A ideia de uma competição mortal na qual só um poderá sobreviver não é nova, no entanto Battle Royale de Koushun Takami é uma referência sempre que esta ideia é mencionada. Lançado no Japão em 1999 esta obra, apesar da polémica, conseguiu ser traduzida para nove idiomas e vendeu mais de um milhão de cópias em todo o mundo.

A história, passada em 1997 num Japão alternativo, foca-se numa turma de 42 estudantes do pré-secundário (equivalente ao 9º ano em Portugal), que por ordem de um regime ditatorial que predomina no país, são forçados a participar numa programa mortal, na qual terão que se matar uns aos outros até que apenas um sobreviva.

Contudo o facto de os jovens terem que se matar uns aos outros não é a única ameaça dentro desta competição: todos os alunos têm ao pescoço uma coleira eletrónica que explode caso estes causem problemas, ou sejam apanhados numa zona de perigo (zonas essas que vão aumentando em várias partes da ilha na qual a competição tem lugar).

Nesta história somos apresentados a uma turma de 42 pessoas bastante heterogéneas. Apesar de a história ser contada na terceira pessoa, a narrativa faz questão de adotar o ponto de vista da maioria das personagens: uns resolvem fazer pela sua sobrevivência entrando na competição; outros resolvem esconder-se de possíveis ameaças; outros resolvem apelar à paz ou até mesmo encontrar um modo de escapar da competição, entre várias outras reações. Os pensamentos de cada uma das personagens são também referidos, ajudando a dar um lado mais pessoal, e de certo modo variado, a esta história.

As mortes descritas são extremamente gráficas e explícitas, na medida em que são descritos pormenores que levam a que o leitor realmente imagine a cena em questão. Desde balas na cabeça, até esfaqueamentos no pescoço, o livro chega mesmo a descrever o que as vítimas sentiram pouco antes de morrerem de forma explicitamente violenta, alguns não chegando realmente a percecionar o que lhes aconteceu. Existem também uns poucos momentos de ação intensa nos quais nos vemos a torcer por determinada(s) personagem(ns), mesmo que o final dos confrontos não seja o que desejamos.

Talvez mais chocante do que tais descrições, seja mesmo o facto de alguns dos alunos atacarem e/ou matarem os seus colegas e/ou amigos de longa data, alguns impulsivamente, outros sem quaisquer remorsos. As várias ações dos alunos ao longo da competição são o elemento que define o suspense desta história.

Temos, entre vários alunos, uma série de personagens memoráveis, tais como o ameaçador Kazuo Kiriyama (que desempenha o papel de antagonista durante a maior parte da história), a sedutora e sinistra Mitsuko Souma, o tímido e durão Hiroki Sugimura, o atlético, popular, mas leal, Shinji Mimura, a bela e atlética Takako Chigusa, entre outros.

Apesar disso uma das maiores falhas que a obra tem é ter protagonistas, neste caso, Shuya Nanahara, Noriko Nakagawa e Shogo Kawada: O primeiro apesar de ter uma personalidade forte e um alto sentido de justiça e lealdade, não faz um grande papel como “herói” ao longo da história; a segunda é a personagem mais desinteressante do trio, e aquela que quase se pode chamar o “peso-morto” do grupo; por fim o terceiro, que já tinha participado nesta competição mortal, revela-se como sendo aquele que mais contribui para a segurança dos outros dois. Shogo Kawada é extremamente inteligente, desenrascado e muito maduro tendo em conta a sua idade. O seu passado ligado ao programa mortal alimentou a sua determinação em arranjar uma maneira de acabar com o programa e com o regime que assola o Japão.

Além de conhecermos pessoalmente muitos dos alunos, a narrativa permite-nos também ter uma noção do regime em que vive este Japão alternativo: uma república que governa o país com mão de ferro sobre os seus cidadãos e opositores, e que apesar de promover o patriotismo também incentiva ao medo e à desconfiança entre a população japonesa. Ao início é dito aos estudantes que o programa em que estão existe com objetivos experimentais. Contudo, perto do fim é-nos revelado o verdadeiro motivo por detrás da existência deste programa. Não irei revela-lo, contudo este é dos momentos que mais expõe a sociedade mórbida na qual esta história se passa.

Em 2000 o livro não só foi adaptado em manga (desenhado por Masayuki Taguchi, e escrito pelo próprio Koushun Takami), como também teve uma adaptação cinematográfica realizada por Kinji Fukasaki. O filme gerou polémica (tal como a obra), mas tornou-se numa referência, sendo também o filme favorito do cineasta Quentin Tarantino. Uma minissérie está a ser planeada apesar de ainda não ser conhecida uma data de estreia no Japão. Em baixo poderás ver o trailer do clássico de Fukasaki.

Em suma, Battle Royale, apesar de não ser uma história genial, é um livro que se recomenda pelo facto de ser bastante revelador sobre a natureza humana. A sua faceta pessoal que nos introduz à psique dos alunos envolvidos na competição, as descrições gráficas de violência e sobretudo as interações entre as personagens, assim como as suas reações, são alguns dos elementos que tornam este livro uma leitura viciante e recomendável quem tenha possibilidade de adquirir esta obra (Nota: Esta obra não existe traduzida em português de Portugal). Definitivamente não é recomendável aos mais sensíveis, mas aqueles que gostam de uma boa história com reviravoltas inesperadas vão definitivamente devorar avidamente este livro.

Nota final: 8/10