O Espalha-Factos foi à apresentação do romance A Última Noite em Lisboa, de Sérgio Luís de Carvalho, e falou com o autor, não só sobre as suas inspirações mas também sobre este novo livro que foi apresentado sexta-feira, na FNAC dos Armazéns do Chiado, em Lisboa.

EF: Considera que a inspiração para escrever A Última Noite em Lisboa se formou como uma espécie de continuação do seu outro romance O Destino do Capitão Blanc, na medida em que ambos exploram a situação de Portugal no tempo das Grandes Guerras?

Sérgio Luís de Carvalho: Ahh, eu não tinha pensado nisso sequer. Agora que me pergunta eu acho sinceramente que um não é a continuação do outro. Eles falam da realidade de Portugal nas duas guerras, tem razão…

EF: Exacto, um durante a primeira e agora o outro na segunda.

SLC: Eu temo que não, são questões diferentes, não acredito que este seja a continuação do Blanc. São realidades diferentes, contextos completamente diferentes. A Segunda Guerra Mundial aqui neste contexto deste romance, eu não vou dizer que é um pretexto para a acção mas é um pano de fundo em que a acção decorre. É uma coincidência eu ter em dois romances meus, não consecutivos enfim, mas separados por meia dúzia de anos, abordarem as duas guerras. Mas…

EF: Mas não será intencional.

SLC: Não, não, pelo menos conscientemente não fiz essa apreciação mas foi bem observado da sua parte.

EF: A outra questão está relacionada com o romance Uma Noite em Lisboa, da autoria de Erich Maria Remarque, que aborda também a questão de Portugal durante a II Guerra Mundial. Até que ponto não foi influenciado pelo mesmo durante o processo de criação do seu romance?

SLC: Bom, duas coisas. Devo dizer-lhe que um dos livros que li foi precisamente esse, do Erich Maria Remarque, que é uma temática completamente diferente, é um livro que se passa em pouco mais de 24 horas, no qual como provavelmente sabe um refugiado dá a outro refugiado o seu visto de saída em troco de contar a sua história. Há alguns livros sobre Lisboa nessa época, alguns que são romances como esse, outros que são de humor, livros de memórias, sobretudo o Alfred Döblin, o Saint Exupéry. Foram vários os contributos dos livros que li para este livro, esse foi um deles. A coincidência maior é que os títulos são parecidos. Se bem que já agora também posso dizer que o primeiro título deste romance não era para ser A última noite em Lisboa, curiosamente. Foi um dos livros que li, não sei até que ponto é que…

EF: É que o influenciou muito.

SLC: É que me influenciou, temo que não, o enredo é completamente diferente. O contexto é o mesmo, sim, mas isso também os livros do Döblin ou os livros do Alfred Döblin têm o mesmo contexto. É tudo uma série de influências, uma série de contributos.

EF: Em A Última Noite em Lisboa, a revista A Esfera, que é exactamente um exemplo de como a publicação de periódicos que favoreciam os países do Eixo era tolerada apesar de o Estado supostamente ser neutro, apresenta um destaque central. O que o levou a interessar-se por esta publicação?

SLC: Ah, havia publicações dos dois lados que eram toleradas cá em Portugal feitas por portugueses. Havia o Mundo Gráfico, que era claramente uma revista favorável aos Aliados e havia A Esfera que era uma revista que aliás era patrocinada pela legação, pela Embaixada Alemã em Portugal. Eu sempre achei aquela gente da revista A Esfera uma gente muito curiosa porque sabe, Portugal era um país muito pró-aliado, a opinião pública portuguesa, com os dados que nós temos, era muito pró-aliada. O governo, apesar de ter algumas afinidades com alguns países do Eixo, mais com a Itália até, muito mais com a Itália e Mussolini do que com a Alemanha, o professor Salazar manejou sempre em águas muito turvas como era próprio da sua política. Tinha um distanciamento prudente de ambos os lados, calculista sobretudo.

Essa gente d’A Esfera era uma gente curiosa porque muitos deles até ao fim mantiveram de facto as suas convicções e muitos mantiveram as convicções depois da guerra. O que é particularmente curioso porque, enfim, as opiniões que eles expunham, d’A Esfera, também na maior parte dos casos aliás eram opiniões execráveis, mantiveram-nas. Era uma gente particularmente curiosa. Interessou-me essa pequena minoria militante pró-nazi, que era de facto, como digo, uma pequena minoria em Portugal. Impressionou-me as convicções deles, talvez até pelo facto de serem uma minoria. Despertou-me a curiosidade e servi-me deles no romance e também aproveitei a própria revista depois como solução final, não é? Mas é uma fauna, eu não devia dizer isto, é uma gente peculiar sem dúvida nenhuma.

EF: Em que se baseou para criar Henrique, a personagem principal?

SLC: O Henrique foi uma personagem que foi criada, que foi manipulada, um pouco subjacente ao próprio enredo. Convinha que fosse um jovem que não tivesse opiniões políticas e que fosse crescendo quer politicamente quer como pessoa, quer também em termos da sua visão do mundo ao longo do romance. Convinha que fosse um jovem, ainda verde, imaturo, e que tudo aquilo fosse uma descoberta quer a nível político quer a nível pessoal.

EF: E em relação a Charlotte?

SLC: A Charlotte é uma figura mais marcante, mais coerente, mais construída, não é? Uma pessoa que tem um passado, uma pessoa que tomou as suas opções e que vem exercê-las em Lisboa. Portanto acaba por ser ali um eixo principal em redor da qual as outras gravitam e que lhes abre também muitas perspectivas, quer a ele quer à namorada do Henrique.

EF: Na sua opinião qual é a personagem mais enigmática da obra?

SLC: Mais enigmática… Nós temos três personagens que são muito diferentes. Mais enigmática para o leitor, é a austríaca, Charlotte Katzenstein, que só no fim é que sabemos qual é o enigma dela. O Henrique é um jovem que vai crescendo, vai descobrindo. Para mim uma personagem que achei particularmente curiosa e que me deu um certo prazer trabalhar foi a Maria Carolina, que é a namorada do Henrique, que desabrocha muito mais rapidamente que ele e compreende ainda antes dele o que está em jogo. Foi uma personagem também que eu achei curiosa. Enigmática, para o leitor, será sem dúvida a Charlotte.