Chega às salas de cinema portuguesas um dos grandes nomeados aos Oscars deste ano. Uma História de Amor é, por um lado, um assustador  retrato de uma sociedade futurística completamente controlada pela artificialidade e tecnologia. Mas por outro, é um belíssimo olhar sobre um dos mais genuínos amores platónicos vistos no grande ecrã. 

Um solitário escritor de cartões, de nome Theodore (Joaquin Phoenix) desenvolve uma peculiar relação com o seu Sistema Operativo acabado de comprar. Num mundo em que os novos Sistemas Operativos são pensados para servir qualquer necessidade do consumidor, nota-se que os SO são algo mais do que aquilo que aparentam ser, deixam de ser simplesmente produtos fabricados por computadores e passam a ter algo de mais humano em si.

Depois de O Sítio das Coisas Selvagens, Spike Jonze lança-se novamente na cadeira de realização e argumentista. E que grande retorno, talvez com um dos mais inspirados argumentos do cinema feito em 2013 e da sua própria carreira, Uma História de Amor não é só uma grande homenagem ao amor, como uma carta aberta sobre uma quase utópica sociedade que de organização tem muito, mas de realismo pouco. A visão e criação de Jonze desta sociedade imaginária é talvez o ponto forte da construção do argumento e ele é, sem dúvida, o ex-libris de todo o filme: peculiar, fascinante e, acima de tudo, apaixonante.

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Encontramos Theodore a trabalhar num dos muitos arranha-céus de uma futurística Los Angeles, uma cidade completamente transformada daquela que hoje conhecemos. Uma cidade assustadoramente equilibrada, seja pela coesão arquitectónica dos edifícios, pela proliferação dos neutros ou até, simplesmente, pelo facto de não haver quaisquer vestígios de resíduos no chão. Em suma, uma cidade perfeita onde a tranquilidade se consegue aliar a uma vida urbana. No entanto a peculiaridade do argumento de Jonze não vem desta capacidade do mesmo de criar cenários de um futuro utópico, mas da forma como ele os cria e depois os reenvia para a actualidade. Ou seja, a peculiaridade do argumento de Uma História de Amor reside no facto de ele nos fazer indagar sobre a nossa própria existência e a forma como a inércia social está, inevitavelmente, a corromper a nossa sociedade que se torna cada vez mais mecanizada e afastada do real, uma sociedade que vive da artificialidade e do artifício.

É fascinante haver um atento olhar sobre as relações demasiado íntimas que as pessoas no filme têm com os seus próprios gadgets, mas ao mesmo tempo é aterrador se nos apercebermos que, de facto, o que ali acontece na ficção é já uma realidade dos nossos dias, claro que em menor escala. Se pensarmos bem, verificamos que nas carruagens do metro é rara a pessoa que não tem o seu olhar colado num qualquer smartphone a actualizar uma das suas mil redes sociais, a jogar um qualquer jogo de cortar fruta, a falar com a prima ou a decidir se manda ou não mensagens ao ex-namorado. Jonze cria assim esta ponte que atravessa a linha do tempo e da ficção, uma ponte num argumento inteligentíssimo que ataca directamente o espectador que sai da sala a repensar um pouco da sua vida.

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Do outro lado do argumento temos uma curiosa relação que nasce da forma mais bonita. Já se imaginaram a ficar apaixonados por uma voz na vossa mente? Quase que uma consciência, que tem a peculiaridade de satisfazer todos os vossos desejos e que é entoada de forma a vos agradar, os SO em Uma História de Amor são uma paródia da Siri criada pela Apple para os seus dispositivos móveis. A auto-intitulada Samantha (Scarlett Johansson) nasce assim das necessidades de Theodore e, desde logo, existe uma grande empatia entre ambos e a amizade floresce logo nos primeiros diálogos. Samantha afirma-se assim como o protótipo ideal de uma mulher para o protagonista, é inteligente, com um óptimo sentido de humor e aproveita cada momento da sua suposta vida. Para Theodore ela é perfeita, apenas não é humana.

Acompanhamos a sua relação, os seus altos e baixos, as peripécias mais aventureiras e até as conversas fiadas sobre nada. Embrenhamo-nos de tal forma na relação deles que nos sentimos como um terceiro elemento, a intimidade e química é tanta que é-nos inevitável esboçar o sorriso ternurento ou a lágrima de compaixão. Jonze constrói aqui uma das mais bonitas relações de amor vistas ultimamente no cinema, uma relação tão genuína e pura que é quase perfeita, uma perfeição que está sempre acompanhada pelo lado trágico que é o de, na verdade, não ser real. Samantha é apenas um Sistema Operativo, está para sempre condenada à imatéria, ao mundo do subjectivo, do imaginário, este lado trágico não só perturba Theodore como o próprio espectador, ele que também se vai apaixonando por esta personagem.

Se o filme vive, essencialmente, do cuidadoso argumento que Spike Jonze entrega, também não nos podemos esquecer que tanto os actores como os aspectos técnicos são grandes forças nesta equação, são eles que dão vida ao excelente guião e que o mantêm excelente enquanto filme. Tanto Joaquin Phoenix como Scarlett Johansson estão fabulosos, sendo que a segunda teve dos trabalhos mais difíceis da sua, ainda curta, carreira. A actriz não aparece, dela apenas temos a voz, mas isto não é um qualquer trabalho de dobragem, é muito mais que isso. Nota-se uma entrega total de Johansson a Samantha, quase que a sentimos presente, tal como Theodore, ela existe e a química entre ambos é perfeita.

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Também em termos técnicos a excelência continua a ser a palavra de ordem, a deliciosa fotografia e direcção de arte ajudam a compor todo um utópico mundo que aos nossos olhos nos parece demasiado perfeito, uma demasia que até nos aflige. Há um cuidado meticuloso nos jogos de luz, nos jogos de cor e na disposição de determinados objectos, um cuidado tal que nos é estranho e é essa estranheza que faz com que este cenário futurista criado por Jonze seja, para nós espectadores, quase claustrofóbico. Por fim o remate da banda-sonora que entra em completa harmonia com o filme, como um todo. Os cuidadosos acordes e a subtileza da sonoridade transmite-nos paz e faz-nos entrar numa perfeita comunhão com a acção e o argumento.

Em suma, este é um filme sobre o qual é difícil de se falar. Cada um sente o que tem a sentir na sala de cinema, mas algo é certo, o mais recente trabalho de Spike Jonze não nos deixará indiferentes e marcará qualquer um que o veja. É um belíssimo filme composto por um inspirado argumento e deliciosos actores que constroem uma óptima química entre ambos. Uma História de Amor é indescritível, para se perceber é obrigatório desfrutá-lo.

9.5/10

Ficha Técnica:

Título Original: Her

Realizadores: Spike Jonze

Argumento: Spike Jonze

Elenco: Joaquin Phoenix, Scarlett Johansson, Amy Adams, Rooney Mara

Género: Drama, Romance, Ficção-Científica

Duração: 126 minutos

 

*Por opção do autor, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945