Mais uma semana eurovisiva cheia de atividade. Portugal começou a sua seleção nacional, a Suécia encerrou o Melodifestivalen e o Reino Unido surpreendeu toda a gente. Chegamos dois dias depois do habitual, mas foi só para podermos trazer a Grécia também.

Festival da Canção

A seleção nacional portuguesa deste ano podia ser caraterizada em duas palavras: miséria franciscana. Se as canções não ajudam muito, a RTP piora o cenário. Os problemas de som verificados durante toda a emissão da semifinal, que prejudicaram em muito as atuações, tornaram insuportável a transmissão deste sábado. Embora Mea Culpa continue a ser a hot favourite dos fãs, a verdade é que a canção não valeu, ao vivo, metade daquilo que mostra nas versões estúdio que têm surgido online.

Todas as músicas finalistas, sem exceção, parecem demos sem pós-produção. O desaire na equalização do som por parte da estação pública tornou tudo ainda mais amador e vergonhoso. Analisamos, individualmente, cada uma das músicas participantes:

1 – Rui AndradeAo Teu Encontro
Três minutos de tédio profundo. Podia ser uma balada da Disney, mas daquelas que já ninguém se lembra. Os vocais são competentes, embora com uma entoação demasiado anasalada, má pronúncia do português (aincontro!?) e pouca entrega, numa interpretação vaidosa e artificial. O tema que Rui apresentou em 2011, Em Nome do Amor, na primeira vez que concorreu ao FC, permanece como a melhor das suas tentativas. O Mark Paelinck que ajudou a fabricar o 2.º lugar na Eurovisão 2005 não parece estar aqui. Esperemos que a tradição baladeira nacional não permaneça na hora de decidir.

2 – Catarina PereiraMea Culpa
A música é, em grande parte, uma versão amadurecida de Canta Por Mim, o polémico segundo lugar do Festival da Canção de 2010. Portugal nunca apresentou na Eurovisão um ‘ethnodance‘, embora a guitarra portuguesa combine muito bem com temas ritmados. Mea Culpa pode ser a oportunidade para isso, embora as coisas não tenham soado muito bem na semifinal. O tema surgiu demasiado igual ao longo de toda a sua duração, sem grandes momentos de impacto. O facto de a voz de Catarina surgir abafada pelas vozes do coro, que tiveram o som demasiado alto ao longo de toda a canção, dificulta a possibilidade de destaque para os pontos fortes do tema. A realização, profundamente incompetente, não focou o bom trabalho de coreografia, completamente ignorado por filmagens que pareciam em piloto automático. A versão estúdio em inglês disponibilizada nos últimos dias pela cantora parece muito melhor do que ouvimos na televisão. A ver vamos se é desta.

3 – ZanaNas Asas da Sorte
Zana está muito feliz em palco e isso transparece bastante. A interpretação é dedicada e podemos perceber facilmente que a cantora quer aproveitar esta oportunidade para relançar uma carreira que nunca chegou a altos voos. Parece difícil que o consiga. É mais uma canção étnica, com excesso de gritos e uma produção que não dá grande qualidade do produto final. A canção parece fora de época, não soaria mal num Festival da Eurovisão da primeira metade dos anos 90. Momentos épicos wannabe a cada minuto da música não foi boa ideia. Não é isso que é fazer uma ‘canção festivaleira’.

4 – Raquel GuerraSonhos Roubados
Parece que voltámos aos anos 60. O instrumental é tão antiquado e soa tanto a Festivais de outros tempos que podemos pensar se esta canção não estava guardada desde essa altura. A música não se adequa à intérprete, que perde muito por estar constantemente confinada à secção mais grave da sua voz, com muito menos cor que os seus agudos. O tema vai em crescendo até ao fim, o que permite conquistar após algumas audições. Modernizado e adequado à intérprete, talvez pudesse resultar. Numa outra encarnação, se calhar. A letra remete para uma homenagem a alguns dos momentos mais marcantes dos últimos 50 anos na música nacional.

5 – SuzyQuero ser tua
Aos primeiros dez segundos de música é logo percetível que estamos perante música pimba. Não é dance, não é étnico, não é música ligeira. É um abraço à música pimba. Pisca também o olho à moda dos sons africanos e é a única canção que se preocupou em introduzir alguns adereços no palco. Suzy é vocalmente limitada, o que se faz notar especialmente nas notas mais altas. A letra é facilmente reconhecível como sendo de Emanuel, e tem todo o potencial para brilhar nos bailes de verão. Nota-se que o autor aprendeu com a experiência de 2007, altura em que produziu Dança Comigo, que Sabrina levou a Helsínquia. Nessa altura, mereceu a preferência do público e, desta vez, pode repetir o feito. A beleza da cantora pode ajudar a votação.

