Se não estiveste a viver dentro de uma gruta, longe de qualquer meio de comunicação humanamente inventado, com toda a certeza saberás o que é a NSA, a Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos da América. Se sabes quem são, ficaste também nos últimos meses a saber que esta agência, pouco suspeita durante anos, agora consegue saber quando compraste e de que cor são as cuecas que estás a usar.  Como diz a canção:

[they’re] making a list
and checking it twice
gonna find out who’s naughty or nice
[NSA] is coming to town
[they] see you when you’re sleeping
[they] know when you’re awake
[they] know if you’ve been bad or good
so be good for goodness sake

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Neste The Internet Of Things vamos falar de como podes, através de passos simples, criar alguma proteção entre ti e o monstro da vigilância que vive nas catacumbas do sistema de segurança nacional americano.

NSA pixar

Quando, na obra 1984, George Orwell nos apresentava uma sociedade distópica em que tudo praticamente tudo o que fazíamos era vigiado, analisado, etiquetado e arquivado, não parecia razoável que isso acontecesse na vida real, pelo menos numa escala tamanha.

Agora nem chefes de estado nem qualquer outro cidadão está livre de ser registado e etiquetado, sem qualquer consentimento.

Assim aqui ficam as nossas propostas de alguns dos passos que podes dar para manteres alguma privacidade e anonimato na internet, porque hoje não há uma entidade muito definida que sirva de cabeça a todo este sistema de vigilância, tendo-se tornado um sistema tão complexo que é complicado saber quem sabe o quê e quem tem acesso a que informações.

1 – Usa mais que uma palavra-chave

Mais especificamente, usa passwords mais complexas. É verdade que já é uma chatice manter em mente todos os serviços que usas, quanto mais manter uma password diferente para cada serviço. Mas para te ajudar nesse penoso processo podes usar uma ferramenta muito bem-avaliada por publicações da especialidade, a LastPass.

O que este serviço faz é armazenar, offline, todas as tuas passwords, pelo que ficas apenas com a responsabilidade de escolher uma password-mestra que terás de usar para todos os serviços. Porque é que esta opção é melhor que manter todas as passwords  registadas no browser? O grande bónus desta opção é que crias um fosso entre aquilo que o teu browser regista no teu acesso e essa memória de todas as passwords, obrigando um possível hacker ou outro intruso a quebrar outro nível de acesso.

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2 – Apaga com regularidade a tua atividade

Quase todos os browsers são gratuitos. As grandes empresas de pesquisa e gestão de dados gerem esses serviços. Encontras alguma incompatibilidade entre a gratuitidade e a manutenção da tua privacidade? Pois, tens razão.

Os serviços de pesquisa mais populares nunca viveram do ar, a sua capacidade de captar informações em escala global e de as armazenar de forma legível é a sua fonte de rendimento. Se tens o teu smartphone com o GPS a funcionar regularmente, não só estás a gastar bateria, como também estás a dar dados muito importantes sobre a tua localização e o tempo que despendeste em cada lugar às empresas que gerem os teus dados.

Não acreditas? Se tiveres uma conta Gmail, algo que é necessário se estiveres a usar um smartphone Android, então visita esta página onde a Google te pode “ajudar” a lembrar onde estiveste a semana passada. A parte mais interessante disto, não é por usares apenas um portátil ou um smartphone de outra marca que vais deixar de ser registado, a Google apenas o torna mais acessível para o utilizador comum.

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Como podes então dar uma varridela no teu histórico e nos teus cookies (aqueles pedacinhos de informação que o teu browser guarda quando visitas a maioria dos websites, de forma a registar as tuas preferências de pesquisa)?

Uma das ferramentas mais usadas, disponível para Mac e Windows é o CCleaner. Este pequeno software faz um trabalho impressionante em analisar e eliminar as informações que o teu browser guarda sobre ti. Para além do mais ajuda também a eliminar parte dos ficheiros temporários e ficheiros “mortos” que o teu computador não elimina. Assim, dupla vitória: manténs alguma privacidade e fazes um boost ao teu PC.

3 – Há vida para além dos grandes motores de busca

É verdade que é extremamente cómodo usar motores de busca tão completos e com tantas funcionalidades associadas como o Bing ou o Chrome. Contudo, como já foi dito, nada é de graça e a tua pesquisa sobre massa bolonhesa na noite de sexta-feira, vai acabar por render a estes motores de pesquisa algum dinheiro, quando a empresa que produz a massa quiser anunciar algo especificamente para os “seus consumidores”.

Associados a estes motores de busca estão os softwares a que tanto nos habituámos: os navegadores (por exemplo o Mozilla Firefox, o Internet Explorer e o Google Chrome) que oferecem uma panóplia de serviços, funcionalidades e plug-ins que usamos todos os dias, para grande parte da nossa vida profissional e pessoal.

