A Música é um elemento indissociável da 7ª arte: desde os tempos do cinema mudo, em que partituras inteiras eram compostas para serem tocadas ao vivo, até aos dias de hoje, em que certas canções têm mais destaque que o próprio filme em que estão incorporadas.

Esta associação entre as duas (e por vezes mais) formas artísticas é feita, nalguns casos, de forma ignóbil, e noutros de forma mais ou menos acertada. No entanto, quando realizador, compositor, atores e toda a equipa técnica se encontram em perfeita harmonia, por vezes, acontece magia. Acontecem aqueles flagrantes e dissimulados momentos pelos quais os amantes de cinema “rezam” cada vez que as luzes se apagam na sua “igreja”.

O Espalha-Factos convida-te a participar numa demanda que visa encontrar e debater momentos destes, em que música e imagem se mesclam perfeitamente. Momentos mágicos que estão dispersos em incontáveis cenas produzidas ao longo dos tempos.

Para começar a aventura, a proposta é um filme que raramente é mencionado (principalmente, considerando a cena em questão). Falo-vos de Perfume de Mulher, de Martin Brest. Nomeado, em 1993, para quatro Oscars, incluindo o de melhor filme, este drama americano é recordado sobretudo por ser a causa do único galardão da Academia atribuído à lenda viva, Al Pacino.

No papel do cego Tenente-Coronel Frank Slade, Pacino é colocado sob a tutela de um jovem interpretado por Chris O’Donnell. Estando ambos em encruzilhadas distintas nas suas vidas, têm de encontrar forma de conviver e sobreviver através de uma aprendizagem mutua.

Em determinada altura do filme, Frank convida uma bonita mulher para dançar o tango num restaurante. A música que a orquestra presente toca é um clássico do músico argentino Carlos Gardel: Por una Cabeza. Embora a música tenha letra, a versão utilizada, tocada pelo grupo The Tango Project não faz uso da mesma.

Reconhecida como um dos maiores hinos cinematográficos de todos os tempos, esta música é também utilizada por Steven Spielberg ao apresentar-nos o protagonista de A Lista de Schindler, Oskar Schindler.

http://youtu.be/A1oUeWzaLEE

Tango é um estilo musical do qual é inseparável uma carga sexual bastante evidente. Os seus acordes parecem afligir o ouvinte, ao ponto de o fazer procurar pelo seu par: para a dança e para o resto da vida.

Arrancando discreta e nervosamente, a música dá tempo para o par se conhecer. Uma vez ganha a confiança, ambos se enrolam numa doce e frenética luta pelo prazer do outro, que culminará num abraço artístico, criando como que uma estátua eterna, exposta para que todos os contemplem.

Ora, a personagem de Al Pacino fica, tal como o título do filme indicia, “embriagado” na presença de belas mulheres e de tudo o que lhes é inerente: o toque, o riso, a voz, a pele e, principalmente, o perfume. Mantendo um registo irónico, soturno e carrancudo durante toda a película, o protagonista mostra nesta cena uma felicidade e excitação incontidas, como se fosse um rapazinho a dançar com a rapariga dos seus sonhos.

E esta é a magia que se procura no cinema: esquece-se a ficção e um sorriso rasgado começa a surgir nos lábios do espetador, como se a felicidade destas personagens fosse de uma vital importância.

E afinal de contas: não é?