Continua a cobertura do Festival Cinéma du Réel, em Paris. Hoje, com a análise dos primeiros dias.

Encontro com Joaquim Pinto na Fundação Calouste Gulbenkian

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Não só de monólogos fílmicos se compõe um festival, havendo também espaço para uma dialéctica íntima com realizadores e figuras de destaque do mundo do Cinema. Nesse sentido, é de louvar iniciativas como a que ocorreu no dia 21 de Março na delegação parisiense da Fundação Calouste Gulbenkian, tendo esta ilustre instituição promovido – sob a tutela do Cinéma du Réel – um encontro com o cineasta Joaquim Pinto. Pese a sua conhecida luta contra o vírus VHC, de hepatite C (experiência essa que documenta na sua mais recente obra: E Agora? Lembra-me), não deixou de proporcionar aos presentes mais de duas horas de partilha de experiência, sempre pontuada por momentos de grande sensibilidade. Começou por explicar o seu inicial envolvimento com o mundo artístico, que aflorou na sua vida de forma quase inexorável – sua mãe era escritora e convivia com personalidades como Eugénio de Andrade, entre outros – e, mais concretamente, a sua ligação com o cinema, que iniciou ao frequentar esporadicamente Cineclubes no Porto. Enfatizou, assim, a importância de referidos grupos de cinéfilos no acesso a tal arte, e as derivadas aberturas ideológicas, funcionando como uma rede de resistência política que se opunha às opressões do Regime.

Continua a verbalizar o seu percurso referindo a sua mudança para Lisboa, onde iria conhecer Fernando Lopes (seu vizinho), João César Monteiro, entre outros. Demonstra também a bipolarização então existente em Portugal, relativamente à criação cinematográfica; o Porto de António Reis e Manoel de Oliveira não tinha, naquela altura, qualquer tipo de contacto com Lisboa. Na sua biografia profissional partilha como foi trabalhar como engenheiro de som, em filmes de Manoel de Oliveira, Alain Tanner e Wim Wenders (aparece, inclusive numa breve cena d’ O Estado das Coisas, deste último). Refere também as mutações no seu percurso, desde a vontade de realizar (sendo um dos catalisadores deste desejo o filme Une Flamme Dans Mon Coeur), tendo-a enfim materializado na sua primeira obra Uma Pedra no Bolso (1988); à pele de produtor que acaba por vestir a certa altura da carreira. Um ilustre exemplo de filme por ele produzido prende-se com o incontornável Recordações da Casa Amarela, de César Monteiro. Contou, aliás, como decorreu o processo de candidatura deste filme a Veneza: o curador do festival tinha marcado uma ida a Madrid, de modo a visionar candidaturas espanholas ao evento. Sendo que não passaria por Portugal, Joaquim Pinto viajou até Espanha para lhe mostrar a obra recém terminada, sendo que nem foi necessária a projecção completa para que o filme fosse seleccionado. Como é sabido, este veio a ganhar, nesse ano, o Leão de Ouro, prémio máximo do festival.

Fora do âmbito pessoal, tendo sido previamente anunciado que a sua doença e último filme não seriam abordados, Joaquim Pinto esboçou uma distinção entre a realidade do cinema português do pré-25 de Abril e do período pós-revolucionário, enfatizando o incontornável papel da Gulbenkian no financiamento cultural directo e indirecto na época da ditadura: quer através do financiamento de obras e produções artísticas, quer da possibilidade que permitiu a artistas portugueses de estudar cinema no estrangeiro. Referiu que o apoio da Fundação ao cinema continua, até hoje, a ter grande relevância.

Para melhor ilustração dos objectos cinematográficos que referia, o cineasta mostrou excertos e fotogramas de filmes como Jaime, de António Reis, O Estado das Coisas, de Wim Wenders, e Recordações da Casa Amarela, de João César Monteiro.

O filme E Agora? Lembra-me consta na programação do Cinéma du Réel para os dias 22 e 29 de Março.

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Eugène Gabana Le Pétrolier – Jeanne Delafosse e Camille Plagnet (2013)

Num documentário cujo objecto de estudo são outros seres humanos (capazes de intelectualizar a experiência à qual estão a ser submetidos) surge sempre uma questão: quanto do que vemos é real na sua acepção mais estrita? Objectivamente, todo documentário está sujeito à ingerência da ficção quando retrata um ser humano porque, intencionalmente ou não, este tende a projectar uma ficção de si próprio; e se já num âmbito social orgânico isto é comprovado, ainda mais se evidencia quando escrutinado pelo aparelho cinematográfico (é de salientar a importância do ciclo dedicado a Jean Rouch neste festival, sendo a sua obra Chroniques d’un Été um dos principais pilares de análise desta temática).

É difícil compreender o alcance destas interrogações e aplicá-las a casos concretos, mas a verdade é que sentimos um pendor ficcional sempre demasiado presente em Eugène Gabana Le Pétrolier, filme de Jeanne Delafosse e Camille Plagnet. Este filme retrata a vida de um rapaz de 20 anos, natural do Burkina Faso (o Eugène, do título), na sua tentativa algo desesperada de ser um Midas das pequenas coisas do quotidiano. Observamos a sua venda de telemóveis e préstimo de favores – com comissão de agente, obviamente – a colegas. Mas surge, continuamente, o referido carácter demasiado construído da acção: a câmara parece sempre demasiado omnisciente dos movimentos, sempre demasiado fixa, e a própria ligação formal entre segmentos da vida de Eugène parecem mais dignos de uma narrativa contemplativa do que de um documentário.

É apreciável a relativa beleza de alguns planos, porém – principalmente aqueles onde Eugène e amigos andam de mota em péssimas estradas e após um black-out – a sua subtil crítica social.

Artigo redigido por : André Guerreiro (em Paris)

*Por opção do autor, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945