Internacional

O país anfitrião escolheu no sábado passado a canção representante para a final de Copenhaga. Os dinamarqueses vão defender o título de 2013 com Cliché Love Song. Cantada por Basim, é uma música pop cheia de soul, onde qualquer semelhança com Bruno Mars pode ser mais que mera coincidência. Divertida e muito bem apresentada, é ainda importante realçar que esta é uma final nacional que deixa boas pistas para a organização do ESC. Que show, Dinamarca

A Eslovénia também já escolheu. O país, que esteve quase a abandonar a edição deste ano do Festival Eurovisão da Canção, vai a votos com Tinkara Kovač, que interpretará Spet. O tema, que é bilingue, é também bastante amigável e utiliza várias referências sonoras do país que lhe dão uma roupagem bastante interessante. É melhor ouvires para crer.

Os eleitos da Grécia foram Freaky Fortune ft. RiskyKidd. A aposta chama-se Rise Up e traz o R&B às representações helénicas. A lembrar Taio Cruz ou Jason Derulo, o duo tem tudo para encher pistas de dança e fazer as delícias do Euroclub. Não temos a certeza que seja uma escolha óbvia para o Festival, mas traz um novo género ao concurso, o que é sempre interessante, no meio das velhinhas fórmulas “música calma, bridge épico e com gritaria, fim em apoteose“.

Afastado das grandes classificações nos últimos anos, Israel este ano optou por dar a escolha da sua canção representante ao público. Mei Finegold é a voz de Same Heart, um tema dançante com jeitos de rock e muita personalidade. Uma competidora direta da aposta italiana, com potencial para dar show em Copenhaga. O final, em crescendo, é bastante cativante e contagiante. Das mais impactantes até agora.

Histórico nos maus resultados, o Montenegro nunca conseguiu ter o valor que a irmã Sérbia sempre manteve na Eurovisão. Depois de cinco participações, nas quais nunca conseguiu chegar à final, a aposta deste ano é bastante calma. Sergej Ćetković apresenta Moj Svijet, uma clássica balada balcânica, a lembrar sucessos sérbios e bósnios de festivais anteriores. É um tipo de música que não envelhece e que costuma ser uma aposta garantida. Cantada na língua nativa do cantor, é interessante ver que não perde, mesmo assim, qualquer qualidade. Pode ser agora que chegam à final, se os vizinhos ajudarem.

No Reino Unido, inovação foi a palavra de ordem. A escolha surpreendente parece interromper a saga de ressurreição de artistas reformados que percorreu Elbert Humperdink, Blue e Bonnie Tyler. Molly foi a eleita pela BBC e é um dos novos talentos britânicos, apresentando uma música claramente pensada para a ocasião, Children of the Universe. É uma escolha que pode orgulhar os súbditos de Isabel II, embora não seja certo que tenha impacto suficiente para superar a apertada concorrência. Na arena temos a certeza que dará um bom momento de participação do público.

Na Suécia, as apostas revelaram-se certeiras. Sanna Nielsen, a concorrer pela sétima vez ao Melodifestivalen, conseguiu vencer. Apresenta-se com uma balada poderosa e sem grandes artifícios em palco. Os tons escuros dominam uma atuação que, até agora, é a baladona eurovisiva do ano. Helena Paparizou, concorrente à final sueca e vencedora do ESC2005, quedou-se pelo quarto lugar e adia o regresso ao maior certame de música do Velho Continente.

Breves

Malta já apresentou a versão final de Coming Home. O Eurovision Mix reforça o lado folky da canção, melhorando a qualidade de som relativamente às versões anteriormente conhecidas;

– O Festival da Canção ficou em segundo lugar nas audiências durante a semifinal, ultrapassando a marca dos 17% de share. O resultado foi superior a 2012;
– A Ucrânia pode mudar de canção, depois da revolução no país. A má reação dos fãs à música escolhida pelo país de Leste poderá ter ajudado à decisão que, segundo o Oikotimes, partiu da cantora.
Ruslana, vencedora da Eurovisão 2004, em representação do mesmo país, recebeu um prémio das mãos de Michelle Obama. A intérprete mereceu o reconhecimento pelo ativismo durante o recente período conturbado que a nação ucraniana está a viver.
– Do lado de lá da reerguida cortina: as irmãs Tolmachevy, que deram a vitória à Rússia no Festival Eurovisão da Canção Junior em 2006 estão de volta para representar o país, depois de um processo de seleção interna. Chegou a estar planeada uma final nacional, mas o plano foi abortado. A música será divulgada em breve.