Já tinha ficado provado que os YCWCB (You Can’t Win, Charlie Brown) não iam ao tapete por causa duma casca de banana, mesmo que se tratasse duma banana fora-de-série, como acontece com The Velvet Underground & Nico. E, mesmo em 2011, quando nos trouxeram o seu primeiro longa-duração, Chromatic, tivemos garantias de que dominavam a paleta musical, que eles próprios se podem gabar de ter inaugurado. Depois disto, se calhar, muitos já esfregavam as mãos enquanto vaticinavam o tão popular “à terceira é de vez”. A todos esses, quero relembrar a existência de um outro chavão: “não há duas sem três”.

Diffraction/Refraction não é o típico segundo álbum que fica aquém do de estreia; não é a típica travessia do deserto nem a licença sabática de criatividade; Diffraction/Refraction é a terceira casca de banana no caminho dos YCWCB e, muito provavelmente, a menos escorregadiça. Decididamente, nada pode vencer estes tipos. Por isso, juntemo-nos a eles.

O segundo álbum do sexteto português revela, acima de tudo, o seu diagnóstico enquanto vassalos da excelência. Não sou médico, mas parece-me óbvio que este paciente sofre de TOC (Transtorno obsessivo-compulsivo). Digo-o com base nos seguintes sintomas: cisma com a perfeição e com a simetria musicais, reverência à versatilidade rítmica e mania do equilíbrio de suaves e fortes, de silêncios e energias. Diffraction/Refraction é um truque de magia que envolve simplicidade e experimentalismo, forjando-se um folk inovador através da força electrónica dos sintetizadores. A guitarra está presente quase sempre, mas quase nunca audível. Curiosamente, é numa das faixas que mais se sente a sua presença que encontramos o melhor momento deste álbum: I Wanna Be Your Fog é tão afável quanto o timbre de Afonso Cabral e sintetiza bem o núcleo de YCWCB.

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Diffraction/Refraction é uma cartada alta destes rapazes. Puseram, como diria o mister Jesus, a carne toda no assador. Bem ao estilo de Blimunda Sete-Luas, os YCWCB conseguiram ver por dentro de nós e perceber que estavam reunidas as vontades para a construção desta passarola musical. A autenticidade deste éter é tanta que se produzem momentos sublimes quase sem qualquer esforço, como é o caso da transição de After December para Fall For You. Este é um disco pensado e construído sob a égide da minúcia e do floreado, a avaliar, desde logo, pela forma como as harmonias vocais são acasaladas e não se desviam um milímetro que seja da sua rota. Mas este não é um floreado qualquer. Não é enjoativo, supérfluo ou bazófio. É um floreado que resulta do cruzamento das experiências díspares dos seis membros da banda e que transparece, por exemplo, em Natural Habitat, habitáculo onde todos coexistem pacificamente. No fundo, é um floreado que acrescenta, verdadeiramente, algo à sonoridade de YCWCB e que não existe apenas “porque sim”.

De facto, é uma tarefa difícil, a de encontrar pontos fracos em Diffraction/Refraction. Com um álbum feito quase com régua e esquadro, a dúvida que paira é se, tendo-se superado Chromatic e subido tanto a fasquia, vai ser possível surpreender daqui em diante.

Nota final: 9.0/10