Sofia Portugal está em cena com Cabaret Alemão, uma peça de Luísa Costa Gomes com a encenação de António Pires. O Espalha-Factos esteve à conversa com a atriz para perceber o conceito por detrás deste cabaret e para saber como começou. Podes ler tudo aqui:

Espalha-Factos: Como é que surgiu a ideia inicial de fazer este Cabaret Alemão?

Sofia Portugal: A ideia inicial foi da Maria [Maria Rueff, atriz], penso eu, e depois falou com o Pires [António Pires, encenador] e depois falou-me a mim. Eu fiquei muito entusiasmada. Nós fomos colegas de conservatório. Somos colegas há vinte e tal anos. Portanto, somos amigas próximas, somos comadres [risos]. Ela falou-me nisso, eu fiquei muito entusiasmada, depois no verão fechamo-nos lá em casa dela: fizemos uma investigação grande sobre as músicas, tivemos uma aula de música pelo professor Mário Vieira de Carvalho, que também nos fez uma espécie de visita guiada sobre todo o início do cabaret. Fartamo-nos de ouvir coisas e ver coisas, e depois fizemos um levantamento das músicas que nós gostaríamos de cantar e um levantamento dos temas que nós gostávamos de falar. E depois então foi dada à Luísa Costa Gomes esses temas para ela escrever sobre. Na verdade, foi procurar uma plataforma onde nós nos podemos expressar e dizer as coisas que queremos dizer. É o que isto é. É a nossa tomada de posição atual.

EF: E a Sofia já tinha feito algum teatro musical?

SP: Teatro musical, sim. Eu estreei-me em teatro a fazer Brecht, já fiz outros musicais, é difícil de enumerar todos. Mas sim, já tinha feito. Não tanto teatro comercial, talvez mais no teatro político. Fiz com o José Peixoto, com o João Lourenço, também fiz com outras produções fora no Trindade [Teatro da Trindade].

«é uma conjutura geral de escravidão, é isso que sinto»

EF: Como é que foi conciliar a música e o texto para esta peça nos ensaios?

SP: Para mim é muito divertido porque eu canto desde miúda. Eu tive uns anos no conservatório de canto, mas não acabei o curso. Depois durante algum tempo, mesmo quando comecei a fazer teatro, quando havia pouco trabalho, eu cantei em bares. Portanto, a música para mim sempre foi um trabalho bastante paralelo. Vejo sempre a música como um lado onde eu me divirto muito. Nem vejo muito como trabalho. É o meu hobbie. O teatro normalmente é onde tenho um trabalho mais continuado. Portanto, vejo sempre a música como um sítio onde eu me divirto-me.

EF: As cenas exibidas à imprensa mostram uma certa atualidade. Como é que avalia este cabaret político português atual?

SP: É uma tomada de posição artística por cada um de nós e pelo coletivo. É uma crítica, obviamente. Eu acho que é um manifesto. Acho que este é um espectáculo em forma de manifesto. É o que nós queremos dizer sobre o estado das coisas. Não só da arte como da forma como vivemos. Nós sentimos que vivemos numa falta de liberdade encapuçada, escondida. Não temos espaço para fazer o que queremos, não temos espaço para fazer o que gostamos. Um espaço de livre expressão. Está muito condicionada. Somos esgotados monetariamente e, por isso, temos de andar a correr a fazer coisas que nem é muito a nossa praia mas temos de as fazer para poder pagar as contas.

EF: Consegue explicar essa parte da falta de liberdade? É pela conjuntura?

SP: Porquê é que estamos tão condicionados? Sim, eu acho que sim. Eu acho que estamos todos sufocados. Eu sou um bocadinho extremista. Eu sinto-nos, nós portugueses, um bocadinho como escravos a trabalhar para dar metade ao Estado, a ter que pagar imposto sobre quase tudo, quase sobre o ar que respirámos. Depois não nos podemos expressar muito porque há muitos desempregados a quererem ficar com o teu trabalho. É uma conjutura geral de escravidão, é isso que sinto. E acho que os artistas têm muito pouco espaço.

