É já neste mês de março que o Espalha-Factos estreia mais uma nova rubrica dentro da secção Palcos, nomeadamente na área do teatro. Em Boca de Cena revisitaremos mensalmente a vida e a carreira de uma figura ilustre na arte de pisar e edificar os palcos. E que melhor estreante para uma rubrica destas neste dia da mulher do que Eunice Muñoz, afamada atriz portuguesa, considerada como uma das melhores de todos os tempos.

O objetivo desta rubrica será recordar e enumerar os momentos cruciais, os eventos mais marcantes, recuperar as memórias, celebrar as conquistas e os marcos atingidos e reunir os pedaços e as essências que caracterizam uma grande carreira ao serviço de uma das mais dignas das artes: o Teatro. Entremos então nesta viagem pela longa carreira de Eunice Muñoz.

Moura, Amareleja, em Beja, marca o local e 30 de julho de 1928 marca a data em que o mundo vê nascer Eunice do Carmo Muñoz, dona daquilo que nas próximas décadas virá a ser uma das mais proliferas carreiras em representação que o nosso país já viu.

No alto dos seus 85 anos, Eunice é uma autêntica lenda viva dentro do seu ramo. É uma instituição e uma das personalidades mais importantes e decisivas dentro da área da representação portuguesa. Apesar de ao longo dos anos ter experimentado praticamente todos os meios, desde a Televisão ao Cinema, a verdade é que o foco principal sempre se incidiu no Teatro, ao qual já deu uma contribuição colossal.

Filha de Hernani Muñoz e Júlia do Carmo, a jovem Eunice nasce e cresce num ambiente artístico, sendo originária de uma família de atores (a mãe tinha um teatro desmontável com o seu nome e o pai pertencia à família Cardinalli, sendo artista de circo). Este facto provavelmente já faria prever a existência de um talento que levaria a manutenção da tradição familiar nas próximas décadas.

A extensa carreira da atriz inicia-se no ano de 1941 na peça Vendaval de Virgínia Vitorino, com a Companhia Rey Colaço/Robles Monteiro sediada no Teatro Nacional D. Maria II. Com apenas 13 anos, seu talento é rapidamente reconhecido por ilustres personalidades do meio como João Villaret e a atriz Palmira Bastos o que faz com que se torne numa cara regular da Companhia.

Em 1943 contracena com Palmira Bastos em Riquezas da Sua Avó, uma comédia espanhola adaptada à realidade portuguesa que lhe conferiu mais algum estatuto. 1944 foi um ano ocupado: Entrou em Labirinto de Manuel Pressler e protagonizou a opereta João Ratão ao lado de Estêvão Amarante. No mesmo ano chegou ainda a ser dirigida por Maria Matos em A Portuguesa. Em 1945 dá entrada na Escola de Teatro do Conservatório Nacional e ao mesmo tempo participa na peça A Casta Susana.

No fim desse ano, com apenas 17 anos, Eunice Muñoz termina o Conservatório com a impressionante classificação de 18 valores, estando já nessa altura envolvida na rodagem de Camões, um filme de Leitão de Barros que chegou a concorrer para a primeira edição do Festival de Cannes em 1946. Esta também foi a película que valeu à atriz o prémio do Secretário Nacional de Informação para melhor atriz cinematográfica do ano.

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Eunice continuou a sua progressiva popularização no Teatro de Variedades com peças comerciais como Chuva de Filhos ao lado de Vasco Santana e Mirita Casimiro. Seguem-se dois filmes: Um Homem do Ribatejo (1946) e Os Vizinhos do Rés-do-Chão (1947). A carreira da ainda jovem Eunice Muñoz estava a progredir a um bom ritmo.

Em 1947 ingressa na Companhia de Comediantes de Rafael de Oliveira e no ano seguinte regressa ao Teatro Nacional para protagonizar Outono em Flor de Júlio Dantas e para se reencontrar com Palmira Bastos (que desta vez cumpria a função de encenadora) em Espada de Fogo, um texto de Carlos Selvagem e um autêntico sucesso teatral daquele ano.

1947 é também o ano onde a atriz celebra o seu primeiro casamento, com Rui Ângelo de Oliveira do Couto e de onde origina, aos 23 anos, a sua primeira e única filha, Susana Muñoz do Couto. O referido casamento acabará em divórcio ao fim de alguns anos.

