A Sul da Fronteira, A Oeste do Sol é um romance intensivo sobre a existência humana e o amor, que nos faz questionar a vida que levamos e o que conhecemos de nós mesmos. Haruki Murakami tem o condão de saber explorar o nosso interior e de contrastar o que fazemos, o que dizemos e o que sentimos de uma forma impressionante. Depois de Sputnik, Meu Amor, que não cativou por aí além, decidi dar-lhe uma segunda oportunidade. Não me arrependi.

Hajime é o narrador da sua própria história. É filho único, o que é raro nas famílias japonesas da altura, por isso trava mais facilmente amizade com uma rapariga também ela nessa situação. Com Shimamoto, Hajime partilha o interesse pela leitura e pela música e descobre na colega de escola uma pessoa fascinante. A vida afasta-os mas, à medida que vai crescendo e seguindo com a sua vida, Hajime continua a recordar a amiga de infância com saudade, pensando no que as suas vidas podiam ter sido se tivessem mantido o contacto. E um dia, muitos anos depois, na sua vida pacata, Shimamoto reaparece, envolta em mistério e trazendo consigo a recordação do passado. O reencontro ameaça e põe em risco a vida presente de Hajime.

Se a primeira parte do romance peca um pouco pela sua rapidez e simplicidade excessivas, a segunda e, em particular, o final, fazem valer a espera e a expectativa de que algo especial teria lugar. Hajime vai evoluindo e o leitor com ele: todo o livro é uma descoberta, por parte de si mesmo, dos seus sentimentos, da sua capacidade de resistir ao desejo e ao passado, da sua personalidade – por vezes maldosa e arrogante. Enfim, da razão da sua própria existência. É curioso observarmos como Hajime parece ter pouca personalidade ao início, como se nem ele soubesse bem, ainda, quem é e do que é capaz. Os seus próprios sentimentos são indefinidos, pouco complexos, quase instintivos. A sua própria narração é pouco reflectida.

E passamos à frente de muitos anos da sua vida, como se também ele os tivesse vivido quase num abrir e fechar de olhos, sem grandes marcos, sem grandes recordações de valor. São as feridas que nunca se fecham e que voltam sempre para o assombrar e questionar: quando magoou Izumi (e, consequentemente, o seu próprio coração por lhe ter feito mal), quando perseguiu Shimamoto na rua e não teve coragem para falar. Mais tarde, também quando hesita entre seguir o seu desejo e magoar Yukiko ou resistir em nome da vida perfeita que tem. Sempre as mulheres da (e na) sua vida a criar dúvidas, desejos e contradições.

Já Shimamoto, quando reaparece, é uma mulher bonita e misteriosa, apesar de manter os traços que Hajime já lhe conhecia da infância que partilharam. É a mulher da vida de Hajime: por muito que se tenha apaixonado por outras, o que sente por ela desde os doze anos é mais forte do que qualquer outro amor. É paixão, quase obsessão. E contrariamente às outras mulheres que trai e magoa, ela é forte, não sei deixa magoar – está ‘acima’ de Hajime, podendo ser ela a magoá-lo e a virar a sua vida de pantanas. Se por um lado a mulher é, de certa forma, objetificada na cultura japonesa, com a aceitação e até um certo encorajamento das relações extra-conjugais, em Shimamoto temos o oposto: é ela que faz de Hajime um peão, é ela que aparece e desaparece da sua vida e não lhe conta nada sobre ela.

Murakami joga aqui também com os nomes das personagens, escolhidos a dedo pelo seu significado, numa integração bastante inteligente e curiosa da cultura japonesa. Hajime é ‘início’: como se toda a sua vida tentasse começar de novo, seguir em frente, e estivesse constantemente preso ao passado. Izumi significa água, Yukiko significa neve – como se fossem iguais no que diz respeito a Hajime, que não as consegue amar como a Shimamoto. Este é um nome tão misterioso como a própria mulher, que aparece sempre em dias de chuva como este e que um certo dia precisou de neve para sobreviver. Se antes parecia simplista, nestes pormenores Murakami parece extremamente atento e delicado.

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O mesmo acontece com os momentos memoráveis que descreve, histórias que ficarão para sempre na nossa memória. E com as longas e precisas descrições de espaços e acções, bem como os maravilhosos diálogos em que nos envolve. Murakami conquista, sem dúvida, nos diálogos, quando as palavras não chegam para dizer tudo o que se sente, e ainda assim conseguem abrir um pouco a alma e o coração das personagens.

Também o título detém o seu significado especial: não só é a música de Nat King Cole que Hajime e Shimamoto ouvem enquanto jovens, como encerra um certo sentido de “coisa linda” que se pretende sempre atingir. Como nunca estamos satisfeitos com o que temos e queremos sempre algo melhor, que nos atraia mais. O ‘Oeste do Sol’ é “um lugar diferente do que está no sul da fronteira”, ao qual acedemos mais facilmente, que não é assim tão especial (como o México a que a canção faz referência ou como a relação com Yukiko). É para Shimamoto um lugar que, para se atingir, pode até levar à morte – é intenso, é apaixonante, é obsessivo. Como de resto é todo o romance

Murakami valeu inquestionavelmente a segunda oportunidade e este A Sul da Fronteira, A Oeste do Sol merece uma leitura atenta e uma reflexão profunda quando se acaba de ler. Corremos o risco de não o compreender e apreciar da maneira certa se não dermos atenção aos pormenores e nos deixarmos levar pela simplicidade da escrita ou pela banalidade aparente da história. Deixemo-nos questionar sobre a vida que temos e a que gostávamos de ter. Deixemo-nos sonhar um bocadinho com os inícios possíveis.

7,5/10