipal, sala que albergou e co-produziu Como Queiram, sempre esgotado, e que agora está em “digressão nacional” (e prevejo uma internacional, caso algum mecenas bondoso ou algo semelhante ressuscite deste nevoeiro). Também A Noite, de José Saramago, esteve sempre esgotada no Teatro da Trindade, “obrigando” a datas extra – esse tão belo presente para o típico português que deixa tudo para a última.

Com estes dados podemos pois concluir que o teatro está bem longe de acabar. É a força de vontade dos criadores, bem como a sua necessidade de sobreviver, que mantém o teatro vivo, numa altura em que a cultura, por não ser um “bem essencial” (seja lá o que isso for), está lá bem no fundo do poço onde mergulham as coisas não-interessantes.

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O teatro, em suma, foi-se modificando e complexificando com o passar do tempo. Neste século, simplifica-se: quanto menos cenários melhor, porque mais barato. Mas é o ator, em conjunto com uma equipa de profissionais na maioria sérios e apaixonados pela sua profissão, que fazem com que salas esgotem, os espetáculos sejam ainda exportados e só lá fora se fale de Portugal.

Falo de profissionais e de profissão: não um lapso, mas uma generalização incoerente e inaceitável. Falo também daqueles profissionais, em rigor, que albergam duas profissões – a do dinheiro e a do amor. Não falo apenas daquelas pessoas que gostavam de pisar um palco, enquanto hobby, não fazendo a mínima ideia do que é fazer teatro: falo daquelas pessoas que são teatro; respiram teatro; fazem teatro. Não falo de Tivolis comprados por bancos não portugueses, não falo de Teatros Nacionais ou Municipais, não falo de entretenimento puro e simples: falo do teatro, que em cada pequena aldeia, vila, cidade, se vai construindo com a força de vontade e o punho cerrado de quem sabe que atividade tão nobre é esta. Falo do que não se fala: do teatro. De todo ele. “Pequeno” e “grande”, do respeitado e do “amador”, afastando-me de uma visão estereotipada e elitista que muitos da velha guarda continuam a ter, talvez com o medo de serem esquecidos.

Falo de uma Federação Portuguesa de Teatro, que por vontade própria, alberga 61 grupos de teatro associativo e amador, promovendo o seu intercâmbio e a sua divulgação, por exemplo.

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Afinal, não me parece que sejam apenas os grupos situados nas grandes cidades que possam satisfazer as necessidades de uma população que, neste país pequeno, ainda é bastante considerável. Não são salas em Lisboa, Porto, Coimbra, Guimarães e pouco mais que vão fazer o teatro permanecer. São estes, os ‘pequenos’, os ‘putos’ que insistem em dar à população teatro, de qualidade e a preços que não suportam os custos de produção. Convivamos todos, para que o teatro subsista. Continuemos a lutar pelo que é nosso: não o Governo para a rua, como muitos proclamam, mas um Governo que não se alheie do que não lhe interessa ideologicamente, um Governo que apoie, qual mecenas de grande dimensão.

E nós, atores, encenadores, produtores, luminotécnicos, sonoplastas, cenógrafos, maquilhadores, figurinistas, por aí em diante, continuaremos, firmes, a fazer viver um teatro que nunca vai morrer. Um carnaval que, durante todo o ano, faz as pessoas pensar e sorrir: porque em Portugal, nem tudo é mau. Só se põe mau o que é bom. E isso sim, é triste.