Sexta-feira foi dia de Grind no festival internacional de dança contemporânea em Guimarães. Desta vez o espetáculo teve lugar no pequeno auditório do CCVF, porque era necessário um palco e uma sala mais pequenos para se conseguir o impacto necessário.


Grind é um espetáculo que explora os limites do espetador. O termo grind entrou na nossa cultura através da dança e da música, no entanto é um termo industrial relativo ao corte de metal. O ambiente pós-industrial, com toda a provocação, a rejeição das normas sociais, os tabus e o ambiente punk e grunge dos anos 80 são explorados em cima do palco.

Escuridão total na sala e um silêncio assustador. Ainda de luz apagada começa a música eletrónica, forte e extremamente alta. Começa a ser inquietante e intimidador este ambiente, causando um certo desconforto claustrofóbico. Feixes de luz revelam um vulto numa espécie de luta com algo informe e maleável. O que é que se passa afinal? A sala está quente, as luzes e o som juntos com aqueles movimentos formam um conjunto tão poderoso que deixa o público inerte e sem reação. É hipnotizante e pede respeito, ninguém se atreveria a gritar mesmo que se sentisse mal, mas era bem possível que tal acontecesse.

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Quando finalmente a luz aumenta percebe-se que o vulto é um homem que dançava com um pedaço de tecido, que agora estava transformado numa forma empacotada e atada. O homem vai-se deixando cair contra a parede branca, num balanço constante. Vai puxando uns fios elétricos que não acabam nunca. O jogo de luz cria um dueto entre o homem e a própria sombra. Por vezes a escuridão total contrasta com luzes tão fortes que instintivamente forçam a fechar os olhos rapidamente. A música mantém-se numa batida forte e constante.

Jefta van Dinther mantém-se sozinho em palco, mas as vibrações que ecoam por toda a sala transformam-no em vários seres. Começa a ser difícil para o espetador distinguir realidade do que parece ser apenas um desvario mental. Sabe-se que está só uma pessoa em palco a mexer freneticamente em fios, mas conseguimos ver várias sombras e os movimentos do intérprete multiplicados, como se em cada fração de segundo uma fotografia momentânea ficasse projetada no espaço.

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O homem ao centro roda um cabo por cima da cabeça. Acende-se uma luz na ponta. A luz da sala vai-se reduzindo, aos poucos. Agora só vemos uma bola de luz a girar e vai deixando um rasto, tão grande é a velocidade. Mais uma vez o público é atraiçoado pelos sentidos. Não se vê nada, apenas se ouve. Um zumbido transporta-nos para uma dimensão diferente onde a noção de espaço, de força ou de tempo não existem.

Acaba e a luz acende. Onde estive e o que aconteceu não é bem evidente. Não assisti a um espetáculo de dança. Assisti a uma performance de luz, som e movimento extremamente bem pensada e conseguida.

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A força e a intensidade deste espetáculo são tão fortes que ninguém fala quando abandona a sala. Os olhos ainda se estão a habituar à luz e os ouvidos ao silêncio e aos ruídos de fundo. Que espetáculo! Que força impressionante e que efeito avassalador que teve sobre todo o público. Senti-me reduzida ao nada, totalmente dependente da luz, do som e do movimento para me conseguir localizar e segurar. Uma luta entre a realidade e o artificial, que não era controlada por mim, mas por tudo o que me era externo.

Fotografias de jeftavandinther.com

Criação: Jefta van Dinther, Minna Tiikkainen e David Kiers

Conceito: Jefta van Dinther e Minna Tiikkainen

Coreografia e dança: Jefta van Dinther

Desenho de Luz: Minna Tiikkainen

Desenho de som: David Kiers

Música: David Kiers e Emptyset

Duração: 50 minutos