Diretamente de França para Portugal, a peça que iluminou o humor parisiense nos anos 60 é o destaque da atual programação do Teatro da Trindade. Logo se percebe o porquê de Boeing-Boeing ser uma das peças francesas mais representadas em todo o mundo: é ágil, é universal, e – apesar de não ter um guião a roçar o genial – usa e abusa do humor físico forçando até a um paralítico contorcer-se de tantas gargalhadas. 

Logo que se entra na acolhedora sala de espetáculos do Teatro da Trindade, o espetador é brindado por um branco fortíssimo que nos cega a lucidez. Parece que estamos num manicómio. Estamos perante a sala de estar e a entrada do apartamento de Bernardo (Luís Esparteiro), um arquiteto que não tem dois amores como Marco Paulo, mas sim três. Elas são Janete (Sofia Ribeiro), a brasileira, Julietta (Mêlania Gomes), a italiana, e Judite (Patrícia Tavares), a alemã – três hospedeiras de bordo que não sabem da existência uma das outras. Mas há alguém que não é convidada temporária daquela casa.

Falo de Berta (Elsa Galvão), a quase sempre fiel empregada doméstica de Bernardo. Protagonizando os melhores momentos de humor – muito perto de serem hilariantes -, Berta é também ela uma mediadora deste jogo de gestão de três amores. A tensão aumenta quando as três hospedeiras de bordo não cumprem os horários estabelecidos, cruzando-se numa roda viva imprópria para hipertensos, e ainda devido ao surgimento de Roberto Seguro (João Didelet), um amigo de longa data de Bernardo.

Boeing Boeing

As vantagens da poligamia

Boeing-Boeing, uma comédia de enganos, é uma maratona de resolução de problemas e um sprint de evitar problemas. Esta peça de teatro toma como objeto a poligamia e espreme-a até ao extremo ridículo, mas sem deixar de ser engraçado. Como se nos fizesse cócegas de vez em quando, Boeing-Boeing faz rir mesmo se no segundo a seguir o público se sinta mal por estar a rir. É que a poligamia não é assunto fácil. Uns desejam-na, outros abominam-na. Uns dominam-na, outros desprezam-na.

Bernardo adora a poligamia. O número três é perfeito: dois é aborrecido, quatro é cansativo. “Adoro-as todas ao mesmo tempo”, diz enquanto pensa em como conciliar os horários das três hospedeiras. A poligamia parece correr bem, mas há um pequeno grande pormenor que desfaz qualquer plano: a construção do Boeing-Boeing, um avião supersónico que fará as delícias das três amadas, mas que certamente dará aso a várias aspirinas para Bernardo.

Paralelamente a esta narrativa, o espetador pode apreciar um dos aspetos mais interessantes desta comédia que vive do humor físico. Esse aspeto é a dificuldade de comunicação – uma espécie de Lost In Translation em alemão, em italiano, em brasileiro e em português.

boeing boeing

“Eu amo você”

A estreia de Sofia Ribeiro nas tábuas de um palco dificilmente podia ter corrido melhor. A atriz teve a sorte do seu lado na primeira personagem que interpreta em teatro. A brasileira Janete – tal como as outras duas hospedeiras – é um poço de cultura há espera de ser descoberta. E Sofia Ribeiro conseguiu não cair de forma ridícula nos clichés.

Pelo contrário: conseguiu divertir o público ao aproveitar o texto da melhor forma, numa interpretação inspirada que nos deixou sem fôlego. Ninguém saiu da sala sem se lembrar da caliente Janete com os seus beijos, os seus quentes impulsos, e a inevitabilidade da sua inconsciência. Só nos apetece dizer: “eu amo você”, Janete.

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Mas é Patrícia Tavares e Elsa Galvão quem merece o destaque. Tavares, numa interpretação perfeita, mostra toda a força sexual da alemã Judite numa rigidez que é sexy à sua maneira e deixa o espectador encostado à parede, tal é a intensidade. Já Elsa Galvão é mestre do início ao fim: construiu de forma inteligente a sua Berta, nunca se desleixando nos pormenores da personagem, e tendo as melhores saídas cómicas de todo o espectáculo, explorando o humor físico até ao limite (e ainda bem!).

Contudo, Luís Esparteiro, experiente nestas andanças, mostra-se demasiado apagado, num registo quase sempre linear – mesmo em momentos de tensão cómica -, exceto uma ou outra situação em que o ator abrilhantou o cenário, deixando de ser apenas um adereço falante. João Didelet sofre do mesmo problema, apesar de ter estado melhor, e de a sua personagem ser mais rica. Melânia Gomes cumpre o seu papel, com um sotaque italiano excelente, mas não se destaca, até porque a sua personagem acaba por ser a mais histérica de todas, chegando a irritar o espectador. Se esse era o objetivo, então foi cumprido.

Apesar de não ser transcendental, Boeing-Boeing resulta e é transversal daí que não se estranhe os dois Tony Awards que ganhou quando esteve na Broadway. Não querendo cair no lugar comum, posso afirmar que não vão gostar de ver o Boeing-Boeing num acidente de viação. Na verdade, até vão abrir o tráfego aéreo para o ver aterrar no vosso porta-aviões: a memória. O Teatro da Trindade está à vossa espera na certeza de que no fim só nos resta o champanhe e a almofada, que nos aconchegam na noite das ruas de Lisboa.

A peça vai estar em cena de quarta a sábado, às 21h, e domingo, às 18h, até dia 13 de abril.

Autoria: Marc Camoletti | Adaptação: Paulo Sousa Costa | Tradução: Marc Xavier | Encenação: Claudio Hochman

Elenco: João Didelet, Luís Esparteiro, Sofia Ribeiro, Patrícia Tavares, Melânia Gomes e Elsa Galvão.

Produção: Yellow Star Company

Nota final: 7

Fotografias cedidas por: Yellow Star Company