Um drama romântico e baseado num caso verídico chega esta semana a Portugal, com grande pompa e circunstância, tendo mais interesse no lado estético e interpretativo, numa história que pega nas memórias da II Guerra Mundial.

Baseado na autobiografia de Eric Lomax, The Railway Man fala de vingança e de feridas do passado, através dos traumas vividos por Lomax, ao ter sido capturado, durante a II Guerra Mundial, pelo exército japonês em Singapura e enviado para um campo de prisioneiros, onde foi obrigado a trabalhar na Ferrovia da Birmânia (mais conhecia por “Death Railway“). Várias décadas depois, Lomax (interpretado por Jeremy Irvine, nos tempos do conflito, e por Colin Firth na parte “atual” da narrativa) continua a sentir o impacto da violência e dos atos de tortura impostos pelos japoneses, e para tentar superar os traumas que acumulou ao longo de todo aquele tempo, aceita a ajuda da sua mulher Patti (Nicole Kidman) e do seu grande amigo Finlay (Stellan Skarsgård) e decide confrontar o torturador mais cruel que conheceu na guerra, Takashi Nagase (Hiroyuki Sanada), planeando uma vingança que há muito tempo desejava executar.

Pela sinopse até parece ser um filme interessante, não é? Desenganem-se: The Railway Man não é mais do que um simpático exercício de lugares-comuns e ideias feitas, que aproveita, com todos os meios e todas as oportunidades, o facto de se enquadrar dentro do género cinematográfico popularíssimo que dá pelo nome de “based on a true story“. É o chamariz para uma fatia de espectadores que só considera este tipo de histórias as únicas que conseguem ter realismo e credibilidade (sim, porque o resto é pura fantasia), acreditando mesmo que nenhuma ficção pode ser mais real do que qualquer encenação da realidade.

O grande problema desta película não reside, contudo, no uso e abuso dessa trademark que tanto rodeia os filmes americanos (porque há uns casos em que esta é mais bem usada do que noutros). As grandes maleitas desta pequena desilusão estão mesmo nos adjetivos que lhe podem ser primeiramente associados: é uma fita desequilibrada, interminável e preguiçosa, que se apoia na fama das estrelas que a protagonizam para tentar elevar-se a um patamar que nunca conseguirá atingir.

Sim, a fórmula não é nova em Hollywood nem no Cinema em geral, sendo uma ideia com barbas já longas e farfalhudas.  Não devemos esquecer também que este é mais um número do inesgotável franchise de fitas na II Guerra Mundial, mas não deixa de ser uma obra cujo trailer deixa o espectador muito mais bem servido do que se vir o filme em toda a sua duração.

Primeiro, é uma história de amor totalmente clássica, com algum interesse por essa particularidade que recria para a modernidade de forma tão limpinha (mas não deixa de ser descontextualizada). Essa parte inicial mostra como Eric e Patti se conheceram e casaram. E a partir daí, os traumas começam a apertar, e o fascínio daquele homem pelos comboios e seus trajetos começa a ser explicado a pouco e pouco, à medida que os flashbacks nos contam as causas dos problemas que vive no presente. Mas a viagem é ainda longa, tal como é longo e acidentado o percurso da construção da história do filme…

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Nessa parte histórica, apesar da grande abundância de clichés e da superficialidade das cenas, é preciso notar que há alguma pujança em pormenorizar os factos e em dar ao espectador uma visão aprofundada daquela época atribulada. Mas The Railway Man não consegue ser nem um romance, nem um filme de guerra, um drama ou até mesmo um thriller (na tal parte da vingança) nos momentos em que nos parece ver cada estilo narrativo acontecer. Mas somando todas as partes, apenas temos um híbrido de pseudo géneros cinematográficos (porque nenhum deles chega realmente a existir) que pairam no horizonte sem saberem exatamente qual a sua função.

Apesar de tudo isto, e seguindo as pegadas de muitas obras puramente comerciais e desprovidas de sentimento próprio, The Railway Man prova ser apenas um caso cinematográfico passageiro, que não tardará a ser esquecido. Apenas sobressai o enorme talento dos atores em atribuir maior dignidade a um argumento medíocre, fácil e direto, que padece de boas e originais situações e ideias, a realização tarefeira, mas eficaz de Jonathan Teplitzky, e o muito agradável e sedutor trabalho técnico. Porque quando não se pode acertar na forma e no conteúdo, ao menos que se consiga fazer bem uma das duas coisas.

Poderia ser muito melhor, mas com muita pena, The Railway Man ficou-se apenas por isto: uma salada de frutas mal combinada (onde, acidentalmente, muitos dos seus elementos são tudo menos algo que possa ser considerado como parte desse tipo de alimento), que se evapora rapidamente da nossa cabeça. Mas não se pretende afastar eventuais adesões a este filme. Para os cinéfilos conhecedores é mais do mesmo, mas provavelmente, para muitos espectadores pode ser uma boa descoberta e um incentivo para encontrar melhores fitas que abordem temas semelhantes com muito mais audácia e engenho.

Tal como muitos casos de “histórias verídicas” adaptadas ao grande ecrã, o elemento principal, para a maioria das pessoas que ainda vão às salas de Cinema, é a carga emocional que a história lhes consegue proporcionar. Neste campo, talvez muitos não saiam desiludidos.

6.5/10

Ficha Técnica:

Título Original: The Railway Man

Realizador: Jonathan Teplitzky

Argumento: Frank Cottrell Boyce e Andy Paterson, a partir do livro de Eric Lomax

Elenco: Colin FirthNicole KidmanStellan Skarsgård

Género: Biografia, Drama

Duração: 116 minutos