Já é uma das sensações do ano, angariando elevadíssimos lucros nos EUA. Agora, O Filme LEGO chega a Portugal para continuar a proeza que tem conquistado um pouco por todo o mundo. Mas atenção: este não é um filme de animação qualquer, sendo dos poucos que consegue mesmo ser para o divertimento de toda a família.

Emmet é um trabalhador irrelevante, que se limita a cumprir as suas funções quotidianas enquanto mini-figura da LEGO. De repente, devido a um pequeno acidente, ele é confundido como o indivíduo especial e extraordinário que pode ser a salvação para enfrentar as maléficas intenções do Lorde Negócios, o líder ditatorial da cidade que tem um plano diabólico para acabar com a tranquilidade do universo.

O Filme LEGO está a receber uma invulgar aclamação dentro do género que se enquadra, destacando-se de um sem número de apostas insípidas e repetitivas que preenchem o mercado do Cinema de animação. E merece-o, pois de todas as obras cinematográficas que utilizam a expressão “filme familiar” para levar Pais e petizes à sala , esta é das poucas que justamente se auto-nomeou como tal.

Talvez desde Toy Story 3 que não se via um filme assim, um objeto satírico, inteligente e brilhante, que mexe a pequenada e a gente mais crescida de formas muito diferentes: enquanto as crianças ficam maravilhadas pela soberba animação e pelo lado “fixe” da narrativa, os adultos têm oportunidade de encontrar uma crítica à sociedade moderna que não se fica só por isso, possuindo várias camadas de subtileza que desafiam o mais moderno e complexo dos filmes de “imagem real”.

O Filme LEGO representa um daqueles raros acontecimentos cinematográficos em que todo o público se consegue divertir e retirar alguma coisa especial. É da essência do ser humano, e daquilo que torna cada um de nós único e insubstituível, que se fala primordialmente nesta trama de amor, amizade, família e aventura. E a fita não se limita a transmitir essa mensagem com alguma fórmula já considerada gasta e irrelevante: vemos a narrativa dar várias voltas em si própria, a mostrar-nos sempre umas quantas novas surpresas, e a desafiar a própria perspetiva que estamos a tirar do filme.

É uma história que nos deixa maravilhados, é um impressionante fresco da animação moderna e das suas potencialidades (que, felizmente, não se limitam só às proezas das técnicas acessórias desenvolvidas por Hollywood), e é também um blockbuster diferente, que, tal como há algumas décadas era hábito, aproveita o seu efeito pipoca para enganar o espectador. Sim, porque estão completamente enganados se pensam que irão ver mais uma proposta sensaborona e entediante, com a bonecada que anima sempre a criançada.

LEGO

Estamos num mundo imaginário, tão bem construído e idealizado, em que a própria LEGO se autocritica e brinca com alguns dos franchises que a marca transformou em colecções dos seus intemporais brinquedos. Uma autêntica metralhadora de piadas, muitas delas que nos passam ao lado (e ainda mais das crianças), e que pegam em referências pop que são desconstruídas e alegremente ridicularizadas.

Obra surpreendentemente profunda que nos faz pensar nas tão suaves e manipuladoras tentativas que o sistema cria para nos alienar e nos integrarmos socialmente num colectivo vazio e sem ponta de interesse individual, O Filme LEGO possui uma grande espectacularidade visual, sentimental e mesmo… filosófica.

Sim, tem os seus clichés, mas não são essenciais. Sim, tem as suas infantilidades, mas quem pensa que a infantilidade ultrapassa o tempo curto em que somos crianças (e por lá se fala nisso também)? Sim, é um filme mainstream, cujas opiniões críticas que forem escritas não afectarão em nada os crescentes lucros que tem obtido no box-office mundial. E depois? Qual é o problema, se estamos perante um grande filme cómico de aventuras, que recupera os clássicos não por ser como eles, mas por ter o mesmo espírito de auto descoberta e de reinvenção constante dos seus materiais criativos e visuais?

O Filme LEGO é um espantoso feito visual, imparável e impagável, com muita coisa para ser contemplada. As múltiplas reviravoltas da sua estrutura e a surpresa constante que nos oferece fazem deste filme uma peça rara na animação moderna, multifacetada e high-tech, que está tão presente no mercado cinematográfico que quase se tornou uma espécie de rotina repetitiva e desinteressante. São filmes como este que dão nova fé ao Cinema de animação e nos fazem ver como há ainda pessoas e histórias que querem alterar aquilo que já vimos milhões de vezes.

Uma nota final para a dobragem portuguesa: a distribuidora decidiu, por motivos de mercado, lançar apenas no nosso país esta versão do filme. Se bem que se possa perder algum do timing das piadas na versão original (é algo inevitável), a adaptação sabe dar a volta e ser tão subtil e irónica como a essência da história pede. Consegue igualmente ser hilariante e captar o espírito humorístico, e os Pais não se arrependerão nada de irem com os mais pequenos à próxima sessão de O Filme LEGO. Todos vão trazer alguma boa lembrança para casa, para as conversas do dia a dia e mesmo para a alma e para o coração.

8.5/10

Ficha Técnica:

Título Original: The LEGO Movie

Realizador: Phil Lord, Christopher Miller

Argumento: Phil Lord, Christopher Miller

Elenco (versão dobrada): Jorge Corrula, Fernando Luís, João Lagarto, Vera Kolodzig, Diogo Infante, André Gago, João Cabral

Género: Animação, Aventura, Comédia

Duração: 100 minutos