Uma semana depois da sua morte, recordamos os melhores desempenhos de Philip Seymour Hoffman no grande ecrã. Dez papéis memoráveis que fazem a História do Cinema Contemporâneo, e que tornaram o talento do ator intemporal.

Foi nomeado para quatro Oscars, mas só recebeu um – e nem se tratou da sua melhor performance. Mas a carreira e o brilhantismo de Philip Seymour Hoffman vão muito para além da opinião dos membros da Academia: se nos ficarmos apenas pelas quatro personagens que agradaram aos prémios mais famosos do Cinema, estaremos a ver uma pequeníssima parte do gigantesco espólio de interpretações inesquecíveis que o ator deixou para a posteridade.

E no meio de tanta coisa boa, selecionar esta dezena de filmes foi uma tarefa injusta e ingrata para o grande artista que Hoffman foi. Uma série de títulos fantásticos tiveram de ficar de fora, e esta lista não pretende ser mais do que um pseudo-best-of, que tem como única função recordar a versatilidade e a genialidade do maior ator da sua geração, e de um dos melhores intérpretes da Hollywood contemporânea. Comecemos então a nossa viagem…

1. – Happiness: Felicidade [1998]

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O filme de Todd Solondz é um olhar polémico e provocador da sociedade americana e das maneiras mais ou menos obscuras que cada ser humano utiliza para alcançar o seu ideal de felicidade. Allen, a personagem de Philip Seymour Hoffman, é um secundário num mosaico de histórias sobre a América urbana e todas as suas manias e particularidades corrosivas. Contudo, a interpretação do ator acaba por ser uma das maiores memórias que retiramos deste filme único no Cinema americano: é um homem repugnante, obcecado pelo sexo feminino, mas que nunca consegue expor socialmente os seus desejos, guardando para a sua timidez e a comodidade do seu lar as fantasias mais perversas e perturbantes. É o weirdo mais famoso que Hoffman interpretou no grande ecrã, e com certeza, uma das mais chocantes e controversas personagens da sua carreira.

 2. – State and Main [2000]

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Numa obra escrita e realizada pelo genial dramaturgo David Mamet, State and Main é uma comédia satírica aos defeitos da indústria cinematográfica norte-americana e uma crítica incisiva ao lado ridículo das estrelas de Hollywood e dos técnicos que fazem os bastidores das grandes produções do país. Aqui vemos Hoffman como Joseph Turner White, o argumentista do filme que está a ser rodado numa pequena cidade dos EUA, que tem de alterar o seu texto para continuar a ir ao encontro das suas ideias, mas também das necessidades do caos da rodagem. White tenta afastar-se do mundo luxuoso e privilegiado em que vive a equipa técnica e os atores principais, mantendo a sua integridade (e o espírito daquilo que escreveu), enquanto tudo o resto parece desabar à sua volta. Uma performance mais neurótica e angustiada que agrada ao espectador pela magnífica condução que Hoffman dá às palavras de Mamet.

3. – Punch-Drunk Love: Embriagado de Amor [2002]

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Philip Seymour Hoffman aparece por muito pouco tempo nesta quarta colaboração com Paul Thomas Anderson, mas tornou-se a personagem mais memorável desta comédia romântica invulgar exatamente por isso mesmo: apesar de ser quase um figurante nesta história de amor protagonizada por um surpreendente Adam Sandler, Hoffman rouba o ecrã a todos os outros atores durante os pequenos momentos em que aparece, e arrasa com o espectador, da forma que só ele conseguia fazer e que se lhe tornou característica. Dean Trumbell, a sua personagem desconcertante, faz rir o espectador pelas coisas mais insólitas.

4. – A Queda de um Jogador (Owning Mahowny) [2003]

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Não é um dos filmes mais conhecidos de Philip Seymour Hoffman (em Portugal foi apenas lançado em DVD, nunca chegando às salas), apesar da aclamação que teve por parte da crítica americana. Baseado numa história verídica, Owning Mahowny é a história de Dan Mahowny, um gerente bancário que é viciado no jogo, utilizando certos esquemas de dinheiro dentro da sua empresa para conseguir as quantias que necessita para alimentar as suas “necessidades”. Aqui como protagonista, o ator constrói uma interpretação que aprofunda os tiques que o vício dá a Dan, e a forma como ele destrói a sua vida por não conseguir sair desta espiral psicológica, que prende o homem aos casinos e ao azar das suas jogadas.

5. – Capote [2005]

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Não poderia faltar nesta lista o filme que valeu a Philip Seymour Hoffman o único Oscar da sua filmografia: ele é Truman Capote, o lendário escritor americano, durante as circunstâncias que levaram à criação da sua obra mais conhecida, A Sangue Frio. Recriando as características e particularidades de uma das figuras mais famosas da cultura americana do século XX, Hoffman transfigura-se completamente para dar nova vida a Capote. A interpretação do ator é tão realista, que por vezes nos esquecemos que não estamos a ver o próprio Capote, com o seu sarcasmo e o cinismo que caracterizavam a sua personalidade.

