Moçambicano de alma e com o português na ponta da língua, o cantautor João Afonso tem colaborado com inúmeros artistas numa obra que é já vasta. Em 2014, lançou-se aos poemas de Mia Couto e José Eduardo Agualusa e o resultado é um disco de sonoridades quentes e palavras profundas.

Há casamentos mais felizes que outros. Este é um casamento feliz e a três: João Afonso, músico luso-moçambicano com parentesco com Zeca Afonso; José Eduardo Agualusa, angolano; e Mia Couto, moçambicano. Sangue Bom conta ainda com colaborações de portugueses, brasileiros e espanhóis, fazendo desta obra uma viagem pela lusofonia, mas, também, um produto cultural que é de todas as nações.

Lançado com o selo da Universal, Sangue Bom dá-nos um total de 14 poemas-canção de Mia Couto (Astros, Sem Volta, A Paixão Só Atrapalha, Sementes e A Dor e o Tempo) e de José Eduardo Agualusa (Estrada de Sumbe, Na grande Casa Branca, Sangue Bom, Lagarto, Verde para Crer, Canção-Pitanga, Onde o Amor Termina, Canção de Despedida e Canção de Goa) mas não vive só da verve.

Os arranjos de Vítor Milhanas conferem-lhe um carácter único e raro, com ritmos que não negam as raízes africanas, mas que misturam tonalidades de outras coordenadas como Portugal, Brasil, o País Basco ou a Galiza. Há kissanges, adufes, sintetizadores, violinos, acordeão e udu, tudo devidamente temperado e fortemente condimentado com a doce voz de João Afonso.

Sangue Bom

É um disco que trata a lusofonia por tu, com tudo o que isso significa: o mar, os caminhos, as origens, a paixão e o amor. Há temas sobre as raízes como Estrada do Sumbe, Canção de Goa ou Sem Volta. Há temas mais escuros como Onde o Amor Termina ou Sementes que resultam em momentos mais intensos e tristes. Mas há memórias de infância em Na Grande Casa Branca ou Astros, músicas de uma inocência que não se perdeu e que fazem deste disco um disco para todas as idades.

Há, aliás, um lado infantil no booklet do CD, com desenhos de girassóis, luas e estrelas, bóias e faróis ou arco-íris, sempre com o mar como pano de fundo. Na verdade este é o local ideal para ouvir este disco.

Para ouvir: à beira-mar com uma Ukanyu.

Nota final: 6.8/10

*Este artigo foi escrito, por opção da autora, segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945