Sofia Portugal e Maria Rueff em Cabaret Alemão

©Leonardo Negrão DN

EF: Como é que foi possível montar este Cabaret Alemão nesta conjuntura? Com apoios e vontade?

SP: Nasceu da vontade própria. Eu e a Maria estávamos dispostas a fazê-lo fosse em que circunstância fosse. Aliás, inicialmente pensamos fazer a custo zero e depois logo se via. Mas depois o Pires, quando se juntou ao projeto, juntou também o Teatro do Bairro e montou este espectáculo numa programação. Isso possibilitou ter algum fundo para montá-lo.

«a ideia é criar um espaço bafón, clandestino, onde se podem dizer as coisas proibidas»

EF: E esta peça é para que público? Para toda a gente? Os jovens?

SP: É para toda a gente. Acho que toda a gente se vai divertir. Nós cantamos músicas dos anos 30. São músicas intemporais. Eu acho que é mesmo para toda a gente. Claro que estamos a fazer isto à segunda e à terça-feira e isto possibilita, por exemplo, aos nossos colegas para vir ao teatro porque são dias em que não têm espectáculo. A ideia é criar um espaço bafón, clandestino, onde se podem dizer as coisas proibidas. Mas eu acho que este espectáculo não tem cor. É uma crítica generalizada. Não é de esquerda nem de direita. Nem de coisa nenhuma. É um grito de liberdade que está muito acima da política. É uma crítica absolutamente generalizada e a nós próprios, em como nós deixamos ficar em situações em que não nos expressamos livremente.

EF: O que há de alemão neste cabaret? Há a parte histórica, e talvez uma certa rigidez?

SP: Havia essa ideia inicial, sim. Dentro do levantamento dos tópicos e dos alicerces do espectáculo, nós falamos da disciplina alemã, do rigor, das coisas boas que os alemães têm. A música: os alemães têm compositores extraordinários. Os alemães têm grandes filósofos. Portanto, nesse sentido, tem caraterísticas alemãs.

EF: E não é para picar também a atualidade?

SP: Claro que sim. Esse é o primeiro objetivo.

«nós atores só somos felizes a fazer teatro»

EF: Porquê fazer teatro numa altura em que há muito teatro, mas em que este é mal pago? Porquê esta vontade?

SP: Porque nós, atores, encenadores, criativos – digo isto porque eu também enceno, faço direção de atores em televisão, faço couching – nós atores só somos felizes a fazer teatro. Como um pintor só é feliz a pintar uma tela, como um músico só é feliz a tocar. Nós precisamos de o fazer. Não é pelo dinheiro, é mesmo pelo nosso espaço de expressão. Mesmo para nos mantermos vivos, ativos, criativos e inteiros. Porque se não deixámos de existir como singularidade.

EF: Que tipo de humor é que vamos encontrar em Cabaret Alemão? Humor físico, é do texto… qual é mais trabalhado?

SP: Eu acho que o texto traz em si já uma grande parte da comicidade do espectáculo. Depois temos a Maria que eu acho que é a rainha da comédia. A senhora comédia. A Maria só por si acho que já é muito isso. É uma comédia ácida. Mas acho que está em todo o lado. Começa pelo texto porque as partes mais poéticas, diria, algumas partes são cantadas. Se bem que também há músicas que são de uma acidez e de uma comicidade muito grande. Tanto na música como no texto, há comédia. E na Maria, obviamente [risos].

EF: Aprendeu um bocadinho com ela esta parte cómica ou já tinha trabalhado nisso antes?

