Com 38 anos de carreira e mais de 15 álbuns lançados, perdemo-nos no mundo de Luís Represas, mas reencontramos a direcção com Cores, álbum que se apresenta, na opinião do próprio, como uma fuga à padronização e a um mundo que cada vez mais se reduz ao preto, branco e cinzento. Numa conversa com o Espalha-Factos, em semana de lançamento do novo álbum, Luís Represas fala da sua forte ligação aos Trovante e também de como gostaria de ser recordado no mundo da música portuguesa.

Espalha-Factos (EF): Porquê o título “Cores”?

Luís Represas (LR): Isto já não anda muito cinzento? E quando digo cinzento não é só do ponto de vista emocional, que andamos a ser maltratados, e que isto anda numa chatice. Tem muito mais a ver com o outro lado, o lado da padronização. É estranho que num mundo com tanta esperança na globalização, com o leque de opções que temos, tudo ao alcance de um clique, essa globalização tenha trazido ainda mais a presença do vírus da normalização e da padronização. E entre o preto e branco não há só o cinzento! Há mais que isso. E aquilo que deveria ser o aumentar da nossa capacidade de opção, chega-nos cada vez à ideia que é tudo igual, que só temos uma coisa para escolher, que é tudo praticamente igual, embora pensemos que estamos a escolher uma coisa totalmente diferente. E acho que chega disso. E ao chamar Cores a este disco é o resultado que tive quando cheguei ao final. Olhei para o disco um bocado ao longe, depois dele estar feito e o que ele me sugeriu foi cores, foi energia, foi positivismo, opções. Foi uma janela aberta, de ar fresco.

EF:  Podemos fazer alguma associação à esperança?

LR: Sim, tem mais a ver com a capacidade de podermos resolver coisas em vez de nos submetermos, e de potencializamos aquilo que é a nossa lusitana tendência de passarmos do sol esplendoroso para passarmos para o xaile negro e pormo-nos a chorar à beira-mar. Podemos ser mais proativos, não ser de extremos, podemos procurar uma janela, procurar esse lado, e é uma forma de combater esse estado de coisas, de não nos vergarmos numa vida cinzenta. Naquilo que seja uma normalidade. Voltámos muito àquilo que era uma televisão a preto e branco.74V_5610

 EF: Já tinha saudades de regressar ao estúdio para um novo álbum de originais?

LR: Durante estes últimos cinco anos, tive essas possíveis saudades colmatadas por três situações de um disco ao vivo + DVD no Campo Pequeno, um disco de originais, com o João Gil, que fizemos os dois um disco a meias, e um trabalho de intérprete em que canto a missa brevis, do João Gil. Portanto, foram três trabalhos que me preencheram muito, musicalmente, o meu tempo e espaço até no último ano encontrar um momento de tranquilidade e sossego e ter dado conta do estado de inquietação em que tanto tempo sem compor um disco e temas novos tinham a tirar. Foi um pouco isso. Quando chegou ao momento de começar a compor e trabalhar um disco novo, não estava tão vindo de uma travessia do deserto. Estava saudavelmente com vontade de trabalhar.

 EF: O álbum consegue ter um cariz mais introspetivo?

LR: Os álbuns são sempre muito introspetivos, embora não sejam autobiográficos. Trabalho muito voltado para a parede, para mim, para dentro. E é um trabalho de introspeção, de busca, de referências, de elementos que estão guardados, e que vieram de uma forma ou de outra, possam ter passados despercebidos e que estão cá dentro, e com o estado de observação retida. Mas é um trabalho, muito pelo momento de composição, que é acompanhado de olhar para as músicas, do lado do arranjador. Este é um disco em que arranjo e estou muito dentro. Ao contrário de outros discos, este é um que vivo na sua totalidade, até chegar ao momento final. Embora tenha tido um grande trabalho de equipa, com o quarteto que normalmente trabalho e com os outros músicos que entraram, mas sim é um trabalho de introspeção.

EF: Foi um trabalho muito fluído?

LR: Foi. Umas mais intensas que outras, mais intensas na composição, outras no encontrar o caminho final, a sonoridade final. Todas elas tiveram o seu quê.

 EF: Algumas das letras foram escritas pela sua filha, Carolina. Como foi esta colaboração?

