Um espetáculo que «não tem ambição alguma. Não pretende, não quer, não se acha, não se enquadra, não tem objetivo e nem sequer alguma sustentação» – assim é definida Parformance por João Craveiro, o autor e encenador da peça, na qual também atua. Mas basta assistir aos seus primeiros segundos para perceber que Parformance é tudo menos ingénua. O Teatro do Bairro acolhe este mês uma comédia que, ao contrário do que promete, não deixa ninguém indiferente.

É casa cheia na noite de estreia de Parformance, no pequeno Teatro do Bairro. Partindo de uma sinopse intrigante mas pouco sugestiva, o público presente não tem ideia da surpresa que o espera. O prato servido aos espetadores é uma comédia atrevida e que, indiretamente, consegue ser extremamente direta.

Em palco encontram-se 13 artistas: uma banda húngara composta por 4 músicos portugueses (incluindo o bónus de um trompetista em roupa interior que ostenta “excesso de swag”); um narrador que vai elucidando o público acerca de todos os conceitos artísticos apresentados; uma performer que utiliza demasiado o corpo para expressar a sua arte; um artista muito intenso cujo trabalho está carregado de significado profundo (ou não); um cantor lírico que afinal é uma drag queen; um racionalista que questiona incessantemente o caráter dadaísta da peça; um homem de saia que dança espanholadas em honra do Atlético de Madrid; uma atriz que roça a esquizofrenia e duas críticas de teatro que só se interessam por scones e pelo swag do trompetista.

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Contudo, a aleatoriedade desta Parformance não tem nada de aleatório. A sátira está presente em cada gesto, palavra, som e imagem em palco. A crítica é algo garantido em toda a peça: crítica aos artistas; crítica ao público; crítica ao não-público; crítica aos críticos; crítica à própria arte em si e ao constante pretensiosismo em roda desta. E é precisamente aqui que Parformance ganha uma dimensão deveras interessante, pois gera sentimentos mistos mas antagónicos. É que, para dizer a verdade, qualquer espetador que assista a esta peça vai sentir-se ofendido, atacado. Mas vai rir-se disso. Ao identificarmo-nos com aquelas personagens ou com as ideias que elas representam ou defendem, vamos sentir-nos atingidos, mas vamos soltar umas boas gargalhadas à nossa própria custa e da evidente hipocrisia que nos circunda.

É de elogiar também o excelente trabalho de coreografia, a cargo de Paula Careto, que consegue trazer expressão, dentro da comédia, a estilos que vão desde a dança contemporânea até a bollywood, passando pelo krump e breakdance.

A banda, que acompanha musicalmente os atores ao longo do espetáculo, cumpre bem o seu papel, sem roubar protagonismo à ação da peça.

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Não existe um cenário concreto nem figurinos propriamente ditos, algo compreensível, não só pelas caraterísticas da sala, mas também porque este espetáculo – produzido pela Kind of Black Box, uma associação cultural sem fins lucrativos – não é subsidiado. Nunca é demais realçar e celebrar o empenho e a iniciativa de todos os artistas e técnicos nacionais que, mesmo com os praticamente inexistentes apoios e investimentos no setor da Cultura e das Artes, continuam a trabalhar e a lutar por proporcionar ao público português espetáculos de qualidade, nestas produções mais independentes.

De qualquer forma, menos é mais num trabalho como Parformance, que reprova todo o pedantismo e enfatuação envoltos na arte dos dias de hoje.

Será ainda oportuno mencionar a coordenação em palco de treze artistas tão distintos, provenientes de áreas e campos de trabalho tão variados, que contribuem para o enriquecimento do espetáculo e, com um grande trabalho de grupo, conseguem, apesar de tudo, torná-lo uno.

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Parformance acaba por atingir-nos pela forma descontraída e sem esforço com que aborda essa grande questão, que sempre inquietou o Homem, do que é, afinal, a própria arte, questionando-a, ridicularizando-a, mostrando-nos os seus contornos mais estrambólicos. O espetador deve deslocar-se ao Teatro do Bairro e assistir a Parformance se quiser desafiar o seu próprio discernimento e libertar-se da visão que construímos, no dia a dia, do que é a arte e da nossa relação com ela.

Confrontando-nos com as dificuldades em encontrar uma linha que separe a cultura “digna”/”elitista” da demais, somos levados a interrogar-nos acerca da real importância de uma distinção desse género. No fundo, somos todos ridículos.