SP: Eu tive a sorte de integrar um elenco de um programa que a Maria fez há muitos anos que se chamava o Programa da Maria [SIC Gold]. Portanto, nós já tínhamos tido a oportunidade de nos divertirmos as duas em comédia. Eu, em teatro, a comédia que o meu animal conhece é mais a alta comédia, a de situação que tem graça. Diria que essa até é mais a minha praia. Aí está assente a dramaturgia deste espectáculo: a Maria é mais a cómica, e eu serei mais a atriz séria que tem graça pela situação. Desde o início que assumimos essa diferença como uma mais-valia. E não tentar uniformizar. Tentar tirar partido da diferença porque acho que é mais interessante. Eu penso que isso está aqui no espectáculo.

cabaret alemão teatro do bairro rueff portugal

EF: Qual é a exigência deste espectáculo? Já falou da música, da comédia… é um texto bastante exigente?

SP: É, e é de uma golfada, é de correr. Estão sempre a acontecer coisas. A exigência é a todos os níveis. É vocal, é físico, é de rapidez, de raciocínio mental porque a comédia tem isso: é muito rápida. Exige uma lucidez e uma atenção que eu não estou habituada. Estou mais habituada a uns timings mais poéticos. Para mim essa é a grande exigência: a rapidez.

EF: O Teatro do Bairro, e pegando na sua noção de clandestinidade, é o espaço ideal para fazer este espectáculo?

SP: Eu acho que sim. É o espaço ideal. A ideia é tomar isto num espaço de reunião, é isso que estamos aqui a fazer, supostamente. Isso quando se vê o espectáculo todo percebe-se. E depois o cabaret é outra zona. É aquilo que estamos a fazer para disfarçar.

«sei disto que é ser hamster, de andar a correr para conseguir fazer tudo»

EF: Vimos uma cena do seu monólogo em que fala sobre o papel da mulher. Qual é a sua opinião sobre este tema?

SP: É um dos temas que me são muitos caros. Foi dos temas que quando falamos, eu disse logo que queria falar. Sobre o que é isto da liberdade da mulher porque efetivamente não era isto que nós queríamos. Eu lembro-me da minha mãe andar nas manifestações das mulheres, nos movimentos feministas. Eu lembro-me de ir com a minha mãe com o carro defender a Pintassilgo à Presidência. Eu tenho isto na minha génese. O meu pai é um Capitão de Abril, portanto, eu tenho isto muito na minha génese, no meu código genético.

Depois, de repente, eu tenho três filhos e sei disto que é ser hamster, de andar a correr para conseguir fazer tudo. Na verdade, as mulheres podem fazer tudo. Mas para conseguirem os seus lugares têm de fazer muito. Às vezes, para conseguirem ter um posto – é horrível dizer isto a um homem mas é isto que eu sinto… aquilo que eu estou a dizer [enquanto personagem] é exatamente aquilo que eu penso. Temos de responder à voz do chefe, à voz do patrão, temos de provar todos os dias que temos de estar ali a um homem que está na mesma posição do que nós, temos de fazer o trabalho por dois ou três. É exatamente isso que eu penso por muito escandaloso que possa dizer.

EF: É isso o que a personagem pensa?

SP: Sim, absolutamente. Eu acho que a igualdade ainda é só para a cota, só para inglês ver. Acho mesmo. Porque na hora da verdade, dos despedimentos – como agora – as primeiras a saltar são mulheres. As primeiras a saltar quando há trabalhadores a mais são as mulheres. Porque efetivamente o poder ainda é uma cadeira masculina. E o resto é conversa. O resto é treta.

EF: Então, o que se passa nestas tábuas [palco do Teatro do Bairro] é biográfico?

SP: Nesse sentido, é. Sim. Absolutamente.

EF: E o que pode ser feito para mudar esse paradigma?

SP: Eu acho que faz parte da educação na sua génese. De como nós educámos os nossos filhos. Preocupa-me. Eu tenho dois filhos e uma filha. Eu faço a minha parte. Eu quero muito educá-los na igualdade. Na igualdade de direito e de obrigações. Sobretudo nas obrigações isto está muito difícil. Temos os direitos, mas as obrigações não são distribuídas. Continuam a estar sobre a figura feminina. Então a mulher tem de trabalhar, mas também tem a obrigação de fazer tudo em casa. De repente adquirimos os direitos mas não distribuímos as obrigações. Acho que essa parte é que tem de mudar.