Hollywood, tens cá disto? promete trazer, mensalmente, até nós aquilo que só Portugal nos dá: o Cinema Português. Não que de Hollywood não cheguem muitos títulos de qualidade, mas de Portugal, ao longo das décadas, têm sido muitos os grandes filmes de que pouco se fala. Esta é a rubrica certa para se falar deles.

Noite Escura é a sexta longa-metragem do portuense João Canijo, a sua primeira a ser escolhida para representar Portugal no Óscar de Melhor Filme Estrangeiro (a segunda foi Sangue do Meu Sangue, êxito de 2011) e a segunda a ser mostrada em Cannes, depois de Ganhar a Vida (2001). Um filme cru e visceral que explora os os preâmbulos do tráfico humano, os labirintos da crueldade humana e os limites sombrios da sua condição.

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Nelson (Fernando Luís) e Celeste (Rita Blanco) são os donos de um bar de alterne que serve de entreposto a uma rede de  prostituição e tráfico humano encabeçada por mafiosos de Leste, numa localização remota e desconhecida. Certa noite, um “negócio” corre mal. Nelson e o seu sócio Nicolau (José Raposo) veem-se, então, emaranhados nas malhas de uma tragédia grega: para sobreviver, Nelson terá que vender a sua filha Sónia (Cleia Almeida), que sonha ser cantora, aos mafiosos, enquanto Carla (Beatriz Batarda) faz tudo para inverter a situação, atuando como a voz da razão.

Todo o filme se desenrola de noite. Parcas são as cenas no exterior. Todo o ambiente é criado com o intuito de tornar o visionamento do filme uma experiência desconfortável. É claustrofóbico, quase. A maneira como Canijo escreve as personagens, para as colocar em situações que desafiam a normatividade do comportamento humano, poderá fascinar ao mesmo tempo que desorienta. Apesar de não escapar, infelizmente, ao apelo telenovelesco de certos desfechos, consegue sentir-se um travo a Haneke ou Lanthimos na maneira discreta como as situações são abordadas. Se Hollywood gostaria de ter lá disto? Talvez. Mas não lhes faz falta. As interpretações de Luís, Blanco, ou Batarda são, felizmente, intraduzíveis.

Ficha Técnica:

Realização: João Canijo

Argumento: João Canijo, Pierre Hodgson, Mayanna von Ledebur

Elenco: Fernando Luís, Rita Blanco, Cleia Almeida, Beatriz Batarda, José Raposo

Nota: 7.5/10