LR: Sim, duas letras. Ela chama-se Carolina Represas. Nunca cantaria nada de um filho meu, só porque é do meu filho. Porque eu nunca lhe faria isso, e ela não o faria a mim. E tratei com o mesmo respeito e grau de exigência de outros autores que já trabalharam comigo neste disco e outros. Tenham eles a dimensão que tiverem. Com a Carolina tive algum contacto com algumas coisas que ela escreveu, e já de há uns anos a esta parte, sempre achei que tinha capacidade. Sempre me agradou a maneira como ela mexia nas palavras. Como se transporta para a escrita. E desta vez desafiei-a e provoquei-a para a escrita de dois temas. Um dos quais dei o mote, o Tipo, agarrando nesta “moleta”, que se usa nesta geração, e que ela agarrou e trabalhou esse tema, e não na forma que eu mais poderia imaginar, mas tendo em conta quem é que iria cantar. Nem por ela, nem por um amigo da idade dela, mas por mim, com a noção de eficiência. E outra canção que é o Aprendiz, que eu lhe dei a canção feita, e com o tema livre, e que me surpreendeu, porque pareceu que foi uma canção que eu tinha escrito para ela. Mas, independentemente disso tudo, ela é uma autora com quem eu gostei de trabalhar. Que gostei de confrontar, e que me senti cómodo e bem a cantar as palavras dela, da mesma maneira que senti a cantar as palavras de Pedro Rolo Duarte, da Margarida Pinto Correia. É uma autora com a qual espero voltar a trabalhar.

EF: O que é que este álbum consegue ter de diferente do Olhos nos Olhos?

LR: Tudo aquilo que disse até agora. O processo criativo, o arranjo, etc, etc… são factores de diferença, além da diferença que são 10 canções novas que surgem neste momento, depois de 5 anos que vivi, cresci, contextos diferentes, cabeça diferente, que faz e que se revela. O disco é conduzido na sua direcção. Muito acústico, sonoridades de referencia muito dissimuladas, não muito óbvias. Gosto deste lado dissumulado. Longe do mais óbvio. Esse lado experimentalista que esse disco tem.

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EF: Nas ruas ainda é associado aos Trovante?

LR: Muito, muito, muito. Principalmente gerações, não digo mais velhas, mas muita gente que viveu os Trovante através dos pais, tios, ou irmãos mais velhos. Vivi com os Trovante 16 anos, e vivo “sozinho” cerca de 22 anos, não é? O que já faz uma diferença grande de tempo, mas os Trovante tiveram realmente uma passagem marcante na música portuguesa que terminou em 1992, e que deixou referencias muito grandes numa geração, e sim muita gente me associa muito ao Luís Represas dos Trovante.

EF: Houve algum concerto que até agora o marcasse de forma especial?

LR: Houve muitos, houve muitos. É uma enorme injustiça para muitos ter que marcar um. Que o concerto de reunião no Pavilhão Atlântico em 1999 foi mais importante que o do Coliseu em 1984. Seja com Trovante ou sem Trovante,vivi situações tão diferentes e tão díspares com graus de importância tão grandes,  que não tem rigorosamente nada a ver com a dimensão do público ou do espaço, com o lugar. Todos eles foram muito intensos, pelo momento, pelo que significaram. É difícil dizer um com o risco de ser injusto para outros.

EF: Qual foi o pedido mais insólito que algum fã já lhe fez?

LR: Sei lá… Não tenho assim memória. Não tenho memória de pedidos insólitos. Não tenho. Mesmo. De facto não tenho. Curioso…

EF: Há alguma música  do passado a que costuma recorrer mais frequentemente nos concertos de agora?

LR: Vamos lá ver, há canções que são incontornáveis. Minhas ou de outro qualquer. É impossível haver um concerto e recusares músicas que são incontornáveis. Dificilmente poderá haver um concerto em que não cante a Feiticeira, por exemplo. Possivelmente, poderá haver um concerto em que não cante o Perdidamente. As pessoas que normalmente vão a um concerto vão para rever. E as canções fazem história. E eu digo que as pessoas não podem esquecer, há canções que hoje em dia são hits e são incontornáveis, já houve uma altura em que não eram. Já houve um tempo em que a Feiticeira não era conhecida. Ou seja, muito desse percurso, quem o faz é a comunicação social, com a quantidade de vezes que essas músicas são atiradas para a rua. E isso foi o que aconteceu com essas músicas. Porque, antes disso, não eram incontornáveis, e ninguém faz músicas para ser incontornáveis.

EF: Como gostaria de ser visto na música portuguesa daqui a 40 anos?

LR: Não faço a mínima ideia. Como gostava de ser visto? Como alguém que fez aquilo que gostou de fazer, que dedicou a sua vida a fazer música para entregar às pessoas, e para levar às pessoas o melhor que de si tem. Chega-me isso.