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Mas talvez seja tempo de tentar separar estas duas realidades: se por um lado é extremamente eficaz usar um conjunto de ferramentas como o Google Drive para as tuas tarefas laborais (eu uso-o diariamente e já não consigo viver sem ele!), também pode ser uma ideia interessante, especialmente se gostas de manter alguma privacidade, usares algumas estratégias de pesquisa diferentes quando fazes pesquisas pessoais.

Que estratégias? 

Podes usar a ferramenta de pesquisa incógnita que maioria dos grandes motores de busca oferece, no caso do Google Chrome chama-se Incognito (Ctrl+Shift+N para aceder); no Firefox é Private Browsing e no Internet Explorer é InPrivate browsing (Ctrl+Shift+P para os dois últimos). Desta maneira o browser não vai gravar as páginas que visitaste, as tuas pesquisas, passwords, cookies e outras informações temporárias.

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Se queres dar um passo maior e dividir os locais em que fazes as duas pesquisas, podes também usar alguns navegadores que se apresentam como anónimos. Um dos exemplos mais conhecidos é o DuckDuckGo, que fez de sua bandeira a premissa de não registar (e vender) as tuas informações; podes ainda experimentar alguns que apesar de se basearem no código-base do sistema da Google e da Firefox servem de intermediários entre os gigantes da pesquisa e tu, como utilizador; alguns exemplos conhecidos são o Comodo Dragon, o Comodo IceDragon (com raiz no código da Firefox) e o Dooble. Nada disto é garantido, mas cada vez mais utilizadoras/es a nível mundial tentam fazer esta separação utilizando algumas destas ferramentas.

4 – Usa serviços de email offline

Lembraste quando quase toda a gente usava o Outlook? Pois, apesar de antiquados, esses tempos garantiam alguma privacidade extra no que toca à troca de mensagens, muito mais que os serviços online podem oferecer.

Porquê? Quando envias um email a uma amiga com as fotografias e o nome do restaurante onde foste quando estavas de férias, o que se passa entre o momento em que envias essa mensagem e o momento em que ela chega ao destino, é todo um processo de análise, selecção, etiquetagem e formação de relações entre assuntos, isto é, o teu servidor de email faz um scan a todas as informações e mais tarde fornece-te publicidade baseada nessa informação.

Como é que podes “combater” este processo? Uma das formas de tentares evitar este registo, especialmente se trabalhas numa pequena empresa ou se queres aumentar o nível de segurança da tua troca de emails é aderires ao um sistema de comunicação encriptado, como o MyKolab, sediado na “privativa” suiça mas com a necessidade de pagar uma mensalidade, ou o HushMail, com mensalidade para empresas mas gratuito para utilizadores privados.

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Outra das opções é instalares alguns dos plug-ins que alguns developers criaram para os grandes navegadores, especialmente para os serviços de email, algumas das opções mais usadas são o SecureGmail, para Google Chrome, que te pede uma senha e depois pede a quem recebe a mensagem que instale o mesmo plug-in e use a password para poder desencriptar; Mailvelope é outra extensão (para Chrome Firefox) que ajuda a encriptar emails nos serviços Gmail, Outlook.com Yahoo Mail.

Por fim, podes, e esta talvez seja a ideia mais inteligente, afastar-te de vez dos serviços baseados na web e voltares a usar os softwares como o Thunderbird ou o Outlook, visto que estes podem ser melhorados com alguns add-ons de encriptação o que multiplica a privacidade das tuas comunicações.

5 – Pensa antes de postares

As redes sociais são provavelmente uma das formas mais estranhas de interacção humana: não devido à sua capacidade de nos unir apesar de grandes distâncias (isso até que é muito porreiro), mas pelo efeito perverso que tem nas mentes dos utilizadores, que na sua maioria não filtram o que postam, espalhando aos sete-ventos o quanto gostam de pizza Hawaii ou quantas vezes vão aquela loja de roupa.

Apesar de já haver dezenas de artigos sobre isto vale sempre a pena lembrar que não, as redes sociais online, não são a mesma coisa que as redes sociais “físicas”. Nas segundas não é comum haver alguém sentado num canto a registar tudo aquilo que é dito num bloco de notas para depois o ir vender a grandes empresas, no segundo, é exactamente isso que acontece. Até mesmo com aquilo que te arrependeste e acabaste por não partilhar.

NSA vs ONU

Para finalizar, não, a privacidade não é um direito de que tens de prescindir quando usas a internet. Tens o direito de aceder a um maior universo de conhecimento sem que te vendam um pacote de batatas fritas porque pesquisaste algo relacionado. Tens apenas de ser mais cuidadoso.

Até à próxima semana e atenção ao que partilhas.