E chega assim ao fim mais uma edição da Monstra que animou Lisboa e em particular o Cinema São Jorge de 13 a 23 de Março. Sábado foi dia de anunciar os grandes vencedores, não sem render justíssima homenagem ao fantástico Animal Farm de Halas e Batchelor.

A animação deixa a capital, contudo não o fez sem antes nos deixar uma mensagem no meio da celebração e divulgação do cinema de animação que a Monstra tão bem soube promover.

Na dualidade entre a profunda crítica social e política oriunda de uma economia emergente, cuja crescente cultura e classe média se agitam perante a desigualdade do presente em O Menino e o Mundo, e o reavivar da duríssima crítica moral de Orwell ao totalitarismo de qualquer espectro político em Animal Farm, a Monstra consegue simultaneamente premiar e homenagear as críticas cinematográficas mais simples e eficazes a uma sociedade desigual.

O Menino e o Mundo 2

O encerramento oficial do festival e a sua entrega de prémios decorreu no sábado no Cinema São Jorge.

O Menino e o Mundo do Brasileiro Alê Abreu foi o grande vencedor, recebendo o prémio Melhor Longa – Grande Prémio Monstra 2014 | Prémio RTP, prémio que permite também que o filme seja exibido na RTP1 em breve. O filme ganhou também o Prémio do Público.

Cheatin’ de Bill Plympton foi ainda distinguido, arrecadando o Prémio Especial do Júri desta edição da Monstra.

Já nas curtas o Grande Prémio Monstra 2014 | Prémio RTP foi atribuído ao Boles de Spela Cadez, enquanto o Prémio Especial do Júri distinguiu Villa Antropoff de Kaspar Jancis e Vladimir Leschiov.

A lista completa dos premiados pode ser consultada no site da Monstra, aqui.

Animal Farm – 9/10

A versão de 1954 de Animal Farm, em plena Guerra Fria, assim como o uso de 1984 em sentido inverso, alimenta muita discussão sobre as formas de propaganda usadas por ambos os blocos envolvidos, e sobre o uso das artes e do cinema para subverter mensagens previamente não corrompidas por uma visão bipolar do mundo.

Orwell foi um extraordinário pensador e escritor, que soube manter-se independente numa altura de clivagem histórica, ao mesmo tempo que criticou com uma precisão e clarividência quase profética tanto o comunismo como o capitalismo, ambos formas de totalitarismo na sua visão.

Animal Farm

Ignorando a polémica sobre a forma de financiamento de Animal Farm, Halas e Batchelor foram fieis a Orwell quase até ao fim. Contudo, numa decisão no zeitgeist de 1954, certamente mais fácil de condenar nos dias de hoje, sentiram a necessidade de alterar o final obscuro e terrível de uma obra profética em algo que pudesse dar à audiência alguma esperança num futuro melhor. Esta decisão, a única lamentável na realização deste grande filme constitui uma subversão benigna, e não condena irreversivelmente um argumento de resto bem adaptado.

Visualmente o filme é muito bem conseguido, e a caracterização de cada personagem é uma reflexão cuidada ao pormenor do seu caráter, sem cair na tendência de caricaturar ou humanizar os animais em excesso. O filme é soberbamente acompanhado por composições de um homem apenas, Matyas Seiber, e as vozes animais também realizadas por uma única pessoa, Maurice Denham, num fantástico e elogiado trabalho.