O Carnaval é uma tradição já antiga: desde aquela Grécia onde as máscaras e as festas serviam para fazer culto aos deuses, passando por uma implantação da Igreja Católica, no século XI, da Semana Santa, onde esse culto religioso, já antigo, permanecia. As máscaras, essa outra persona que gostamos de exibir nesta época, sempre foram uma forma de esconder o nosso eu mais recôndito para nos esquecermos dos problemas – ou evidenciá-los de uma forma sarcástica – que assolam a nossa sociedade.

Afinal de contas, as máscaras somos nós, que vamos revelando e modificando o comportamento consoante o contexto em que nos inserimos ou com o qual convivemos diariamente. Esse teatro sempre presente e constante onde gostamos de nos ir desmascarando, aos poucos, àqueles que nos são mais próximos e íntimos – não deixando, por isso, desse ‘eu’ ser uma máscara de um núcleo mais profundo.

Nas festividades gregas, realizadas naqueles modernos anfiteatros onde todos conseguiam ver e ouvir os atores, a máscara cobria sempre os rostos dos sujeitos que contavam histórias, dramatizando-as. A máscara, a persona de uma pessoa que não se quer identificada – porque é outro.

Por esta altura, em Portugal e no Brasil, é o Carnaval que toma conta dos noticiários nacionais e regionais. As pessoas saem à rua, cansadas de serem elas próprias para serem um outro. Por folia apenas, denotando um certo cansaço e falta de diversão na sua vida quotidiana. O colocar de uma máscara, hoje em dia já não tanto sobre a cara mas sobre todo o corpo, é nada mais nada menos que um esconderijo de nós próprios: onde todos queremos voz numa massa atomizada onde quem fala não é ouvido. O colocar de uma máscara é, por si só, a representação de um outro alguém que gostávamos de ser e nos é impedido, de um sucesso inalcançável ou da complexa e dramática crítica a alguma figura pública.

O conceito de representação é lato, mas no Carnaval todos sabemos o que é: ser outro, sendo eu. O conceito mais básico de uma das mais complexas e paradoxalmente corriqueiras atividades quotidianas toma força, voz e corpo pelas ruas de Portugal.

Uns candidatam-se a património imaterial da humanidade, outros apenas são mais importantes que os nossos: trata-se apenas de tentar dar valor a algo que é reconhecido, por todos, como essencial, mesmo que não o saibam. Talvez se trate de uma hipocrisia representada de um outro; de motivos económicos que superam os sociais ou, porventura, de mera insensatez.

Parece-me, contudo, que não é esta a questão fulcral deste breve linguarejar de opiniões. Não é a cultura o traço mais configurador de um país? Pois, então, que façamos dele uso, como fazemos por esta época. Há cultura quando representamos, ou seja, todos os dias. Há cultura quando comemos num hotel, diferente de quando comemos em casa. Há cultura quando conversamos com um diretor, diferente de quando conversamos com a família mais próxima. Não se trata de folia, apenas. Trata-se de uma necessidade mais forte de qualquer um de nós, de transformarmo-nos, quando podemos, num outro alguém, ou simplesmente desafiar-nos quem nos conhece a reconhecer-nos.

Sejamos, então, atores explícitos. A exposição, quando não em demasia, só pode trazer algo de bom para a sociedade. O romper dos cânones parece ser cada vez mais necessário em qualquer altura do ano. “É Carnaval, ninguém leva a mal”, mas como o Natal pode ser todos os dias, que o seja também o Carnaval: que façamos uso da nossa voz, do nosso corpo, do humor e da sátira para, disfarçados de outros e de diversão, apontarmos o dedo a quem isso mesmo merece. Não apenas no Carnaval, mas sempre.