A Companhia Nacional de Bailado estreou na quinta-feira a sua mais recente peça Orfeu e Eurídice no Teatro Camões. Com coreografia da conceituada Olga Roriz, a peça apesar de baseada no mito antigo de Orfeu e Eurídice, centra-se essencialmente no amor, na morte e no desejo.

Contrariamente ao que é habitual nas histórias de amor, a peça começa logo com a morte da amada Eurídice. Orfeu está por isso desde cedo separado do seu amor e tenta a todo o custo recuperá-lo. Orfeu e Eurídice é um lamento constante, como afirmou a própria coreógrafa em entrevista à CNB, uma vez que está marcado pelo desencontro entre os dois amados.

orfeu e euridice 4

Olga Roriz gosta de contar histórias e isso é bem evidente, assim como a influência que Pina Bausch teve sobre ela. A entrada daquele tão grande número de bailarinos, em passadas apressadas e ritmados, com mudanças repentinas de direção, com saias compridas e com cores fortes e cabelo apanhado no fundo da cabeça lembrou imediatamente a coreógrafa alemã.

O uso de cores fortes e vivas nos figurinos fazia lembrar as paletas cromáticas do renascimento, remetendo para a época em que a ópera de Gluck foi criada. O jogo de luzes e a cenografia, assim como a música, estavam em harmonia com a coreografia, que se centrava em Orfeu como personagem principal. Tudo acontecia à sua volta, um solo num mundo e os restantes bailarinos noutro. Eram como que seres diferentes: de um lado o apaixonado Orfeu, sofrendo pela perda do seu eterno amor, lutando por ela contra tudo e todos; do outro lado um grande grupo frio e insensível, que apenas acredita no terreno e concreto.

A coreografia estava muito bem definida, com movimentos brutos e violentos, onde não podia haver espaço para grandes falhas. Esquecendo a falta de sincronismo e por vezes de limpeza de movimento (cuja culpa quero atribuir ao nervosismo da estreia), houve momentos que funcionaram bem. As cenas em conjunto foram bem mais marcantes que os solos ou os duetos. Apesar de em determinados momentos estarem mais de 30 pessoas em palco, não havia grande dispersão nem confusão para o espetador.  Saliento uma cena muito forte a nível visual e difícil de interpretar para os bailarinos: em palco, vários duetos simultâneos em que as bailarinas, com os olhos vendados, eram arrastadas, empurradas, elevadas pelo seu respetivo par. Por não conseguirem ver nada, é extremamente difícil ter noção do próprio movimento porque não há perceção do espaço nem do outro, seja aquele com quem se dança ou os outros duetos independentes.

orfeu e euridice 5

Neste Orfeu e Eurídice não há um desfecho feliz como na ópera de Gluck, porque Orfeu além de perder a sua Eurídice para sempre, fica incapaz de amar, ou de olhar se quer para outra mulher. Aliás, a peça acaba com as bacantes que querem a todo o custo possuir aquele homem que continua loucamente apaixonado por uma mulher que já não existe mais. O desejo destas mulheres é tão grande que acabam por ter uma atitude violenta com ele, matando-o e deixando-o só em palco.

orfeu e euridice 1

A plateia (que se não estava cheia, estava muito perto disso) aplaudiu de pé durante muito tempo. Orfeu e Eurídice acabou por surpreender todos os presentes por fugir um pouco aquilo que a CNB nos tem habituado (e ainda bem). A presença em palco de praticamente todo o corpo da Companhia tornou este espetáculo digno de ser visto. Talvez assim se perceba que ainda vale a pena apostar em cultura, especialmente na dança, porque este foi talvez o melhor espetáculo que vi da CNB, assim como aquele mais publicitado pelos media e, como tal, que levou mais gente a ir ao teatro num dia de semana para matar a curiosidade.

Este mito continua presente na sociedade atual por fugir aos canones das típicas histórias de amor em que tudo acaba bem. Os dois apaixonados morrem nesta história por resistirem à tentação e se afastarem da traição, no entanto a dedicação e o amor que sentem é algo que os une eternamente.

Coreografia: Olga Roriz

Música: Christoph Willibal Gluck

Cenário e Figurinos: Nuno Carinhas

Desenho de luz: Cristina Piedade

Intérpretes: Carlos Pinillos (Orfeu), Filipa de Castro (Eurídice), Freek Damen (Amor), Africa Sobrino, Andreia Pinho, Barbora Hruskova, Henriett Ventura, Irina de Oliveira, Maria Santos, Marta Sobreira, Patricia Keleher, Paulina Santos, Peggy Konik, Solange Melo (Bacantes), Alexandra Role, Almudena Maldonado, Andreia Mota, Filipa Pinhão, Inês Moura, Leonor de Jesus, Margarida Pimenta, Melissa Parsons, Susana Matos, Zoe Roberts (Ninfas), Andrea Bena, Dominic Whitbrook, Dukin Seo, Francesco Colombo, Freek Damen, Joshua Earl, Lourenço Ferreira, Mark Biocca, MAxim Clefos, Michael Abzalov, Miguel Ramalho, Ricardo Limão, Ruben de Monte, Tiago Coelho