A 13º edição da Monstra progride no calendário e na competição. Nas longas, Bill Plympton e o seu novo filme Cheatin’ trouxeram comédia e catarse ao São Jorge, enquanto Blood-C: The Last Dark de Naoyoshi Shiotani não prescinde da ação e vingança do Anime.

Cheatin’ – 8/10

Bill Plympton poderia bem ser um sinónimo de independência no mundo da animação, mas o realizador americano decidiu elevar a fasquia para este Cheatin’ – longa que levou este ano a competição na Monstra, financiada parcialmente por crowd-funding.

Sem descolar totalmente do seu habitual estilo, e continuando Plympton praticamente a desenhar sozinho, Cheatin’ sofreu processamento digital (num bom uso do dinheiro de crowd-funding, diga-se), e mantendo o traço sketchy que o caracteriza cria uma imagem única, que, à falta de melhor, consegue apenas ser descrita como uma aguarela à qual a animação acrescenta profundidade e movimento.

Mas ao cerne. O que Cheatin’ promete com o título, certamente retribui no argumento. O musculado Jake salva a bonita Ella num duplo-encontro que tem tanto de surreal como de fortuito, e prontamente se casam. O que vemos seguidamente é uma relação que transpira libido e ao libido se limita, usando um amor naif unicamente transmitido pelo mais trivial simbolismo visual amoroso, ou pelo veículo eleito de Plympton, o vocábulo expressivo em tom, mas sem qualquer significado. O amor funciona apenas para Plympton como catalisador da vingança, e o sexo é o seu instrumento – e de que forma ele é usado em Cheatin’!

Cheatin'

Jake, ao convencer-se de uma infidelidade de Ella, lança-se numa frenética fuga entre muito desespero e lágrimas, numa sequência absolutamente fantástica, certamente a mais bem conseguida do filme. Mas, depois do desespero e da desilusão, a resposta é singular. Jake entrega-se nos braços da metade feminina da humanidade (toda ela) num obscuro motel à americana. Ella, ao aperceber-se, planeia a sua vingança, e após a infrutífera contratação de um assassino para matar Jake, lança a sua alma em cada uma das mulheres que Jake leva ao seu quarto de motel, usando um aparelho mágico de transferência espiritual.

Resta apenas o fim catártico do filme, perfeitamente adequado ao argumento, já por si bem articulado com todos os outros elementos do filme. Cheatin’ junta muito humor a muita sexualidade, e cria uma mistura que só resulta pela profunda e descomprometida caricatura dos agentes humanos que usa como personagens.

Blood-C: The Last Dark – 5/10

Desta feita o São Jorge emprestou a Manoel de Oliveira ao Anime, e à sequela da série Blood-C. Porquê The Last Dark? Não esperem perceber sem ler Manga, porque ou os 106 minutos deste filme falham em transmitir eficazmente o argumento, ou é este mesmo que falha clamorosamente em fazer jus aos tão famosos quadradinhos Japoneses.

Ignorando quão a montante falhou este filme ao inserir o espectador na história, temos Saya, a protagonista, com direito a tudo o que se espera dentro deste tipo de Anime, desde a espada samurai ao uniforme colegial e à agradável aparência, que encontra um grupo de adolescentes denominado Surat ao salvar Mana de uma espécie de monstro – o Elder Bairn, cuja aparente importância inicial se esbate durante o filme, e cuja história e destino permanecem certamente impressos em quadradinhos, tudo menos no filme. Surat é uma organização que combate a Youth Ordinance Bill, que define limitações à liberdade dos adolescentes e lhes impõe um recolher obrigatório. Esta lei está ligada a uma poderosa organização, Tower, que, com uma fachada empresarial, influencia governos e destinos por todo o mundo, e que é liderada por Fumito, o principal antagonista do filme.

Saya une esforços com este grupo, e o resto da ação corresponde ao desmantelar da Tower pelo esforço conjunto dos hackers de Surat, notavelmente Mana, e pela espada da protagonista.

Blood C

A existência de uma relação passada entre Saya e Fumito é aparente no filme, mas não nos é convenientemente explicada a sua natureza. Novamente remeto o espectador para o Manga ou a série, porque para todos os que os desconhecem, este filme é uma sucessão de plot-holes. Facilmente se percebe que um fã de Blood C terá uma muito melhor experiência sozinho numa sala escura com este filme, do que um leigo alguma vez poderá ter.

Visualmente o filme não compromete, seguindo as leis habituais do Anime. A clara tensão sexual entre Mana e Saya é transmitida de forma bastante eficaz, mas acaba por ser uma das poucas virtudes deste filme, a par das sequências de ação bem conseguidas, e da inacreditável capacidade do filme em manter de alguma forma o ritmo e o interesse do espectador, mesmo o leigo, que à falta de melhor se agarra à espada de Saya e ao sangue dos seus inimigos, usando-os como meio de transporte durante 106 minutos de incompreensão cinematográfica.

E assim tem sido o 13º Monstra, se há coisa de que não o podemos acusar é de ser monótono ou de apresentar um estilo uniforme de animação. A homenagem a Animal Farm, de Halas e Batchelor, e a longa de competição Rio 2096: Uma História de Amor e Fúria, de Luiz Bolognesi, prometem continuar a animar a Monstra que vai já lançada na sua segunda metade. Destaque também para as supercurtas, que prometem uma viagem alucinante à animação relâmpago, dia 22 às 18h30 no São Jorge.