Há poucas bandas no panorama atual que se possam assemelhar aos Black Lips no que diz respeito à atitude. Conhecidos pela sua postura irreverente e propensão para desacatos vários, a banda originária de Atlanta, Georgia, tem carregado consigo ao longo deste últimos 15 anos uma avalanche de controvérsia e notoriedade, muito devido à sua desavergonhada conduta de palco, para além dos bizarros videoclips que produzem e o conhecido gosto pela confusão generalizada.

Donos de uma atitude muito ligada ao punk degenerado dos anos 70, os norte americanos Black Lips foram, em 2013, a primeira banda rock americana a fazer uma tour pelos Países do Médio Oriente desde os anos 70. A este feito juntam-se inúmeras detenções e confrontos com as autoridades. Dito isto, o que se espera da música de uma banda como esta é exactamente aquilo que se tem ouvido desde que o saiu o álbum homónimo de 2003: um som sujo, baseado em sucessões de riffs minimalistas com raízes fixadas no rockabilly, no punk e nos blues sulistas.

Até agora o grupo editou um conjunto de discos acelerados, curtos, quase indistintos uns dos outros e sempre com aquele travo de embriaguez bem delineado. Uma carreira discográfica que já abrange mais de uma década que por sua vez tem sido dotada de uma lenta, mas recompensante evolução que se começou a notar em Let It Bloom, disco de 2005.

Assim, Março de 2014 vê nascer o sucessor de Arabia Mountain (2011). Underneath the Rainbow é o sétimo álbum de originais do grupo, cujo selo de produção está assegurado em sete músicas por Patrick Carney, baterista do famoso duo rock, The Black Keys (as restantes cinco estão sob a tutela de Tom Brenneck. É também um disco de grande qualidade e bem divertido de se ouvir.

Este sétimo trabalho é provavelmente aquele que melhor define e demarca o estilo da banda. O grupo sulista assina aqui um conjunto de 12 frenéticas canções, entre as quais se encontram alguns dos temas mais bem conseguidos e agradáveis da banda. Tudo isto conseguido através do estilo simplista e animado a que o som dos Lips já nos habituou tão bem. Underneath the Rainbow é o resultado de uma evolução ascendente que se tem verificado disco após disco.

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A primeira coisa que se nota ao longo deste novo álbum é a maior insistência na secção rítmica em algumas canções, nomeadamente as produzidas por Carney, que provavelmente influenciou esta escolha. A bateria ganha um novo dinamismo ao complementar os riffs simples dispostos por estas canções. Escolha bem acertada quando olhamos para faixas como Funny (uma das melhores) ou I Don’t Wanna Go Home.

Por outro lado, a estrutura das canções permanece quase imaculada: pequenas rajadas de melodias alegres, sotaque sulista e muita brejeirice sempre na marca dos 2-3 minutos. Muitos temas remetem-nos para as influências mais country da banda com um estilo de narração humorística de histórias que quase sempre envolvem rixas, bebida e loucuras, como podemos ver em Smiling e Justice After All.

Um dos destaques do disco vai para o primeiro single do disco: Boys in the Wood é um pequeno conto sobre pessoas a viver em caravanas e ladrões de carros ensopado em álcool e que recria muito bem aquele estilo de música de saloon. Uma canção cheia de groove que de uma maneira ou de outra evoca fortemente uns Kings of Leon do álbum de estreia. Outros destaques são a já referida Funny e Make You Mine.

No seu todo, Underneath The Rainbow é um disco com um ritmo de andamento bastante coerente e consistente. Um dos melhores aspectos está na produção que permite que cada música consiga adquirir a sua própria personalidade e se diferenciar das restantes. Assim, temos momentos distintos como uma bem disposta Drive-By Buddy, faixa de abertura perfeita para bater o pé enquanto se anda de carro, uma acelerada Dorner Party ou um dos momentos mais arrastados do disco, com a ácida Do The Vibrate.

Uma banda rock pura por natureza, os Black Lips assinam aqui um disco que se despede de forma magnífica com o tom épico do refrão de Dog Years. Underneath The Rainbow é um disco sem complexos, simplista e bem humorado. A banda faz tudo bem nesta nova mostra de canções inspiradas pelo estilo de vida “white trash” americano. Foram feitos claros progressos na demanda de melhorar o som e o estilo da banda e o resultado está a vista: o dirty south dos Black Lips nunca foi tão divertido e este novo álbum assume-se como um dos melhores trabalhos do colectivo. Alguém vá buscar a tequila.

Nota: 8.3/10

*Este artigo foi escrito, por opção do autor, segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945