Hoje comemora-se o Dia Mundial do Teatro e o Espalha-Factospara comemorar esta data, entrevistou o diretor artístico do Teatro Nacional D. Maria IIJoão Mota, onde nos adiantou novidades e contou-nos como tem sido esta viagem pelo teatro nacional.

Espalha-Factos: Comemora-se hoje o dia mundial do teatro. Ainda faz sentido comemorar este dia?

João Mota: Penso que cada vez faz mais. A verdade é que tem que se fazer homenagem, o lembrar não é mais que dizer que existe e obrigado por existir.

Em todo o mundo se celebra o dia 27, o que faz lembrar logo comunidade, o que é muito agradável. Um país também são várias comunidades, e a Europa não é mais que um conjunto de comunidades.

Aqui no teatro nacional, há para aí cinco espetáculos diferentes e de graça no dia de hoje. Em todos os anos todos os teatros usam este dia para dizer aos atores, encenadores, escritores e dramaturgos e aos futuros atores que o teatro está vivo e tem uma dinâmica própria. Estamos numa altura em que temos que nos lamentar. Eu sei que é caro fazer teatro – tem que se ensaiar os atores, a cenografia, a luzes, a publicidade, a comunicação, tudo se paga – mas eu tenho pena que os subsídios sejam tão pequenos. Aqui no Teatro Nacional temos menos 40% do que tínhamos antigamente, é pena. Eu sei que estamos todos em crise e que a crise chega a todos mas é muito interessante perceber que o teatro está em crise porque o Homem está em crise e tem-no estado sempre.

Quando é que o Homem não esteve em crise? Continuamos com a escravatura e há crianças em que as suas barrigas incham por fome. Enquanto isto existir tem de existir o teatro. O teatro anuncia futuros e por isso tem que falar do Homem hoje. E isso tem uma importância muito grande.

EF: Então, o Estado deve apoiar mais o teatro?

JM: Deve, claro, mas eles dizem que não têm dinheiro! O meu problema é que a cultura – a dança, o teatro, a música, a literatura – tem que ser considerada serviço público. Como serviço público, têm que ser ajudados pelo Estado. Há a febre do futebol… no teatro, há quem goste muito, há quem não saiba que gosta muito porque nunca veio. As pessoas muitas vezes preferem andar para cima e para baixo no Bairro Alto do que discutir um quadro que viram, um museu… perdeu-se o diálogo, perdeu-se o hábito de se falar da criação e isso assusta-me um pouco.

entrevista joão mota

EF: Em tempos de crise a todos os níveis, qual é a função do teatro nacional?

JM: É a função de todos os teatros. Anunciar futuros. O teatro nacional mais porque é pago por todos os contribuintes do país. O teatro não é de Lisboa nem devia ser do Rossio – está instalado no Rossio mas deve organizar tournés porque há professores, há jovens e idosos em todo o país. Nós no Teatro Nacional fazemos tournées exatamente porque não é só Lisboa.

EF: Tem-se assistido a uma diminuição do público nas salas de espetáculos, sobretudo em teatro. A que se deve?

JM: Isso é meio cá meio lá [risos], porque não corresponde inteiramente à verdade. Aqui temos muitas sessões de teatro para crianças, aos domingos das 11h30m ao 12h30m. É gratuito. Está cheio. Às terças feiras, lêem-se ou representam-se peças. De graça. Cheio.

EF: Ou seja, enche quando não se paga?

JM: Então não é falta de público. As pessoas estão com falta de dinheiro. Aqui mesmo os espetáculos pagos têm-se esgotado, porque trabalhamos também com associações, escolas e empresas e esse trabalho é muito bem feito. E as pessoas aderem. Temos que ir então a outro problema – tivemos que baixar os preços. Para grupos o preço dos bilhetes baixa, para ser acessível. Um bilhete que custa 17€, à quinta-feira custa 8€. Parecendo que não, as quintas feiras são as primeiras logo a esgotar.

Agora começámos também com espectáculos à quarta-feira às 19h. E esgota. Vêm muitos estudantes e as pessoas idosas que têm medo de sair à noite de casa. Ganhámos também esta aposta.

entrevista joão mota

EF: Até que ponto o D. Maria está disponível a novos projetos?

JM: Está sempre. O Teatro Nacional só faz co-produções. O Teatro Nacional está aberto, mas tem que ter um mínimo de qualidade. As pessoas podem não gostar, mas qualidade teve que ter. Vem cá o Gorjão – se eu lhe falar do Gorjão você não sabe quem é. Se falar de Diogo Bento também não sabe. Essa também é uma função do Teatro Nacional, desde que tenha qualidade e a sala livre, porque depois são opções, claro.

EF: Tenta-se atingir também vários públicos…

JM: É isso mesmo, é que não há um público, há públicos. Temos sempre teatro para jovens que geralmente anda mais à frente dos outros porque é sempre mais experimental. A criança se não for experimental não está uma hora e meia a ver. E tem de ser popular, porque estão todos juntos. Dá sempre para experimentar.

EF: O ano passado estreou-se o Teatro Avulso, vamos continuar a contar com iniciativas desse género?

JM: Vai continuar. Mas no Teatro Avulso tem que se ter uma folga de 15 dias para apresentar de dois em dois dias um espetáculo. Tem que ser doseado.

EF: Agora a pergunta cliché: pode avançar com algumas novidades para a próxima temporada?

JM: Começa com a Cornucópia, com um Pasolini. A seguir vem uma companhia do Porto, o Ensemble, que já cá esteve com Molière, com O Avarento (um espetáculo absolutamente espantoso). Estreamos uma peça com o Diogo Infante, o Albano Jerónimo, o Virgílio Castelo, a Sara Carinhas, todo o elenco do teatro nacional – entram ao todo 25 atores. Vem a Mala Voadora. Em Janeiro vem o Teatro do Montemuro que traz um espetáculo para crianças de manhã, com a Madalena Vitorino e um à noite para adultos. Vêm muitos – estes são só até fevereiro! [risos]

entrevista joão mota

EF: Desde que é diretor do Teatro Nacional D. Maria, qual foi a sua maior conquista?

JM: O caminho que é difícil. A mistura entre o novo e o velho. É uma das coisas que temos avançado e espero que continuemos a avançar. Não é só o novo que é bom, nem o velho: é importante ter no público, ao mesmo tempo, pessoas de 18/20 anos ao lado de pessoas de 60. E isso é maravilhoso.

E a coragem de se trabalhar com escolas e liceus. Este ano vieram crianças de São Pedro do Sul a Lisboa. Temos uma relação com o Ministério da Educação bastante boa. Fomos convidados para ir ao méxico representar o Gil Vicente, mas o preço da viagem é caro. Eles falam em internacionalização, mas falta sempre dinheiro. É pena.

EF: O que falta ao D. Maria?

JM: Ao D. Maria falta tudo o que falta ao Homem. Eu não penso o corpo do teatro diferente do corpo humano. O problema são as pedras que nos põem à frente. Mas é preciso coragem para as ultrapassar, embora muitas vezes venha o cansaço, não nos podemos deixar vencer por ele. Falta isso tudo.

EF: Um último apelo para trazer ainda mais público ao D. Maria.

JM: O público tem que sair de casa para vir ao teatro. Principalmente em grupo, porque dá para falar, para brincar e para ouvir. O saber ouvir é importante.

EF: Muito obrigado

JM: E o silêncio…

entrevista joão mota

Fotografias de Inês Galvão Teles