Na edição desta semana, atenções todas voltadas para Suzy. A vencedora do Festival RTP da Canção vai representar Portugal na Eurovisão a 6 de maio e, declarada vitoriosa, não se escapou a polémicas. Os segundos classificados falam em centrais telefónicas para manipulação de resultados e até de transgressão no regulamento do evento.

Emanuel venceu pela segunda vez o Festival enquanto compositor e produtor. A primeira vez, em 2007, foi com o Dança Comigo de Sabrina. A música ficou a três pontos da final eurovisiva, 11.ª numa semifinal de 27 participantes e deixou o rei da música pimba bem cotado entre os eurofãs portuguesas. O regresso em 2014 parece ser bem menos simpático, com a comunidade eurovisiva nacional a rejeitar de forma aberta a música vencedora. Similaridades: Ambas as canções venceram num ano em que a opção foi por um método de 100% televoto, juntando-se assim a Senhora do Mar como as três eleitas unicamente pelo público em sede de Festival da Canção.

Questões metodológicas e regulamentares à parte, que ainda terão de ser resolvidas entre a RTP e as partes interessadas, foquemo-nos no que interessa: a música portuguesa. Quero ser tua venceu e tem um longo caminho pela frente. Nos próximos dois meses tem de passar de pimbalhada mal-produzida a pop latino de pendor sensual e dançante. Uma espécie de Dança Comigo, parte 2. Ou alguém se esqueceu de como tudo era mais fraquinho quando essa música ganhou em 2007?

Uma cantora bonita já temos, os tambores já estão no palco e, fenómeno raro por estas bandas, até tivemos espetáculo de fogo. A intérprete tem de ser ajudada, melhorar a presença em palco e melhorar a utilização dos seus skills vocais, que os agudos estão postos na canção de forma pouco harmónica e não estão a funcionar como âncora ao resto da música, mas antes como momentos isolados de gritaria despropositada. Os tambores estão no palco e devem ouvir-se na música, que a Eurovisão às vezes é só um grande espetáculo de batucada e agitação. O fogo deve surgir nos pontos altos da música, sendo usado como catalizador desse hino latino com tons étnicos ainda por fabricar.

Há muito por fazer pela nossa canção. Menos do que haveria a fazer por algumas das outras concorrentes, mais preparadas para um palco europeu. A vitória de Suzy é descredibilizadora do evento e contribui para dar a ideia de que o Festival é um evento estranho, e até exótico, no qual surgem músicas vencedoras que ninguém tem coragem de ouvir em público. Contrariamente ao que os participantes foram dizendo na noite deste sábado, o certame deste ano poderá ficar para a história como um dos piores de sempre, tal foi o desleixo com a produção musical e o desnível notado perante a média do cenário artístico nacional, muitos furos acima de qualquer uma das cinco finalistas. De resto, até parece despropositado escrever sobre o evento, porque é avaliá-lo como sendo uma coisa que pode ser levada a sério. E não o é.

Polémicas à parte, uma boa notícia: A Sony Music já anunciou que vai editar Quero ser tua, o que pode ser um grande plus no investimento que será feito para que a música tenha um bom resultado.

Internacional

Estão quase escolhidas todas as canções representantes na Eurovisão. Vê aqui as selecionadas na semana que passou.

A Alemanha aposta nas desconhecidas Elaiza, que venceram a final do Unser Sung fur Danemark (A Nossa Canção para a Dinamarca). A banda enfrentou vários nomes de maior renome entre o público germânico, porém conseguiu chegar ao primeiro lugar. O tipo de música que apresentam não é usual no Festival da Eurovisão e, por isso mesmo, esta acaba por ser uma aposta para tudo ou nada. Is It Right? foi uma escolha do público e é instrumentalmente bastante completa, dando à Eurovisão uma componente musical que lhe tem faltado.

Os arménios optam este ano por uma balada. Aram MP3 é o intérprete da canção e vem com a missão de recuperar o top10 para o país do antigo bloco soviético. Os bons resultados da nação têm falhado desde 2010, última vez que ficou colocada entre os 10 primeiros. A orquestração do tema constrói alguma imponência em torno do mesmo, muito sustentada na interpretação firme de Aram. Junta-se à lista das boas baladas do ano.

