A 13ª edição da Monstra soma mais dois dias: um dedicado inteiramente ao cinema Húngaro, com destaque para um dos seus maiores expoentes, o Tempos Heroicos de József Gémes; e outro que marca a abertura de hostilidades na competição de longas, com O Menino e o Mundo do brasileiro Alê Abreu.

Tempos Heroicos – 8/10

Este importante filme húngaro, largamente desconhecido, é um épico que adapta a trilogia Toldi, de János Arany, de leitura obrigatória para qualquer estudante húngaro.

A sua maior característica distintiva é o seu inconfundível e incomum estilo, incontornável desde o momento inicial. A imagem é toda criada a partir da animação de pintura a óleo, sem qualquer das habituais técnicas modernas que dão agora a muitos filmes de animação alguma uniformidade visual.

No meio das impressionantes pinturas que passam diretamente de uma tela para o ecrã, surge a história de Miklós Toldi, um misto de herói e anti-heroi que se apresenta diametralmente diferente dos heróis de cavalaria tradicionais. Miklós é humano e como tal imperfeito. As suas ações alternam entre uma coragem e justeza extremas e o seu inverso, e o seu lado negro vai reaparecendo à medida que ele navega pela história do seu reino, e influencia o seu destino de forma marcante.

Tempos Heroicos

Segundo informações dadas antes do início da sessão, a decisão de incluir narração foi tomada na tentativa de tornar o filme menos críptico para o público, principalmente o internacional. Tal decisão não foi isenta de polémica, mas a narração é o elemento que permite seguir de forma menos especulativa o enredo, apesar de poluir de alguma forma a maravilha visual que é este filme. Fica a impressão de que Tempos Heroicos merece ser observado e interpretado com conhecimento da história original, tal como Gémes o terá originalmente concebido. Por outro lado, ficam sérias dúvidas se a tradução apresentada faz jus à importante e celebrada trilogia de János Arany.

O Menino e o Mundo – 7,5/10

O novo filme de Alê Abreu inaugurou a competição de longas da Monstra, chegando a Portugal no início do seu percurso por festivais europeus já bastante premiado no seu país de origem. O Menino e o Mundo apresenta-nos o nosso mundo, maravilhoso e tenebroso, visto pelos olhos de um menino.

Alternando livremente entre o sonho e a realidade, a animação do filme mantém uma fluidez e simplicidade que resulta numa sensação de pureza e inocência, adaptando-se de forma perfeita ao argumento. Nele, um pai que está de partida deixa ao seu filho uma fotografia e uma melodia que toca ao afastar-se. A melodia desperta a saudade que impulsiona a criança na procura pelo seu pai.

O Menino e o Mundo

A música, de composição simples, está adaptada ao tema, e os diálogos ocorrem em português invertido (o protagonista chama-se Ominem), podendo captar-se apenas a entoação, que cria um efeito bastante interessante.

O filme percorre os efeitos da revolução industrial e as transformações da sociedade moderna, que o protagonista não entende, mas que ganham profundo significado para o espectador.

O Menino e o Mundo é assim um olhar crítico sobre a sociedade contemporânea e capitalista, com especial ênfase para a realidade brasileira. A pobreza, a desigualdade e a sociedade de consumo, assim como os vícios e defeitos do homem, são eficazmente ridicularizados pelos olhos do mais frágil e mais puro dos seus filhos. A incompreensão da criança ao deparar-se com um mundo injusto e imperfeito desperta-nos sentimentos de empatia e compaixão, sendo esta ligação bem conseguida no filme.

A competição da Monstra 2014 foi assim iniciada da melhor forma, e deixa já boa impressão nas longas. De seguida inicia-se a competição de curtas, mas as atenções estão já viradas para Cheatin’ de Bill Plympton e Pinocchio de Enzo D’Alo, com sessões no Cinema São Jorge e Cinema City Alvalade nos próximos dias. Consulta o programa aqui.