Chega hoje aos cinemas portugueses a adaptação ao cinema do livro de José Mauro de Vasconcelos, O Meu Pé de Laranja Lima, um dos livros com mais sucesso no Brasil, tendo sido traduzido para 52 línguas, publicado em 19 países e adaptado ao cinema e à televisão.

Zezé, um menino que com 5 anos tem o mundo inteiro no coração, pertence a uma família numerosa e com poucos recursos financeiros. Com a mãe a trabalhar longe de casa e o alcoólico e deprimido pai desempregado, as crianças acabam por ser criadas pelas irmãs mais velhas. Apesar da conjuntura familiar, que lhe rende recorrentes descomposturas e constantes maus-tratos, a sua vida vê melhores dias quando, ao mudar de casa, encontra no seu novo quintal um pequeno pé de laranja lima que se torna seu amigo e companheiro de brincadeiras.

ZezePe © CAMILA BOTELHO

Enquanto assistimos ao filme, somos capazes de voltar a ver o mundo pelo olhar curioso e idílico de uma criança, misturando sonhos e imaginação, fazendo-nos acreditar neles ao ponto de, por momentos, não distinguirmos realidade e fantasia. Assim, o espetador acaba por ser absorvido por este mundo mágico e esquece-se de que está apenas numa sala de cinema e não a brincar com Zezé e o seu irmão Luís no seu quintal.

Marcos Berstein presenteia-nos com um filme lindíssimo sobre o que é ser-se criança, com tudo o que isso implica – a inocência, a ingenuidade, a visão brilhante e colorida do mundo e, acima de tudo, a esperança que acompanha todos os momentos. A forma como dirige toda a história é surpreendente, tanto pelos movimentos de câmara arrojados que atribuem uma informalidade à narrativa ao nos aproximar das personagens, tanto a nível físico como emocional, como a excelente direção de atores que transmite uma genuinidade difícil de encontrar nos filmes de hoje em dia.

É de salientar a performance de Zezé (João Guilherme Ávila), que nos comove durante todo o filme, tanto ao apertar-nos o coração quando sofremos com ele, como ao alegrar-nos quando vemos (e vivemos) a sua pura felicidade. A ternura com que trata o seu pequeno irmão Luís é esmagadoramente tocante ao ser visível o esforço que faz para o transportar para um universo mais feliz do que aquele em que vivem. Também a personagem de José de Abreu, o Portuga, nos surpreende ao fazer um ternurento retrato de um português com uma idade já avançada, mas ainda com um espírito muito jovem, que acaba por se tornar num grande amigo que marcará para sempre a vida desta criança.

Caneta © CAMILA BOTELHO

A banda sonora de Armand Amar e da Orquestra Filarmónica de Praga flui tão bem com as imagens que nos parece impossível imaginá-las sem ela: uma perderia todo o sentido sem a outra. Cada nota parece escolhida a dedo, enriquecendo a história de tal forma que lhe confere uma carga emocional fortíssima, mesmo quando as imagens são apenas sugestivas.

Apesar deste mundo de beleza e fantasia que nos é apresentado, toda a história é pautada por um triste e trágico espírito, que muitas vezes nos puxa bruscamente de volta à realidade (será que a dita “realidade” tem sempre de ser mais negra?), tal como acontece com Zezé quando o pai aparece em cena. Assim, é-nos constantemente relembrada a triste vida desta família, a que Zezé tenta fugir a todo o custo, mas que sempre acaba por persegui-lo e se impor.

Desta forma, entramos no mundo, na cabeça e no coração deste menino “com o diabo no corpo” que ama a sua família de uma forma tão cheia e verdadeira que quase transborda de si (e do próprio ecrã) e cuja sede de vida e de conhecimento o salvou daquilo que poderia ter sido um triste e resignado destino.

Saímos da sala ao som de Sunny Day, de Alban Sautour, com um sorriso tímido enquanto limpamos as últimas lágrimas, acreditando, tal como Zezé, que “good times are here to stay”. Isto porque, apesar de haver dias negros em que as coisas não correm como queremos, há sempre algo ou alguém para nos alegrar o dia, seja uma pequena planta ou um grande adulto.

8/10

Ficha Técnica:

Título Original: Meu Pé de Laranja Lima

Realizador: Marcos Bernstein

Argumento: Marcus Bernstein, Melanie Dimantas

Elenco: João Guilherme Ávila, José de Abreu, Caco Ciocler

Género: Drama

Duração: 99 minutos