Vários mascarados rumaram ao centro da cidade de Torres Vedras para mais uma noite de “preparação” para o Carnaval, mas durante hora e meia, no Teatro-Cine, a música brasileira carnavalesca foi trocada pelas melodias do one man show de Noiserv.

Primando pela pontualidade, David Santos (Noiserv) subiu ao palco do Teatro-Cine acompanhado de Diana Mascarenhas, artista que adornou as canções de Noiserv com ilustrações digitais feitas em directo e projetadas no fundo do palco.

Foi Mr.Carousel, tema que abre o EP A Day in the Day of the Days, o primeiro a ser tocado. Rapidamente, quem nunca tinha visto Noiserv em palco pôde ficar fascinado com a coordenação de David Santos, conjugando os mais variados instrumentos (entre sintetizadores, xilofones, guitarra, ou coisas menos usuais como uma máquina fotográfica analógica ou uma pistola de plástico) e construindo diversas melodias simples que em conjunto formam complexas (e lindíssimas) canções.

Depois das apresentações “e tudo mais”, David Santos revelou-se um excelente entertainer e contador de histórias. Mesmo sem ainda ter digerido um “mini-bitoque” gigante, ingerido à pressa num restaurante nas imediações do teatro após “o soundcheck mais longo da história”, Noiserv, para além de nos presentear com boa música, brindou-nos com o seu humor non-sense e teorias sobre, por exemplo, a espessura ideal da roupa.

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Foram vários os temas do mais recente disco Almost Visible Orchestra, lançado em outubro do passado ano mas que “ainda é novo”, que ecoaram num Teatro-Cine quase esgotado. Especial destaque para I was trying to sleep when everyone woke up, tema que nos alerta para quando estamos “emocionalmente adormecidos” e precisamos “que os nossos amigos nos acordem”, bem como para a “ode às rotinas” Today is the same as yesterday but yesterday is not today.

Ao contrário dos “galos de Barcelos das lojas chinesas”, a música de Noiserv prima pela originalidade e autenticidade. Ao longo das várias canções fomos ficando cada vez mais fascinados com a sincronia de David entre os vários instrumentos, assim como com as ilustrações de Diana Mascarenhas, perfeitamente adequadas aos temas e que coloriam cada vez mais o fundo do palco.

Parafraseando o próprio Noiserv, “os fins forçados nunca são fixes”, mas à medida que a discografia ia sendo percorrida (houve espaço para temas mais antigos como Bullets on Parade, do primeiro disco), fomo-nos aproximando a passos largos de um concerto em que nada falhou e que só pecou por ser curto. Lá fora, “nada mais além de chuva” e frio, mas dentro do Teatro-Cine viajou-se por “mares nunca dantes navegados” naquela que foi a primeira atuação de David Santos como Noiserv na sala torreense (já aí havia atuado com o seu projeto You Can’t Win Charlie Brown, em 2012).

Foi com Don’t say why if you don’t have time for a nice goodbye, tema que encerra o seu último disco, que Noiserv se despediu dos torreenses, mas após uma não-sincronia entre o blackout e o final da gravação dos seus loops, voltou para Bontempi, último tema de One Hundred Miles from Thoughtlessness (2008).

De facto, só nos podemos mesmo queixar da curta duração do espetáculo. Tirando isso, entre loops, variadíssimos instrumentos, ilustrações, as histórias e a doce voz de David Santos, nada falhou. Tudo funcionou numa harmonia perfeita. Como bónus, Noiserv ainda nos ofereceu algumas lições de vida: “mais vale morrer feliz aos 30 do que infeliz aos 90″. Não podíamos concordar mais.

Foto: Facebook oficial de Noiserv