Começou a terceira edição do Talkfest, um evento que aborda os mais diversos temas sobre os festivais de verão em Portugal. Hoje, no Auditório CGD, no ISEG, debateu-se sobre os “festivais de nicho“, a sustentabilidade dos artistas em Portugal, a preocupação com os portadores de mobilidade reduzida, entre outros temas. O Espalha-Factos dá-te a conhecer um pouco do que se passou ao longo deste primeiro dia.

Festivais de nicho: Eventos criados à media do seu público

O pontapé de saída do evento foi dado por Vitor Balanciano, crítico de música do jornal Público, que moderou o debate, que teve como oradores a artista musical Capicua, Carlos Martins, organizador do Festival Fusing Culture; Carlos Seixas, director criativo do Festival Músicas do Mundo, de Sines; Frederico Carmo, produtor do único festival internacional de Fado, em Madrid, e José Filipe Pinto, responsável pelo festival Meo Out Jazz. Um dos temas mais abordados acabou por ser o financiamento dos festivais, dado que são para um público específico.

A bilheteira, os patrocínios e alguns fundos europeus conseguem suportar os custos que temos a organizar“, afirmou Carlos Seixas, Frederico Carmo reforçou a ideia de que não se pode confiar recuperar o investimento só com a bilheteira. “Tem de ser uma mistura de factores, e pensar que se pode contar só com a bilheteira, é um erro grave.”

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Um dos temas centrais desta conferência acabou por ser o crescimento do Out Jazz. A passagem de dez mil pessoas, em 2006, para 110 mil, no último ano, levou a que se esteja a pensar em efectuar mudanças naquele festival, que dura 5 meses e que visita os mais variados jardins em Lisboa. “Estamos a considerar criar mais palcos no mesmo dia, para que o público possa usufruir do festival“. Também foi deixado um recado ao público que costuma ir aos concertos, visto que a quantidade de lixo que provoca acarreta consequências e, sendo este um festival gratuito, e só 40% das pessoas é que costuma consumir algo nos espaços do evento, a organização não põe de parte a possibilidade do certame começar a ser pago. “Tudo depende do comportamento do público“, disparou José Filipe Pinto.

Perfil dos Festivaleiros e sobre o ambiente social nos Festivais de Música em Portugal

De setembro a dezembro de 2013, a organização do Talkfest inquiriu cerca de 500 pessoas para traçar o perfil dos consumidores dos festivais de verão. Ricardo Bramão, director do Talkfest, referiu que, dos cerca 127 festivais que ocorreram no passado ano, os que mais ficaram na memória foram o Optimus Alive, o Vodafone Paredes de Coura e o Super Bock Super Rock. O público jovem, maioritariamente do sexo feminino, foi o principal alvo, tendo indicado como géneros musicais favoritos o rock e o indie.

Entre as características apontadas pelo estudo, os festivaleiros apresentam-se como fiéis ao seu festival, já que 68% costuma repetir a sua presença, e a maioria costuma também, com antecedência, adquirir o bilhete para poder organizar o seu tempo.

Rock in Rio: Criação de um conceito global

Nuno Sousa Pinto, director geral do Rock in Rio, apresentou o plano de globalização do festival para 2015, que se irá expandir para os Estados Unidos, mais precisamente para Las Vegas. Depois de cinco edições no Rio de Janeiro, Lisboa a caminhar para as seis, e a edição de Madrid cancelada este ano pela crise económica, a organização considera a edição em Las Vegas como vital para a expansão da marca, sendo que se perspectiva a extensão do evento para mais uma cidade na Europa, e também uma aposta no mercado asiático e do Médio Oriente.

O Rock in Rio é mais que um festival de música, é um projecto de comunicação“, afirmou Nuno Sousa Pinto, graças à forte presença das marcas, não fosse o Rock in Rio originário de uma campanha de lançamento de uma cerveja, em 1985. O diretor aproveitou também para apelar às autoridades estatais um maior apoio na promoção do turismo no estrangeiro, já que “lá fora, ainda são muitos os que preferem outros países, a uma Lisboa que tem tudo, sendo uma das melhores cidades da Europa“.

Os Festivais de Música contribuem para a sustentabilidade do artista em Portugal?

Após pausa para o almoço, o Talkfest recomeçou com Diogo Beja, conhecido radialista da Antena 3, a moderar a mesa que debateu o tema da sustentabilidade dos artistas em Portugal. Noiserv, Frankie Chavez, Raquel Lains, responsável pela promoção de artistas da Let’s Start a Fire, Fred Pinto Ferreira, dos Buraka Som Sistema e Nuno Saraiva, fundador da Associação de Músicos Artistas e Editores Independentes, foram os intervenientes de uma conversa que demorou duas horas.

Os festivais e os concertos em geral continuam a ser uma das principais fontes de rendimento dos artistas, que não se devem ficar por aí. Os CD’s, apesar das poucas vendas, continuam a ter um papel vital, nem que seja pela promoção do trabalho em formato físico, considerou Noiserv. Nuno Saraiva também aproveitou para criticar a postura de certos músicos como Thom Yorke, vocalista dos Radiohead, que se opõe ao Spotify. “O Spotify dá dinheiro, o problema é se existem muitos intermediários“, referiu.

O crescimento, em número, de concertos revela-se interessante para a promoção dos artistas, por isso há que ter em atenção à calendarização. “Normalmente, o maior fluxo de festivais encontra-se no verão, mas temos de ter atenção logo às festas académicas, que são uma altura importante“, referiu Fred Pinto Ferreira.

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O facto de Portugal ser um país periférico foi a razão encontrada para justificar a fraca afirmação de mais artistas portugueses no estrangeiro, sendo que é essencial um artista ser agenciado tanto em Espanha como em França.

Mobilidade Reduzida: Infra-estruturas, informação e preparação

Já perante um auditório muito despido, o dia de conferências terminou com um debate sobre a mobilidade reduzida e os seus desafios atuais e sugestões para o futuro. Conduzido pelo Mário Rui Vieira, da Blitz e Expresso, falou-se dos principais obstáculos que uma pessoa de mobilidade reduzida tem ao deslocar-se a um festival. Desde o chão, às especificidades da plataforma (se está perto ou não do palco, se é seguro ou não) até ao acompanhamento, foram várias as sugestões deixadas pelo painel composto por Eduarda Afonso (fisiatra do Centro Hospitalar do Algarve), José Madeira Serôdio (Director do Instituto Nacional de Reabilitação), Madalena Brandão (responsável pelo projecto Lisboa (In)Acessível), Pedro Guilherme (director do festival Musa Cascais) e Ricardo Coelho, músico dos Cavaliers of Fun.

Uma das conclusões do debate é que, apesar das melhorias que se vêm a encontrar de ano para ano nos mais diversos festivais em Portugal, continua-se a verificar uma grande discrepância comparativamente a outros festivais europeus, como o conhecido Glastonbury.

Amanhã é o International Day, o que significa que haverá várias conferências com convidados vindos do estrangeiro e que se debaterão as relações entre os festivais de Portugal e da Europa e também se traçará um perfil do festivaleiro em termos gerais.

*fotos da página oficial do Facebook do Talkfest ’14