Os nomeados para a categoria Melhor Guarda Roupa, nesta 86ª gala dos Óscars, retratam mais uma vez o gosto da Academia pelo vestuário de época. Uma época retratada em filme dá a reconhecer a um público moderno e concentrado nas novas tecnologias, os meandros do passado. Para além das histórias recheadas de uma mentalidade longe do tempo presente, as roupas são uma peça fundamental para esse retrato. Quer seja a história retratada no Golpada Americana, no Grande Gatsby ou no 12 Anos de Escravo, os prémios vão sempre para os designers e figurinistas que se atreveram a viajar no tempo.

Não há qualquer problema em premiar um designer responsável por retratar uma determinada época mas também não existe o chamado “pé na atualidade”. Com um mercado cinematográfico tão rico em histórias atuais, passadas no século XXI, existe uma tendência visível em não premiar o guarda roupa desse tipo de filmes, pelo que filmes como Uma História de Amor, de Spike Jonze, ficaram sem surpresa fora das nomeações. Igualmente fora da corrida ficaram os filmes de fantasia, ao contrário do ano passado, em que A Branca de Neve e o Caçador, com Kristen Stewart e Charlize Theron, e Espelho Meu Espelho Meu, com a Julia Roberts, estiveram nomeados. Em resumo, os nomeados deste ano são:

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Golpada Americana, de David O. Russell, recebeu ao todo dez nomeações para os Óscares 2014 e uma delas é para Melhor Guarda Roupa, para além das nomeações a Jennifer Lawrence para Melhor Atriz Secundária ou para David Russel como Melhor Realizador.

Michael Wilkinson é o figurinista responsável pelo guarda roupa usado pelas personagens do filme passado no século XX, e recebeu, pela primeira vez, uma nomeação para os mais prestigiados prémios da indústria do cinema. Até aqui só tinha sido reconhecido pelo seu trabalho em Tron: O Legado, de 2010, nomeado para um Satelite Award e pelo trabalho em Watchmen em 2009, vencedor do Saturn Award para Melhor Guarda Roupa.

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William Chang Suk Ping – The Grandmaster

The Grandmaster é um dos muitos filmes sem sinal de vida nas salas de cinema portuguesas. Estreou no início do ano passado na China, abriu em fevereiro de 2013 o Berlin International Film Festival e foi selecionado como parte do Hong Kong Internacional Film. Esta longa-metragem conta a história de um grande mestre da arte marcial Wing Chun, Ip Man. De acordo com a Prêt-a-Reporter, o filme do realizador Kar-wai retrata os anos turbulentos entre 1911 e 1951 na China, desde o nascimento da República da China e a criação da União das Artes Marciais, entre outros acontecimentos.

Uma particularidade de William Chang Suk Ping são os conhecimentos também em cinema, para além do design de figurinos. De acordo com o National Post, Ping começou como designer têxtil e frequentou a escola de cinema em Vancouver antes de regressar a Hong Kong.

No The Grandmaster, para além do guarda roupa, Ping fez também a edição do filme e não é a primeira vez que acontece. Nesta colaboração estão filmes como Happy Together, de 1997, In The Mood For Love, de 2000 ou Chungking Express, de 1994.

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Catherine Martin –O Grande Gatsby

Baz Luhrmann rodeou-se de nomes poderosos da indústria para erguer o romance de F Scott Fitzgerald num filme que reinterpreta o brilho e a dinâmica dos loucos anos 20, a ascensão de uma sociedade obscenamente rica e a queda numa pérfida solidão. Baz chamou a vencedora de dois óscares da Academia por Moullin Rouge (2001) Catherine Martin, para assumir a direção dos figurinos. A participação de Miuccia Prada na criação do visual feminino, incluindo alguns looks envergados por Carey Mulligan, foi uma das maiores surpresas, paralelamente à colaboração com a Brooks Brothers, uma empresa centenária ligada à boa alfaiataria americana, na criação dos visuais de Leonardo DiCaprio e do restante casting masculino.

