Maria Rueff está em cena no Teatro do Bairro com Cabaret Alemão, uma peça de Luísa Costa Gomes com a encenação de António Pires. O Espalha-Factos esteve à conversa com a atriz para falar sobre este manifesto em jeito de cabaret. Podes ler tudo aqui:

Espalha-Factos: O Cabaret Alemão é uma espécie de manifesto da Maria, da Sofia [Sofia Portugal, atriz], do encenador, e do próprio Teatro do Bairro. Confirma? Porquê este manifesto?

Maria Rueff: Eu senti enquanto criadora que era importante nesta altura que vivemos voltar a este lado subversivo do humor político recuperando o que os alemães fizeram nos anos 30 nos cabarets indo contra o regime do Hitler. Não destituíram o Hitler, mas incomodaram ao ponto do Hitler ter mandado fechar os cabarets. Portanto, hoje em dia temos uma espécie de Hitlers sem rosto. Se calhar a forma de nos esvaziar é uma forma financeira, económica – e apesar das leis aparentarem o contrário – ressurge uma espécie de neo-machismo, de homofobia. Os valores da sociedade estão perdidos… a genorosidade, a integridade, a justiça. Portanto, apeteceu-me voltar a esse meu lado enquanto humorista onde eu comecei: em café-teatro. Há uma proximidade com as pessoas, de lhes dizer as coisas quase ao ouvido. Portanto, foi essa necessidade que me fez fazer isto.

EF: E o Teatro do Bairro, com um ambiente bastante íntimo, é o ideal para fazer o Cabaret Alemão?

MR: É. Não só por uma relação de amizade, eu, o Pires [António Pires, encenador] e a Sofia [Sofia Portugal, atriz]… Mas porque o próprio Teatro do Bairro significa um pouco isso na cidade. Completamente alternativo no sentido das variadíssimas correntes de tudo o que é avant-garde neste momento quer a nível de música quer a nível de movimentos teatrais… algumas reuniões políticas também são aqui feitas. Portanto, era justamente esse sítio de bafon, frequentado por intelectuais, artistas, poetas, cantores, bailarinos, pintores, que nós quisemos juntar a esta ideia. E assim foi.

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A Sofia, a minha colega de Conservatório, tem muita experiência em Brecht. Ela fez várias peças do Brecht no Teatro Aberto. Canta maravilhosamente e sente ela própria também essa necessidade e, portanto, juntou-se o útil ao agradável. A Luísa Costa Gomes já escreve para mim e para o Pires há muitos anos. É uma mulher que tem um humor muito ácido que eu adoro e subscrevo. Portanto, convidamo-la a traduzir algumas coisas dos próprios alemães que são assustadoramente atuais e foram feitas nos anos 30. Contamos também com a pesquisa do professor Mário Vieira de Carvalho, musicólogo, que levantou todo esse repertório do cabaret.

«uma metáfora como se fossemos todos alemães ou colonizados»

EF: E esta parte alemã não é ingénua, certo?

MR: Como é óbvio. Digamos que o próprio título Cabaret Alemão é já um piscar de olho, ou seja, uma metáfora como se fossemos todos alemães ou colonizados com os alemães aí à nossa volta.

EF: Esta parte musical do teatro – a Maria já fez em televisão, por exemplo, no Estado de Graça (RTP1) mas em pequenos momentos – como foi a adaptação? Já tinha feito isto em teatro?

MR: Tive algumas experiências… Sou uma atriz que por acaso também canta. Não sou uma cantora. Justamente o que os alemães chamam de cabaretistas – que são os que estão na origem do stand-up comedy (aquela parte que tu viste falada é a origem do stand-up) [referindo-se às cenas apresentadas à imprensa] – também fazem uma coisa alemã que é parolar dentro das músicas. Eles falam e cantam ao mesmo tempo. Não é um cantor que só canta, mas é meio parolado.

EF: Meio declamado?

MR: Meio declamado. Digamos que é um cantar muito teatral. Adapta-se perfeitamente ao que eu estou habituada a fazer.

EF: A Maria veio de uma peça, Lar Doce Lar, que teve um sucesso extremo – acho que posso dizer…

MR: Sim, aliás, com esta equipa: o Pires e a Luísa Costa Gomes. Quase que “em equipa vencedora não se mexe”.

EF: Sim, mas aqui num novo contexto, numa coisa mais pessoal, talvez…?

MR: Não, numa coisa mais alternativa. Eu movo-me em vários sítios. É mais uma vez a minha necessidade… eu quando recebi o Globo [de Ouro, SIC] pela Lar Doce Lar disse isso justamente às pessoas: de se acabar com o preconceito. E o que sinto é isso. Ainda às vezes há muito esta necessidade de catalogarem as pessoas, “porque faz naquilo não pode fazer aquilo”.

«estamos todos a fazer o mesmo e de mãos dadas»

EF: As pessoas são mais esquizofrénicas do que aparentam?

MR: As pessoas é que nos têm a necessidade de nos colar rótulos. E eu sou uma atriz formada pela escola, tenho amigos em variadíssimas companhias de teatro – umas alternativas, o chamado off Broadway, outras nas coisas mais comerciais – e somos todos amigos. Estamos todos a fazer o mesmo e de mãos dadas, digamos assim. Eu venho aqui e estou aqui com o Pires, no seu espaço mais alternativo como o próprio Pires também vai fazer um teatro mais para todas as pessoas. Mas o que me move é o mesmo: é comunicar com as pessoas.

Maria Rueff

EF: E a televisão, acabou por ficar de parte… por não haver projetos?

MR: Digamos que a televisão… não é que ficou de parte. Eu tive o privilégio de fazer sempre essencialmente programas de humor. Provavelmente agora as televisões estão mais a apostadas nos funnies, nos engraçados, e menos nos atores humoristas, menos nos comediantes. Portanto, se calhar não há espaço, não sei. Não é que não haja projetos, e não é que não haja vontade.

EF: A exigência deste espectáculo é certamente diferente. Como é que se lida com estas duas vertentes: a da comédia e a musical?

MR: Prepara-se.

EF: Mas é diferente?

MR: Não, não. Eu entrego-me tanto aqui como num texto de Shakespeare ou no Lar Doce Lar.

EF: Sim, mas o próprio produto… o cabaret não é muito comum em Portugal. Como é que se chega ao produto final?

MR: Não, pois não, de todo. Chega-se trabalhando sempre. A frase que me guia é sempre: quando a inspiração vier que me apanhe a trabalhar. Aqui, no Tivoli, na televisão, a fazer Shakespeare, tudo. É sempre isso.

EF: Uma última questão – para quando uma segunda série de Submersos [Canal Q]?

MR: Lá está, esse produto, essa própria coisa dos Submersos foi feita num canal que não se importou de apostar num produto aparentemente menos para as massas.

EF: Porque é um canal que pode…

MR: Exatamente. Portanto, tens de perguntar também ao Filipe Homem Fonseca [risos]. Nós temos muita vontade, evidentemente, de repegar… quem sabe, quem sabe.