6. – Os Savages [2007]

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Um drama independente que a Portugal só chegou ao mercado do home-video, Os Savages é uma das histórias mais singulares que Philip Seymour Hoffman interpretou. Parece ser uma narrativa banal sobre uma família, mas é também uma poderosa amostra de um sentimentalismo puro que encontramos raramente na contemporaneidade. O ator é Jon Savage, um professor de teatro que, com a irmã, terá de cuidar do pai. Apesar de nunca ter demonstrado qualquer preocupação em relação aos dois filhos, eles ficam com a responsabilidade de tratarem do seu progenitor à medida que este fica cada vez mais debilitado. Uma das performances mais humanas do ator, que emociona o espectador por retratar uma situação comum à maioria das pessoas de uma forma bonita, credível e única.

7. – Antes que o Diabo Saiba que Morreste [2007]

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Foi o último filme do realizador Sidney Lumet, que terminou uma brilhante vida cinematográfica com uma história arrasadora de crime e tensão, que envolve dois irmãos, um plano e um assalto falhado que mudará as vidas de todas as personagens. Philip Seymour Hoffman brilha como Andy, o cérebro da operação criminosa, que convence o irmão Hank a assaltar a joalharia dos pais. Viciado em heroína (não façamos comparações com a realidade), Andy vê a sua vida desabar à medida que o seu esquema aparentemente brilhante segue caminhos que ele não tinha previsto. Hoffman proporciona uma atuação arrebatadora e fabulosa que emociona e choca o espectador, numa narrativa de voltas e reviravoltas e que é um dos filmes mais marcantes do século XXI.

8. – Sinédoque, Nova Iorque [2008]

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Foi o primeiro filme realizado pelo argumentista Charlie Kaufman (Queres ser John Malkovich?, Inadaptado, O Despertar da Mente), conhecido pelas suas histórias invulgares e originais. Em Sinédoque, Nova Iorque, o autor brinda-nos com uma narrativa labiríntica, perturbante e inovadora, em que Philip Seymour Hoffman assumiu o papel do protagonista, Caden Cotard, um encenador e dramaturgo que acompanhamos ao longo de 25 anos, numa jornada repleta de analepses e prolepses, onde investigamos a vida de Caden, as suas paixões, as suas ambições e o seu maior sonho: criar uma peça do tamanho da vida, que reflita a realidade de cada ser humano que habita o planeta. É a composição mais complexa de Hoffman que, num misto de drama, paranoia, obsessão e loucura, cria uma composição que mostrou ao mundo que o talento do ator não tinha limites para surpreender.

9. – Dúvida [2008] 

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A interpretação que valeu ao ator a terceira nomeação para o Oscar é uma reflexão sombria e negra sobre o lado obscuro da Igreja. John Patrick Shanley adaptou a sua peça homónima num filme que conta uma história de segredos, mentiras e manipulações, em que Hoffman é o Padre Brendan Flynn , a quem cai uma suspeita de abuso sexual sobre um dos rapazes de um Colégio Católico. Durante o filme ficamos mais ou menos adeptos da teoria defendida pela Irmã Aloysius (Meryl Streep), mas a personagem do ator nunca nos deixa ver qual é, afinal, a verdade nesta questão tão polémica nos nossos dias. Hoffman consegue ser, mais uma vez, um ator ímpar, que nos suscita dúvidas e certezas enquanto as freiras investigam o que realmente aconteceu.

10. – The Master: O Mentor [2012]

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Na cerimónia que lhe deu a quarta e última nomeação para os Prémios da Academia, o ator foi, infelizmente, “roubado” (ganhou Christoph Waltz, injustamente, por Django Libertado). Talvez a polémica em volta da Cientologia em que esteve envolvido o filme de Paul Thomas Anderson tenha influenciado os Oscars desse ano (a personagem do ator é muito semelhante ao seu fundador, L. Ron Hubbard), mas o que é certo é que temos aqui, mais uma vez, um Philip Seymour Hoffman em estado de graça. Ele é Lancaster Dodd, o criador de uma seita religiosa duvidosa, mas que movimenta muitas almas ingénuas que procuram a sua própria salvação. Apesar de ter sido um filme que dividiu opiniões (entre quem detestou e quem adorou), ninguém conseguiu ficar indiferente à performance inteligente e invulgar de Hoffman, um líder entre os desesperados que não sabe, também, controlar o seu próprio desespero na irracionalidade da sua “Causa”. O último grande papel do ator, e uma das suas personagens mais icónicas.