Hollywood, tens cá disto? promete trazer, mensalmente, até nós aquilo que só Portugal nos dá: o Cinema Português. Não que de Hollywood não cheguem muitos títulos de qualidade, mas de Portugal, ao longo das décadas, têm sido muitos os grandes filmes de que pouco se fala. Esta é a rubrica certa para se falar deles.

Lauro António é mais conhecido do público português pelo seu trabalho como divulgador de Cinema, tanto em programas televisivos como em diversas obras literárias, palestras e exibições cinematográficas. Contudo, não podem ser esquecidos os vários trabalhos que realizou para televisão (sendo o último, o documentário Obviamente, demito-o!, sobre Humberto Delgado, de 2009) e os filmes que executou para o grande ecrã.

Entre as cinco longa-metragens que lançou, a mais famosa de todas é sem dúvida Manhã Submersa, uma adaptação do romance homónimo autobiográfico de Vergílio Ferreira (que interpreta também uma das personagens do filme). Tornou-se um sucesso além-fronteiras na época em que estreou, passando por vários festivais de Cinema do mundo, e foi em 1981 a seleção de Portugal para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, tendo talvez sido o filme do nosso país a estar mais perto de ser nomeado para o cobiçado prémio da Academia.

É uma história sobre conservadorismo, autoridade e religião, no Portugal do Estado Novo, que se centra nas experiências de António (Joaquim Manuel Dias), uma criança de doze anos que entra no seminário, onde o poder dos sacerdotes domina os inocentes e jovens frequentadores do local, pela ordem da austera D. Estefânia (interpretada por Eunice Muñoz), que influencia a mentalidade do rapaz e ambiciona para ele um futuro no sacerdócio. Mas António fica dominado pelo sistema autoritário do seminário, e as dúvidas e receios em relação àquele ambiente crescem, à medida que ele se submete mais e mais às regras extremamente rígidas impostas pelo Reitor (Vergílio Ferreira).

MS Seminaristas

É um filme de atores, com um elenco fabuloso que desempenha papéis extraordinários (todos foram escolhidos a dedo – e não há nenhum personagem que tenha sido mal aproveitado pelo argumento, escrito também por Lauro António), num auto retrato do que Vergílio Ferreira vivenciou na infância. Lauro António realizou um filme impecável, brilhante na fotografia e montagem e lindíssimo na utilização dos planos fixos, dos zooms e dos close-ups. Manhã Submersa é o testemunho da sabedoria de um dos mais conhecidos cinéfilos portugueses, em que homenageia os grandes Mestres do Cinema que o influenciaram, sem deixar, contudo, por se dominar pelos condicionalismos, criando assim a sua própria marca de autor.

Obra sobre a portugalidade e a imagem perpetuada pelo tradicionalismo do Estado Novo, Manhã Submersa não é um caso típico do Cinema português: é uma película original e perturbante, que coloca no centro da sociedade portuguesa os pequenos males que pertenciam ao quotidiano da ditadura e dos seus valores morais e sociais exageradamente rígidos e atrasados. Filme impressionante como poucos conseguem ser, porque não precisa de violência, alegorias e/ou desvios narrativos fáceis e hardcore para explicar a violência psicológica deste tipo de autoridade, que pesa no espectador e lhe traz todo o horror que Vergílio Ferreira e os seus colegas daquele tempo tiveram de suportar.

O filme foi lançado em DVD numa edição de fraca qualidade de imagem e som. Estaria prevista uma reedição, sem grandes melhoramentos, para comemorar o 30.º aniversário da estreia de Manhã Submersa. Infelizmente, tal não aconteceu, e assim, um dos filmes mais notáveis do Cinema português continua à espera de ser descoberto por muitos cinéfilos, e que merece ser urgentemente ressuscitada, tal como tantos outros títulos mal tratados da nossa língua. Uma obra memorável e intemporal.

Ficha Técnica:

Realizador: Lauro António

Argumento: Lauro António, a partir do romance de Vergílio Ferreira

Elenco: Joaquim Manuel DiasEunice Muñoz, Canto e Castro, Vergílio Ferreira

Nota: 9/10