Numa semana de fraca oferta cinematográfica, estreia entre nós Lições de Harmonia, a interessante primeira obra de Emir Baigazin que levanta questões importantes e controversas para a atualidade.

Aslan tem 13 anos, vive com a sua avó e está afastado dos outros rapazes da sua idade. Um dia é humilhado pelos colegas durante um exame médico escolar, e este drama irá causar no jovem uma obsessão pela limpeza e pela perfeição. Depois de conhecer um rapaz da cidade que começa a estudar na aldeia, Aslan constrói um plano de vingança contra o sistema hierárquico que reina entre os alunos, onde domina o crime e a violência dos líderes juvenis contra a massa estudantil.

Esteve em competição na 63ª edição do Festival de Berlim, saindo vencedor do Urso de Prata. E é raro vermos um filme do Cazaquistão chegar a Portugal, mas Lições de Harmonia não tem tanto interesse cinematográfico e narrativo como possuem os apelativos elementos sociais e políticos do seu conteúdo.

É mais uma experiência de pretensiosismo, onde o autor esconde o vazio das suas ideias e a fraca solidez da estrutura com uma série de metáforas ou situações descontextualizadas (a repugnante cena inicial, por exemplo), que tentam distrair-nos do essencial. Felizmente, esta tentativa de desvio do espectador sai frustrada, porque para além disto, temos as interpretações vazias e desorientadas de uma boa parte do elenco, e um certo descontrolo de pequenos mecanismos essenciais para o desenrolar da trama.

São situações desconcertantes numa cultura desconcertante, as que visionamos em Lições de Harmonia. A obsessão do protagonista é o desejo de uma sociedade em limpar as suas impurezas, em livrar-se dos seus problemas e das marcas que nunca desapareceram. Só os divertimentos e as futilidades podem distrair os habitantes da dura realidade em que estão inseridos.

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As diferenças de hábitos e tecnologias entre a cidade e a aldeia mostram também como o atraso no mesmo país atinge níveis extremos entre localidades, que criam culturas próprias e que são condicionadas pelo uso dos materiais high-tech, da roupa de marca (e do tesouro que ela representa para os mais pobres), das experiências alternativas que cada um atravessa no seu dia a dia. Como retrato social, Lições de Harmonia choca e faz-nos pensar. Pelo menos é já alguma coisa que consegue compensar a sua mediania.

Pode-se também aclamar a maneira como Baigazin conduz as suas personagens, as suas convicções, as estranhas (e muitas vezes desnecessárias) situações que vivenciam e a amizade entre os dois rapazes que trará uma série de perturbadoras consequências. E a mudança da máscara de Aslan, que afinal, pode não parecer tão fraco e miserável como parece, não deixa de causar espanto.

É ainda de louvar o crescendo de medo que os “maiores” vão incutindo aos alunos indefesos, como o medo propagado pelo duvidoso sistema policial, tal como a escalada de violência que culminará numa tragédia envolvente que nenhum dos “poderosos chefões” esperava que acontecesse. Mas infelizmente, não haverá muito mais do que isso para retirar de bom desta experiência.

Lições de Harmonia é uma proposta interessante de um Cinema que não chega ao nosso país com tanta regularidade. É difícil de digerir (mais pelos seus excessos do que pelas temáticas abordadas) e aponta para caminhos cinematográficos menos convencionais. Mas ao partir para cenas despropositadas deixamos de perceber, realmente, qual é o alvo do filme, e as verdadeiras intenções do realizador nesta fita que, em tantos momentos, parece estar mesmo perto de desequilibrar-se da corda bamba.

Mostrando como o ciclo da vida e das maldades de um sistema nunca pode parar, Lições de Harmonia proporciona interessantes temas de debate e reflexão, num filme que abarca vários géneros… mas que não consegue ser convincente ou relevante em qualquer um deles. Fica a intenção de Emir Baigazin, que para primeira obra, na realização não se saiu mal. Melhor sorte para a próxima.

6.5/10

Ficha Técnica:

Título Original: Uroki garmonii

Realizador: Emir Baigazin

Argumento: Emir Baigazin

Elenco: Timur Aidarbekov, Aslan Anarbayev , Mukhtar Andassov

Género: Drama

Duração: 120 minutos