Assim, depois de um 1948 recheado de teatro e sucessos como referido acima, o ano seguinte de 1949 vê Eunice a voltar ao ecrã prateado: protagoniza o filme de Caetano Bonucci e Armando Ferrari, A Morgadinha dos Canaviais, passado no século XIX e inspirado no romance homónimo de Júlio Dinis. Entra ainda em Ribatejo de Henrique Campos.

Em 1950, Eunice Muñoz regressa aos palcos com a comédia Ninotchka do húngaro Melchior Lengyel, contracenando com ilustres como Maria Matos, Igrejas Caeiro e Vasco Santana. Em 1951 funda a sua própria companhia com Alves da Cunha e Lucília Simões, ingressando ao mesmo tempo na Companhia de Teatro Ginásio, de onde se destaca a peça A Loja da Esquina de Edward Percy.

Após um breve período no Teatro da Trindade, Eunice Muñoz anuncia, em pleno auge de carreira, um hiato indefinido de atividade teatral. O público geral fica impressionado com esta decisão. A atriz apontou a razão desta decisão para o facto de “ter necessidade de obter novas experiências“, chegando até a trabalhar numa loja de cortiças e numa empresa de eletricidade.

É durante este período que conhece o seu segundo marido, pai de quatro dos seus cinco filhos. Este foi apontado com a influência que levou a atriz a regressar aos palcos em 1955 para a peça Joana D’Arc, o que causou o rejubilo das massas que correram para obter o seu bilhete especialmente para ver a atriz cuja a atuação foi apontada unanimemente pela crítica como genial.

Em 1957, depois da peça A Desconhecida ingressa, juntamente com outras caras conhecidas do teatro naquela altura, no Teatro Nacional Popular onde interpretará textos de Shakespeare, Dantas e Luiz Francisco Rebello.

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Nos anos 60 passa para a comédia na Companhia de Teatro Alegre e em 1963 entra em O Milagre de Anna Sullivan, de William Gibson. O espetáculo esteve em cena no Teatro Monumental e valeu-lhe o prémio SNI de melhor atriz de teatro ex-aequo com Laura Alves.

É também nesta década que a cara da atriz começa a aparecer regularmente no ecrã doméstico. O advento do teatro televisivo e o expresso desejo do público para a emissão das suas peças faz com que a televisão passe trabalhos seus como O Pomar das Cerejeiras de Tcheckhov ou Recompensa de Ramada Curto. Eunice participará também em séries televisivas como Cenas da Vida de Uma Atriz, onde contracenou ao lado da sua mãe, Mimi Muñoz ao longo de doze episódios dirigidos por Costa Ferreira.

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Em 1965, Raúl Solnado cria a Companhia Portuguesa de Comediantes no ainda recente Teatro Villaret e convoca Eunice Muñoz para o projeto. A atriz passa então a auferir um salário recorde para aquela altura: 30 contos mensais. A peça de estreia foi O Homem que Fazia Chover de Richard Nash . Segue-se uma temporada no já familiar Teatro de Variedades e uma incursão no Teatro Experimental de Cascais onde se destaca a peça Fedra.

Em 1970 funda em conjunto com José de Castro a Companhia Somos Dois e envolve-se numa longa tornée por Angola e Moçambique com a peça Dois num Baloiço de William Gibson. O ano de 1970 marca também a estreia da atriz na encenação com o espetáculo A Voz Humana de Jean Cocteau.

O regresso aos palcos do Teatro Nacional estaria para breve. No ano seguinte é lá que faz O Duelo, uma peça de Bernardo Santareno, juntamente com João Perry. Foi também em 1971 que Eunice integra o novo corpo artístico do Teatro S. Luiz onde vai interpretar autores como José Régio.

Eunice Muñoz é transversal a inúmeras épocas e conjunturas sociais e culturais de Portugal, tendo naturalmente coexistido com a política do Estado Novo, coexistência essa que deixa para atrás algumas estórias como a situação d’A Mãe de Stanislaw Wiktiewicz. Estávamos em 1971 e Eunice Muñoz estava destinada a protagonizar o espetáculo, no entanto, a censura em vigor decidiu cancelar a exibição da peça no dia do ensaio geral alegando de que se trata de uma “apologia à droga“. Indignado com esta situação, o diretor da companhia, Luiz Francisco Rebello demite-se, cessando assim a atividade um promissor grupo de atores.

