No sábado dia 8 de Fevereiro, os CCN-Ballet de Lorraine apresentaram no grande auditório do Centro Cultural Vila Flor dois espetáculos, um com coreografia de Emanuel Gat e outro com coreografia de Mathilde Monnier. Foi assim mais uma das noites desta quarta edição do GUIdance .

Transposition#2 , Emanuel Gat

Transposition#2 é a segunda parte de um conceito coreográfico que explora o movimento do ser humano. São muitos os bailarinos que invadem o palco como uma massa intensa e diversificada. O olhar do espetador perde-se com tanto movimento e quando reencontramos o ponto central já tudo mudou e a concentração já deveria estar em outro ponto na ponta oposta do palco.

Os intérpretes estão em roupa interior, o cenário é inexistente, apenas um palco imenso com um fundo preto, a música não é mais do que ruídos de fundo, palavras soltas, respirações e às vezes alguma composição clássica.

Aparentemente, este espetáculo não parece ser mais do que movimentos desenfreados, cada bailarino a dançar para si, a sentir para si. Assim que o olhar se habitua, começa a ser fácil reparar em duetos, trios e até em coreografias em grupo. Avanços e recuos, corridas e saltos, um massa compacta e um corpo isolado a observar tudo de longe. Uma direção comum a um grupo, mas formas de deslocação distintas. O mesmo movimento, mas cada bailarino utiliza partes do corpo diferente para o executar.

É o público que escolhe para onde direcionar o olhar, aquilo que mais lhe chama a atenção e que o prende. Não é dada nenhuma direção obrigatória ou essencial, os bailarinos estão espalhados pelo palco, em grupo ou isoladamente, de forma assimétrica e desproporcional. As pausas e os silêncios são fundamentais neste tipo de espetáculos para que se consiga absorver tudo o que se passa em palco, para que toda a confusão de corpos e movimentos faça sentido, mas acima de tudo para que o cérebro pare um pouco e relaxe para que consiga recomeçar a processar toda a informação que chega em simultâneo e em velocidade.

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Saliento ainda a técnica de todos os bailarinos, onde era evidente as boas bases clássicas. Aqueles bailarinos transpiravam técnica. Todos os seus movimentos eram perfeitos e exatos, sem falhas, tudo parecia simples e fluído, não havia sacrifício nem esforço.

Transposition#2 aborda uma nova experiência de olhar o movimento em palco, de processamento de uma informação densa e complexa. Com este espetáculo o público tem de desenvolver uma ginástica do olhar, tem de ser rápido e conciso e por mais que se esforce há sempre algo que escapa. E é pena, os movimentos são todos tão bonitos e perfeitos que custa perder um único segundo deste espetáculo. Transposition#2 obriga cada espetador a procurar soluções individualmente e a descobrir realidades contrárias ou complementares, consoante a forma como se interpreta a coreografia.

Coreografia: Emanuel Gat

Música: Frédéric Duru

Desenho de Luz: Olivier Bauer

Interpretação: Amandine Biancherin, Agnès Boulamger, Pauline Colemard, Morgan De Quelen, Vivien Ingrams, Laure Lescoffy, Valérie Ly-Cuong, Sakiko Oishi, Marion Rastouil, Elisa Ribes, Ligia Saldanha, Jonathan Archambault, Guillaume Busilllet, Valentin Chargy, Justin Cumine, Charles Dalerci, Fabio Dolce, Dmitri Domojirov, Phanuel Erdmann, Tristan Ihne, Joris Perez, Yoann Rifosta

Duração: 20 minutos

Objets  Re-Trouvés, Mathilde Monnier

Objets Re-Touvés é um espetáculo que Monnier criou com o intuito de homenagear o corpo de baile desta companhia. É um espetáculo sobre as memórias pessoais de cada bailarino, sobre as histórias que criam, sobre a forma como contam os tempos, como decoram coreografias e como as dançam.

