É interessante pensar que “réel” (significando real em francês) e “reel” (fita fílmica em inglês), palavras quase homónimas que representam conceitos abstractamente tão diferentes nas línguas referidas, tenham a mais estreita relação simbólica aplicados ao mundo do documentário: o eternizar em celulóide (e nas suas mais recentes mutações tecnológicas) uma determinada realidade, constituindo a matéria prima da memória. Memória essa que emerge de distintas esferas: a pessoal, por um lado, na figura do autor na sua interpretação da realidade – já que esta se trata de uma construção passível de ser decomposta de variadas formas – e, por outro, a esfera colectiva, no que diz respeito à consagração identitária de um grupo num determinado contexto histórico.

É precisamente nesse âmbito multifacetado da realidade que se foca a programação do festival Cinéma du Réel, que está a decorrer desde ontem, dia 20, até 30 de Março, no conceituado Centre Georges Pompidou, em Paris.

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Ilustrando a representação da memória sob o olhar pessoal (conjugando diferentes sensibilidades individuais aplicadas a distintos contextos sociais e históricos) figuram os ciclos em homenagem a personalidades como Jean Rouch, Eduardo Coutinho, John Berger e a obra conjunta de Raymonde Carasco e Régis Hébraud.

Quando se atende a este universo cinematográfico como arquivo documental da História da Humanidade e se sublimam várias obras a um denominador comum histórico, obtemos um rendilhado tecido de uma realidade mais ou menos próxima – e é nessa cristalização de um determinado movimento ou estado das coisas que temos a referida esfera colectiva da memória. A ilustre representação deste ano nessa categoria dá-se com o ciclo 25 de Abril – uma tentativa de amor, por motivo do quadragésimo aniversário da Revolução. Ciclo este tutelado por Federico Rossin em parceria com a Cinemateca Portuguesa, e contará com a presença do actual director deste organismo, José Manuel Costa, e realizadores como Rui Simões e Joaquim Pinto (cujo último filme E Agora? Lembra-me, premiado no Doclisboa’13 terá honras de special screening e posterior debate na Fundação Calouste Gulbenkian, em Paris).

Serão exibidos filmes do mencionado Rui Simões, mas também de Luís Filipe Rocha, António-Pedro Vasconcelos, João César Monteiro, entre outros. Mas a textura do festival nao se faz apenas de uma arqueologia documental: a atenção ao presente surge quer do regime competitivo que constitui o normal modus operandi deste tipo de festival, dividindo-se em Competição Internacional, Competição Francesa, Competição Internacional de Primeiros Filmes e Competição Internacional de Curtas-Metragens; quer da análise à situação atual da Rússia no que concerne às barreiras impostas à criação cinematográfica existentes, que merecerá também um debate e a exibição de episódios documentais materializando a opinião de realizadores sobre esta matéria.

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Será igualmente apresentado um ciclo intitulado Night Has Many Eyes que se debruça sobre um lado mais abstracto e ensaísta do documentário: trata-se de aferir a capacidade do realizador conseguir domesticar a noite (e tudo o que acontece na ausência de luz, tão indispensável que é a luminosidade para a captação fílmica). A sequência será composta a partir de filmes de Thomas Edison, dos primórdios do cinema, passando por Boris Kaufman e Dino Risi, até realizadores contemporâneos, como a austríaca Judith Zdesar.

O filme de abertura do Cinéma du Réel é Sacro Gra, de Gianfranco Rosi. O Espalha-Factos irá, nos próximos dias, proceder ao acompanhamento deste festival.

Artigo redigido por: André Guerreiro (em Paris)

*Por opção do autor, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945