Na primeira noite de assalto ao Carnaval em Torres Vedras, a cidade do Carnaval mais português de Portugal recebeu os Ena Pá 2000, no Teatro-Cine, para um concerto de celebração dos 30 anos de carreira da banda.
Aproveitando os 50% de desconto no bilhete para mascarados, foram vários os torreenses que tiraram os seus disfarces do armário e que, juntamente com quem foi “à paisana”, (quase) encheram o Teatro-Cine, no passado sábado, para ver Manuel João Vieira e companhia.

Pouco faltava para as dez da noite, quando “o melhor grupo de Campo de Ourique” subiu ao palco. Foram quase duas horas de rock humor pornográfico, com clássicos como Marilu, És cruel ou Vida de cão, e intervenções de um grupo de fãs embriagados, que decidiu dar tudo na segunda fila, com crowd-surfing’s (sim, numa sala com lugares sentados) e invasões de palco.

Alice foi o tema que abriu o concerto e não pudemos deixar de ficar espantados com a presença da banda em palco, mas também com as magníficas bailarinas que a acompanhavam (quais Cármen e Mirita do Serafim Saudade de Herman José), vestidas a rigor para o Carnaval de Torres (embora as saias demasiado reveladoras mostrassem várias vezes as suas “cuecas de terilene”). Muitas calorias devem ter perdido com as suas coreografias (des)coordenadas, feitas do alto dos seus saltos agulha.

A qualidade do som deixou a desejar, com os instrumentos demasiado altos a deixarem grande parte das letras cantadas por Manuel João Vieira imperceptíveis, mas nem assim a festa deixou de ser feita. O humor corrosivo e o vernáculo reinaram, ou não fossem eles a imagem de marca do eterno candidato à Presidência da República. Vendo as letras dos temas no seu iPad, Manuel João queixou-se do tamanho da letra (com uns quantos palavrões pelo meio, claro), e brindou-nos com Fim-de-semana em Vizela (tema “do tempo em que havia dinheiro para a gasolina”), Vida de Cão (“para quem tem, vai ter, ou não tem emprego”) e outras canções de És muita linda (2012).

1896858_10152175822870027_1352301704_n

Apesar da excelente presença em palco dos músicos e das coreografias hipnotizantes das bailarinas, a grande maioria do tempo foi passada a ver o que é que os fãs da segunda fila estavam a “tramar”, pois a cada tema que passava eram mais as intervenções, as danças, as invasões de palco e as dores de cabeça criadas ao staff do Teatro-Cine. “Manel, eras o maior se isto não tivesse cadeiras!”.

Um dos pontos altos do concerto foi claramente o tema És cruel, cantado em coro por todo o auditório e concordando que a festa seria ainda melhor se os lugares sentados não nos impedissem de dançar. Não só de rock se fez esta noite, mas também de “atitudi” hip-hop em Rap Alentejano e de ritmo Bossa Nova em Puta.

O clássico Marilu fechou o concerto, mas seguir-se-iam dois encores. O primeiro com PDF, do Álbum Bronco (2011) e as Irmãs Marlene, e o segundo com Lulu, a história de um cão bastante peculiar.

Podemos dizer que o concerto de Ena Pá 2000 inaugurou o Carnaval de Torres Vedras com chave de ouro: sem regras, com muito humor, muita sátira e muita crítica “ao Governo atual, ao a seguir e ao a seguir”, tal e qual no Carnaval mais português de Portugal. Saímos com um sorriso nos lábios, sabendo que “a luta continua”, que “a mulher portuguesa é a mais bonita do mundo” e que está aberta aquela que, para os torreenses, é a melhor época do ano.

Fotografia: Facebook oficial do Teatro-Cine Torres Vedras