Monstra 2014: O catártico Cheatin’ e a experiência Anime

A 13º edição da Monstra progride no calendário e na competição. Nas longas, Bill Plympton e o seu novo filme Cheatin’ trouxeram comédia e catarse ao São Jorge, enquanto Blood-C: The Last Dark de Naoyoshi Shiotani não prescinde da ação e vingança do Anime.

Cheatin’ – 8/10

Bill Plympton poderia bem ser um sinónimo de independência no mundo da animação, mas o realizador americano decidiu elevar a fasquia para este Cheatin’ – longa que levou este ano a competição na Monstra, financiada parcialmente por crowd-funding.

Sem descolar totalmente do seu habitual estilo, e continuando Plympton praticamente a desenhar sozinho, Cheatin’ sofreu processamento digital (num bom uso do dinheiro de crowd-funding, diga-se), e mantendo o traço sketchy que o caracteriza cria uma imagem única, que, à falta de melhor, consegue apenas ser descrita como uma aguarela à qual a animação acrescenta profundidade e movimento.

Mas ao cerne. O que Cheatin’ promete com o título, certamente retribui no argumento. O musculado Jake salva a bonita Ella num duplo-encontro que tem tanto de surreal como de fortuito, e prontamente se casam. O que vemos seguidamente é uma relação que transpira libido e ao libido se limita, usando um amor naif unicamente transmitido pelo mais trivial simbolismo visual amoroso, ou pelo veículo eleito de Plympton, o vocábulo expressivo em tom, mas sem qualquer significado. O amor funciona apenas para Plympton como catalisador da vingança, e o sexo é o seu instrumento – e de que forma ele é usado em Cheatin’!

Cheatin'

Jake, ao convencer-se de uma infidelidade de Ella, lança-se numa frenética fuga entre muito desespero e lágrimas, numa sequência absolutamente fantástica, certamente a mais bem conseguida do filme. Mas, depois do desespero e da desilusão, a resposta é singular. Jake entrega-se nos braços da metade feminina da humanidade (toda ela) num obscuro motel à americana. Ella, ao aperceber-se, planeia a sua vingança, e após a infrutífera contratação de um assassino para matar Jake, lança a sua alma em cada uma das mulheres que Jake leva ao seu quarto de motel, usando um aparelho mágico de transferência espiritual.

Resta apenas o fim catártico do filme, perfeitamente adequado ao argumento, já por si bem articulado com todos os outros elementos do filme. Cheatin’ junta muito humor a muita sexualidade, e cria uma mistura que só resulta pela profunda e descomprometida caricatura dos agentes humanos que usa como personagens.

Blood-C: The Last Dark – 5/10

Desta feita o São Jorge emprestou a Manoel de Oliveira ao Anime, e à sequela da série Blood-C. Porquê The Last Dark? Não esperem perceber sem ler Manga, porque ou os 106 minutos deste filme falham em transmitir eficazmente o argumento, ou é este mesmo que falha clamorosamente em fazer jus aos tão famosos quadradinhos Japoneses.

Ignorando quão a montante falhou este filme ao inserir o espectador na história, temos Saya, a protagonista, com direito a tudo o que se espera dentro deste tipo de Anime, desde a espada samurai ao uniforme colegial e à agradável aparência, que encontra um grupo de adolescentes denominado Surat ao salvar Mana de uma espécie de monstro – o Elder Bairn, cuja aparente importância inicial se esbate durante o filme, e cuja história e destino permanecem certamente impressos em quadradinhos, tudo menos no filme. Surat é uma organização que combate a Youth Ordinance Bill, que define limitações à liberdade dos adolescentes e lhes impõe um recolher obrigatório. Esta lei está ligada a uma poderosa organização, Tower, que, com uma fachada empresarial, influencia governos e destinos por todo o mundo, e que é liderada por Fumito, o principal antagonista do filme.

Saya une esforços com este grupo, e o resto da ação corresponde ao desmantelar da Tower pelo esforço conjunto dos hackers de Surat, notavelmente Mana, e pela espada da protagonista.

Blood C

A existência de uma relação passada entre Saya e Fumito é aparente no filme, mas não nos é convenientemente explicada a sua natureza. Novamente remeto o espectador para o Manga ou a série, porque para todos os que os desconhecem, este filme é uma sucessão de plot-holes. Facilmente se percebe que um fã de Blood C terá uma muito melhor experiência sozinho numa sala escura com este filme, do que um leigo alguma vez poderá ter.

Visualmente o filme não compromete, seguindo as leis habituais do Anime. A clara tensão sexual entre Mana e Saya é transmitida de forma bastante eficaz, mas acaba por ser uma das poucas virtudes deste filme, a par das sequências de ação bem conseguidas, e da inacreditável capacidade do filme em manter de alguma forma o ritmo e o interesse do espectador, mesmo o leigo, que à falta de melhor se agarra à espada de Saya e ao sangue dos seus inimigos, usando-os como meio de transporte durante 106 minutos de incompreensão cinematográfica.

E assim tem sido o 13º Monstra, se há coisa de que não o podemos acusar é de ser monótono ou de apresentar um estilo uniforme de animação. A homenagem a Animal Farm, de Halas e Batchelor, e a longa de competição Rio 2096: Uma História de Amor e Fúria, de Luiz Bolognesi, prometem continuar a animar a Monstra que vai já lançada na sua segunda metade. Destaque também para as supercurtas, que prometem uma viagem alucinante à animação relâmpago, dia 22 às 18h30 no São Jorge.

Zeen is a next generation WordPress theme. It’s powerful, beautifully designed and comes with everything you need to engage your visitors and increase conversions.

Mais Artigos
Time substituiu logótipo para apelar ao voto nas eleições norte-americanas