O último filme de Hayao Miyazaki teve a sua antestreia nacional na 13ª edição da Monstra, no São Jorge, numa Sala Manoel de Oliveira completamente lotada e expectante. Não se podia imaginar melhor arranque para o festival, já tendo sido anunciada uma segunda exibição do filme no próximo dia 22, sábado, desta feita no Cinema City Alvalade. O Espalha-Factos não faltou.

As Asas do Vento – 9.5/10

A expectativa era grande, talvez das maiores que qualquer filme de animação não americano alguma vez enfrentou, mas o que aconteceu na maior sala do São Jorge é a prova de que ainda que estivéssemos a ver o último filme de Miyazaki, a animação no seu estado puro tem um lugar no mundo, no cinema, e nas nossas almas.

O cinema de animação sempre nos soube fazer sonhar de forma mais pura que o restante cinema, talvez porque nos retrata não o que o mundo é, mas o que poderia ser sem toda a sua imperfeição, seja ela na imagem ou no sentimento. Mas esta pureza atinge um dos seus expoentes na irresistível brisa deste poema cinematográfico de Miyazaki.

A história centra-se numa criança sonhadora, Jiro, cujo objeto do sonho é um dos mais antigos fascínios do homem, o voo. O sonho impulsiona a vida do pequeno Jiro, que encontra nos sonhos o herói da aviação que conheceu nas revistas ocidentais. Ele parte à conquista do mundo num Japão fustigado pela natureza e pela precariedade económica, mas a sua vida tão perfeitamente ancorada no sonho é tocada por uma outra no meio do grande terramoto de Kanto, e esse encontro mudará a sua vida para sempre. Nahoko será a outra constante na vida de Jiro, maravilhosamente relembrada ao longo da longa-metragem na forma de variações de um poema que dá o nome ao filme, Kaze Tachinu: Le vent se lève!… Il faut tenter de vivre! – The wind rises!… One must try to live!”

The Wind Rises 2

Toda a estética do filme é absolutamente maravilhosa, e não precisa de mais do que uma referência à habitual mestria do seu realizador. E é também notável o empréstimo de Hans Castorp, numa homenagem à Montanha Mágica, de Thomas Mann.

Mas há mais por detrás do sucesso de Miyazaki. Há uma linha condutora feita de pormenores que emanam de todas as componentes do filme, e que lhe conferem uma unidade e uma perfeição discretas. A alma do filme e o sentimento que este nos proporciona são manipulados por Miyazaki através de pequenas referências ao vento e ao sonho, e são-nos dados pela íntima relação entre o guião, a animação e a banda sonora. Esta última merece uma referência especial a mais uma perfeita parceria entre Miyazaki e Hisaishi – poucas relações entre realizadores e compositores criam a notável envolvência que sentimos ao ver As Asas do Vento.

Por tudo isto não tenham medo. Vão ao cinema e deixem-se arrebatar pelo último trabalho de um grande mestre.

Quanto à Monstra, promete! Tanto na sua homenagem à animação Húngara como na competição. Destaque, para já, para Tempos Heroicos, de József Gémes, uma obra-prima da animação húngara, este domingo às 21h30 no São Jorge.