O Azerbaijão, país-sensação no que à Eurovisão diz respeito, não larga o top5 desde 2009 e em seis anos de participação já venceu uma vez e alcançou por três vezes o pódio. A estatística e a história dizem-nos que este ano não deverá ser diferente, apesar do tema ter os seus riscos. Dilara Kazimova apresenta uma balada clássica, fusão entre a tradição da musica calma europeia e o misticismo dum instrumental com reminiscências orientais. É uma canção bonita e com muito charme, que vem alterar a estratégia azeri de se apresentar em palco com temas fortemente comerciais e de tendência radiofónica.

Mais próxima de nós, a Bélgica, que este ano teve uma final nacional sem grande mistério. Axel Hirsoux era o favorito e confirmou a tendência, amealhando 57% dos votos do público e pontuação máxima da maioria dos jurados do Eurosong. É mais uma para juntar à coleção de músicas lentas, com o tom alto da voz de Axel a diferenciar-se pela positiva. Um tema emocional e emocionante da autoria de Rafael Artesero.

O meu preferido entre os países do Cáucaso, a Geórgia, anunciou na sexta-feira o seu tema representante. Three Minutes to Earth lembra o BBC Vida Selvagem e é cantado por Mariko, acompanhada pelos The Shin. Os tons folk diferenciam-na, mas há aqui várias misturas que parecem não correr bem. Não sei se o melting pot de influências será suficientemente memorável para que consiga chegar à final.

A Holanda alcançou, em 2013, o seu melhor resultado em vários anos. Resta saber se a boa performance se irá manter este ano. Os Common Linnets foram uma escolha interna da emissora estatal dos Países Baixos e irão tocar Calm After the Storm. É uma música country em ritmo lento que não traz nada de novo ao festival e que dificilmente chegará à final, apesar de ser bem interpretada e não soar nada mal.

Na Moldávia, a música vencedora mereceu a maioria dos votos do júri nacional e o segundo lugar na opção do público. Wild Soul é a canção defendida por Cristina Scarlat. Temos a dizer que, aqui, está tudo equivocado. A apresentação em palco, a roupa da intérprete, a desarrumação conceptual que é todo o tema. Inventaram tanto que ficou só uma proposta meramente ruidosa. Não consegue ir além disso, lamentavelmente.

Carl Espen é o intérprete da música que vai comprar bilhete para representar a Noruega na vizinha Dinamarca. Silent Storm é simples, mas resultou muito bem no palco do Melodi Grand Prix. Num ano com tantas baladas, é difícil prever qual vai ser o seu destino, mas é uma canção de qualidade e uma representação meritória para os nórdicos.

São Marino volta a apostar em Valentina Monetta. Após ter ficado de fora da final por uma unha negra em 2013, a intérprete vem para a desforra e representa o país pela terceira vez consecutiva. A escolha volta a ser em tons um bocadinho antiquados, mas podemos dizer que é a melhor das interpretações de Valentina. É um tema em inglês, o que pode ajudar na pontuação, mas 2014 ainda não é o ano em que teremos a cantora a pisar o palco da final.

Breves

Dora quer voltar ao Festival da Canção. A intérprete, que já representou Portugal por duas vezes na Eurovisão, refere que tem dois temas guardados que gostava de apresentar à RTP;
Carlos Coelho, autor de Mea Culpa, pediu uma auditoria das votações no Festival RTP. A equipa de Quero Ser Tua apoiou a iniciativa, dizendo tratar-se de uma oportunidade para provar que a música de Suzy foi a preferida dos portugueses. Em paralelo, será realizada uma manifestação à porta da RTP em apoio da segunda classificada e já circula na internet uma petição para desclassificação do tema vencedor, sendo apontadas várias irregularidades;
José Poiares vai deixar de ser chefe da delegação portuguesa já no próximo ano. O profissional será um dos quadros a abandonar a RTP nos próximos meses. Ainda não foi designado o seu substituto;
– O Festival RTP da Canção foi vice-líder nas audiências de sábado à noite, melhorando o desempenho da estação pública no horário;
Espanha, Albânia, Estónia, Islândia e Itália já apresentaram os videoclipes oficiais das suas canções representantes;
Áustria e Rússia são os únicos países que ainda não apresentaram as suas músicas. Conhecemos ambas as representantes na edição da próxima semana.