guidance #2

São cerca de 20 pessoas em palcos com roupas do quotidiano, simples e confortáveis. Um bailarino começa com uma contagem básica para o início de qualquer coreografia: “une, deux, trois, quatre, cinq, six, sept, huit, et… une, deux, trois, quatre, cinq, six, sept, huit et…”, outros o seguem, começam a surgir os primeiros movimentos. De repente uma contra-contagem. E depois outra. E, do nada, há já vários grupos formados a trabalhar coreografias em cânone. O barulho das várias e diferentes contagens é ensurdecedor, há um frenesim no palco, há demasiado a acontecer.

O espetáculo vai desenvolvendo-se através das memórias dos bailarinos: “lembro-me que a última vez que levei esta coreografia a palco, tinha acabado de descobrir que estava grávida”, mas é preciso esquecer o privado e saber que durante o tempo em que se dança é preciso correr até ao ponto X, uma pirueta, pausa que daqui a pouco já vou para casa, dois saltos, braços assim, pernas assado, barriga forte e estabilidade, diz uma das interpretes enquanto executa todos estes movimentos. É depois apresentado uma variedade de coreografias:  solos clássicos e contemporâneos, assim como duetos e trios, mas todas elas dançadas e faladas simultaneamente pelos próprios bailarinos, como eles verdadeiramente pensam. Um reviver de espetáculos já feitos, de coreografias antigas, contagens e formas de memorização próprias, histórias de vida enquanto bailarinos.

objets re trouves

Mathilde Monnier criou um espetáculo em que os bailarinos gritam bem alto aquilo que pensam em silêncio enquanto dançam. O movimento cala a mente, mas agora têm oportunidade de deitar tudo cá para fora. Neste espetáculo há uma partilha de experiencias com o público que descobre aos poucos aquilo que o bailarino pensa enquanto dança: o que o move quando dança, como vê o movimento, que história cria para decorar a coreografia. No fundo vem mostrar que um bailarino não é um mero ser com corpo e técnica perfeitas, que faz movimentos exatos e repetitivos, que vive com rigor e uma disciplina intransponível. Um bailarino é um ser humano como cada pessoa do público, com ambições e medos, com uma vida para além da dança que, por mais que tente, não consegue nunca esquecer absolutamente. E essa vida tem grande importância em cada uma das suas performances, porque o que se sente reflete-se na dança.

O espetáculo termina com a primeira lembrança de dança que cada um dos bailarinos tem. A primeira aula de clássico, um aula de dança sevilhana, uma coreografia de sapateado, a caminhada imponente no espetáculo da escola primária, a coreografia da música Wannabe das Spice Girls, o Hokey Pokey que todos aprendemos no infantário. Que forma bonita de acabar um espetáculo… Impressionante como algo tão simples pode marcar tanto alguém e durante tantos anos. É algo que por norma não pensamos muito, mas que marca, marca. E possivelmente até nos molda ou define o nosso futuro, seja ele como bailarino, engenheiro ou jornalista.

O certo é que saí da sala a pensar na memória mais antiga que tenho de uma coreografia que já tenha dançado. E é óbvio que não consigo esquecer os passos do refrão da Cinderela do Carlos Paião que dancei no infantário.

Coreografia: Mathilde Monnier

Desenho de som: Olivier Renouf

Desenho de Luz: Éric Wurtz

Interpretação: Nina Khokham, Agnès Boulamger, Morgan De Quelen, Valérie Ferrando, Vivien Ingrams, Laure Lescoffy, Valérie Ly-Cuong, Sakiko Oishi, Marion Rastouil, Elisa Ribes, Ligia Saldanha, Jonathan Archambault, Guillaume Busilllet, Justin Cumine, Fabio Dolce, Dmitri Domojirov, Phanuel Erdmann, Tristan Ihne, Joris Perez, Yoann Rifosta

Duração: 50 minutos