Segue-se então uma fase em que se dedica a uma outra paixão: a poesia. Quer seja em disco, quer seja em recitais, foram inúmeros os seus poemas prediletos que a sua voz deu corpo e vida. Desde António Nobre a Florbela Espanca. O regresso ao teatro faz-se pouco depois com As Criadas de Jean Genet. Depois, e integrada no Teatro Experimental de Cascais, volta novamente a terras africanas para uma extensa tornée com peças como as Maluquinhas de Arroios, de André Brum.

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O regresso aos palcos portugueses será feito apenas em 1978 com a reabertura do Teatro Nacional D. Maria II. Esta será uma fase frutífera onde a atriz irá colecionar êxito após êxito numa fase pós-25 de abril do Teatro Português. John Murray, Brecht, Eurípedes e o Fuggard serão alguns dos autores representados.

A 13 de julho de 1981, Eunice Muñoz é feita Oficial da Ordem Militar de Sant’lago da Espada.

Após algum tempo de afastamento, Eunice voltará a fazer cinema com interpretações fortíssimas em filmes como Manhã Submersa de Lauro António (1980) e  Tempos Difíceis de João Botelho em 1987. Entretanto continuava a construir a lendária carreira no teatro ao trabalhar com ilustres encenadores como João Perry, João Lourenço ou La Féria. Este último trabalhou com a atriz na tão notória revista do Dona Maria II, Passa por mim no Rossio de 1991. Este espetáculo foi o último do seu género a passar no TNDMII até Tropa-Fandanga quebrar esse jejum neste ano de 2014 e ainda em cena.

É também em 1991 que se celebram 50 anos de Eunice Muñoz no teatro, com uma exposição no Museu Nacional de Teatro e uma condecoração em cena aberta no Teatro Nacional feita pelo Presidente da República, na altura, Mário Soares.

Em 1993 dá-se a estreia nas telenovelas com uma aclamada atuação em A Barqueira do Povo de Walter Avancini. Alguns anos mais tarde, Eunice seria presença regular nas produções da TVI, aparecendo num grande número de novelas ao lado da década de 00 com participações em Olhos de Água (2001), Sonhos Traídos (2002), Mistura Fina (2004), A Ilha dos Amores (2007), Equador (2008) e, mais recentemente, Destinos Cruzados (2013), entre outras.

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Em 1996, Eunice recebe um Globo de Ouro que a destaca como Personalidade do Ano em Teatro. Em 1997 vai a cena A Maçon, peça que Lídia Jorge escreveu propositadamente para a atriz. Apenas em 2001 se vê o regresso ao teatro com A Casa do Lago, encenada por Felipe La Féria, a partir de Ernest Thompson e que valeu à atriz o Globo de Ouro de Melhor Atriz de Teatro em 2003.

A partir daí segue-se uma nova interrupção que só terá termo em 2006 com Miss Daisy, sendo a particularidade deste espetáculo a de ter sido representado no Auditório Municipal Eunice Muñoz, uma estreia da atriz naquele espaço. O ano seguinte vê Dúvida, famosa peça de John Patrick Shanley que protagonizou no Teatro Maria Matos. Por esta prestação a Universidade de Évora presenteia-a com o grau de Doutor Honoris Causa.

Segue-se um período de assiduidade no teatro e na televisão. Em 2008 recebe um Globo de Ouro por Mérito e Excelência, em 2010 é elevada a Grande Oficial da Ordem Militar de Sant’lago da Espada e em 2011 segue-se mais uma elevação a Grã Cruz da Ordem de Infante D. Henrique, de onde passou a fazer parte aquando a celebração dos seus 50 anos de carreira.

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Em 2011, Eunice envolveu-se em O Comboio da Madrugada, a partir de Tennessee Williams e encenada por Carlos Avillez. Esta peça seria de malograda fortuna aquando a lesão contraída pela atriz durante os ensaios da mesma em 2012, fazendo com que partisse os dois pulsos e tivesse problemas na cervical. Este incidente acabou por cancelar a apresentação da peça no Teatro Nacional. Recentemente problemas de saúde graves acabaram por fazer com que se retirasse do elenco de Destinos Cruzados em 2013.

Com uma carreira que se estende ao longo de mais de SETE décadas de atividade, Eunice Muñoz é um dos maiores e melhores exemplos de longevidade no meio artístico e social do nosso país. Uma mulher com um indescritível e inegável talento, portadora de dezenas e dezenas de personagens e mestre dos mais variados meios. É de louvar tudo o que foi construído ao longo destes anos e que originou uma das carreiras mais brilhantes e inspiradoras que Portugal já alguma vez viu. Mil vénias a uma das grandes do Teatro português.