Estreia hoje nas salas de cinema portuguesas 300: O Início de um Império (300: Rise of an Empire), o segundo título da série iniciada pelo aclamado 300, em 2006. No entanto, e apesar deste último ter deixado elevadíssimas expectativas em relação à sua continuidade, O Início de um Império está a milhas de distância de ser um sucessor digno.

Antes que se comente O Início de um Império, diga-se de passagem que 300, o seu antecessor, não é, de todo, um mau filme. Não está entre os mais intelectualmente estimulantes, é certo, e está longe de ser uma obra-prima cinematográfica, mas a sua excelente realização, fotografia apelativa e carismática atuação de Gerard Butler são de fazer inveja a muitos filmes de ação. Visualmente irrepreensível, 300 soube aproveitar os seus pontos fortes, oferecendo momentos de elevada tensão, cenas de combate emocionantes e o inesquecível grito de guerra do rei Leonidas, que dispensa ser referido.

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Dito isto, torna-se necessário enfatizar que 300: O Início de um Império é um filme em nada semelhante ao seu predecessor. O segundo título desta saga faz algumas alterações importantes ao seu elenco e equipa técnica, alterações que exercem uma influência notável sobre o produto final. Para além de contar com o retorno de nomes como Lena Headey, Rodrigo Santoro e David Wenham, o novo 300 introduz uma vasta gama de novas personagens, vividas por Sullivan Stapleton, Eva Green, e Hans Matheson, entre outros. Na realização, Noam Murro substitui o anterior Zack Snyder, que desta feita assume apenas a posição de argumentista, juntamente com Kurt Johnstad.

É esta a equipa responsável pelo desde já candidato a pior filme do ano. A sua premissa, de narrar os confrontos da Guerra Greco-Persa paralelos à Batalha de Termópilas (do primeiro filme), é inegavelmente mal conseguida: lapsos temporais inexplicáveis, mistificações francamente desnecessárias e falas absolutamente ridículas culminam num dos argumentos mais embaraçosos já vistos. É certo que as palavras nunca constituíram o forte deste tipo de filme, mas nem mesmo os limites mínimos são aqui remotamente atingidos. Os monólogos são desprovidos de qualquer sentimento, oscilando entre o medíocre e o aborrecido, e os diálogos parecem improvisados no momento, tal é a falta de inspiração aqui demonstrada. Para além disso, todo e qualquer cliché de filme de ação pode ser encontrado n’O Início de um Império, desde o filho que, contra as ordens do pai, se junta à batalha, pondo em perigo a sua vida, até ao exército aliado que vem socorrer os protagonistas quando tudo parecia perdido. Originalidade procura-se.

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O infeliz argumento deste 300 encontra paridade, é claro, nas atuações. Não só porque os atores são, em si, maus (o modo como Sullivan Stapleton conseguiu o papel de protagonista é um mistério), mas também porque a forma como Início de um Império é escrito simplesmente não dá azo a boas interpretações. É por esta razão que, ao longo deste filme, frequentemente assistimos a atores e atrizes de qualidade a desempenhar papéis entristecedores. É o caso de Rodrigo Santoro, cujas habilidades como ator dificilmente são páreo para o ridículo papel do “deus-rei” Xerxes; ou de Eva Green, que apesar de excelente atriz pode, não raro, ser vista a fazer figuras desoladoras, em imperdoáveis instâncias de cinema desnecessariamente mau (destaco o momento em que a sua personagem, Artemísia, corta impiedosamente a cabeça a um dos seus inimigos, para depois beijá-la).

O filme possui, apesar de tudo, momentos positivos, mas estes só são atingidos com a reprodução daquilo que já foi feito no primeiro 300. Refiro-me, naturalmente, à realização de Noam Murro, que se revela bastante conseguida, e à fotografia e tom geral de Início de um Império, que, com o seu contraste de cores neutras e vibrantes, é esteticamente deslumbrante. No entanto, fica o sentimento de que não foram feitos avanços significativos em relação ao trabalho anterior, e estes aspetos menos condenáveis não se aguentam quando confrontados com todas as falhas que o filme possui. Para além disso, a primazia visual desta longa-metragem que, neste caso, é tudo o que possui, é em diversas instâncias prejudicada pelo CGI incompreensivelmente irrealista (de que são exemplo os efeitos de sangue em batalha) e pela dinâmica 3D que, sendo até bastante bem feita, é predominantemente escusada. O pó,  o sangue, e as gotículas de água, presentes em literalmente todas as cenas deste filme, sabem aqui a péssimas desculpas para efeitos em três dimensões. De resto, a produção faz um excelente trabalho com a caracterização e alguns cenários, mas nada que salve este filme da absoluta perda de tempo que é.

300: BATTLE OF ARTEMESIUM

Não há muito mais a ser dito sobre este irrisório filme. Decerto não se afigurará difícil a ninguém perceber que 300: O Início de um Império é, em comparação com o título anterior (ou com qualquer outro), um péssimo filme. Interpretações fracas, efeitos inoportunos e um argumento regular e constantemente ridículo compõem este fastidioso trabalho, cujas limitações parecem não ter limites. Que O Início de um Império dececionará os dedicados fãs de 300, não sobra dúvida. Resta-nos esperar que o terceiro título da saga possa, de alguma forma, amortecer a sua aparentemente inevitável queda.

Nota Final: 2/10

Ficha Técnica:

Título: 300: Rise of an Empire

Realizador: Noam Murro

Argumento: Zack Snyder, Kurt Johnstad

Elenco: Sullivan Stapleton, Eva Green, Lena Headey, Hans Matheson, Rodrigo Santoro

Género: Ação, Drama, Fantasia, Guerra

Duração: 102 minutos