Catherine deixou-se fascinar pelo visual logo a seguir ao término da Primeira Guerra Mundial. “Este foi um tempo de incríveis mudanças em que, basicamente, se passou de uma sociedade oitocentista para um mundo moderno e muito mecanizado no espaço de cinco anos.“, sublinha Catherine Martin ao website da Vogue britânica. Todavia, apesar de manter a autenticidade dos anos 20, a abordagem moderna que se reflete nas roupas permitiu a Martin e a Luhrmann reconetar a audiência atual com a história e percebê-la sob outro ponto de vista, à semelhança do que fez com a música, que contou com a participação de Lana del Rey, Jay Z, Beyoncé, Florence & The Machine ou The XX. “Nós temos que fazer o público sentir como foi ouvir jazz pela primeira vez numa festa!“, terá percebido Martin quando o realizador lhe descreveu como se iria repercutir a música neste filme.

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Nesta imagem, Carey Mulligan surge com um look recriado por Miuccia Prada.

Patricia Norris – Doze Anos Escravo

O realizador Steve McQueen baseou o seu mais recente filme na trama autobiográfica de Solomon Northup, um homem negro alforriado, raptado e tornado escravo por mais de uma década nas plantações algodoeiras do sul dos EUA. As pesquisas que antecederam a construção do visual, acordaram Patricia para a escassez de registos fotográficos dos escravos. Segundo conta à Vanity Fair, os mercadores faziam questão de lhes retirar todas as suas roupas, de forma a cortar os laços com o passado, e estes eram vendidos nus. O senhor que os comprava estava encarregue de os vestir. As peças não tinham acabamentos e as personagens de Chiwetel Ejiofor ou Lupita Nyong’o dificilmente receberiam mais que três ou quatro peças de roupa durante os 12 anos retratados no filme. Os senhores, brancos, precisavam de um visual que os distinguisse facilmente dos escravos. O desafio, numa perspetiva geral, foi tornar a história o mais real possível.

Segundo Patricia, a montagem do guarda roupa foi internacional, incluindo tecidos provenientes de Londres, sapatos e botas italianos e algumas peças vintage adquiridas em Inglaterra. Todavia, não são muitas as casas que disponibilizam para venda peças de meados do século XIX, pelo que a maioria das roupas teve que ser feita à mão pela equipa de Patricia. A designer nomeada cinco vezes para os prémios da Academia, conta que, sem terem feito muito por isso, no final das gravações, as roupa parecia realmente velha, devido às inúmeras horas consecutivas de rodagem debaixo de sol.

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Sem grande esforço, as roupas usadas pelos atores de 12 Anos Escravo ficaram desgastadas depois de várias cenas debaixo de sol.

Michael O’Connor

Sem data de estreia prevista em Portugal, esta película marca o regresso em grande de O’Connor, que venceu vários prémios internacionais em 2009, pelo filme A Duquesa, incluindo o Oscar da Academia para Melhor Guarda Roupa. O século XIX volta a dourar um das histórias nomeados nesta categoria, desta feita com o retrato da relação entre Charles Dickens e Nelly Ternan, a esposa fiel que segue o marido no seu sucesso e nas suas vicissitudes.

Ralph Fiennes assumiu a direção e também o protagonismo do filme, que conta com a participação de Michelle Fairley, Felicity Jones, Kristin Scott Thomas ou Tom Hollander. Fiennes esteve constantemente envolvido na criação do guarda roupa e acompanhou Michael em inúmeras visitas ao arquivo do Victoria & Albert Museum, em Londres. A ideia foi “abraçar a era”, conta ao Telegraph o figurinista, e foi assim que mergulharam na moda dos meados do século XIX, ao tempo em que Nelly conhece o escritor. A sua imagem foi talhada através de postais da década de 1860 e das próprias personagens de Dickens, jovens raparigas, simples, frágeis, pálidas e envoltas em tons pastel. Michael permitiu a Fiennes apresentar ao público um esgar fiel da sensibilidade feminina da personagem de Felicity Jones.

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Resta-nos adiantar que, segundo algumas publicações internacionais, o favorito na corrida ao Oscar de Melhor Guarda Roupa é Golpada Americana e acentuar a ausência de Uma História de Amor. Ainda assim, resta-nos esperar por esta noite para confirmarmos as nossas expectativas.

Texto por: Tiago Loureiro e David Pimenta