Conhecemo-la como Emmanuelle Riva, mas Paulette Germaine Riva é o seu nome de batismo. Nascida a a 24 de fevereiro de 1927, assume uma confessa vontade se tornar atriz quando ainda só contava seis anos de idade. Filha única, a sua infância e adolescência são passadas na pacata e rural região da Lorena, no nordeste francês, onde os pais tentam a todo o custo reprimir o seu sonho. Em vão: os estudos não entusiasmam a jovem Emmanuelle, que se torna uma presença assídua em todas as peças de teatro da escola que frequentava.

No fim da sua adolescência, Riva achava-se resignada com o estado das coisas e com o ofício que os pais a tinham encarregado de aprender – o de costureira – antevendo uma vida humilde e sem sobressaltos na pequena vila de Remiremont. Contudo, e apesar dos seus 26 anos (considerada uma idade tardia para se iniciar na representação profissional), é em 1953 que se enche de coragem para contar aos pais da sua decisão de partir para Paris e arriscar uma carreira no espetáculo, depois de saber de um concurso no Centro de Artes Dramáticas de Paris.

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Riva numa visita a Remiremont (1971)

Na sua primeira audição na capital francesa, Emmanuelle maravilhou os júris, o que lhe valeu uma bolsa de estudo e o estatuto de pupila do lendário ator de teatro Jean Meyer. Após entrar em várias peças de teatro, em 1957 interpreta a Rainha de Inglaterra numa série histórica na televisão francesa. A sua estreia no grande ecrã, As grandes famílias (1958),  passa despercebida,  mas o ano seguinte viria a representar o grande ponto de viragem na vida de Riva.

Certa noite, após uma peça, Emmanuelle teve a visita do cineasta Alain Resnais, que se dirigiu aos camarins à procura daquela que poderia vir a ser a estrela da sua primeira longa-metragem. O realizador de Nuit et brouillard tinha em suas mãos o argumento de Hiroshima mon amour, de Marguerite Duras e, sem dar quaisquer certezas a Emmanuelle, pediu-lhe alguns retratos seus. Resnais, então, mostrou as fotografias a Duras, que, ao reparar no ar enigmático e melancólico da atriz, teve a certeza de que ela era exactamente aquilo que procuravam. Hiroshima mon amour acabou por ser um dos mais aclamados filmes da Nouvelle Vague e a interpretação de Emmanuelle Riva umas das mais indeléveis da história do cinema. O argumento de Duras recebeu uma nomeação para os Oscars e Riva recebeu um Étoile de Cristal (equivalente ao César de hoje), pela sua incrível prestação enquanto Elle. A sua carreira estava agora proeminentemente lançada.

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Hiroshima mon amour (1959)

Em 1960 participa em quatro filmes (dos quais o drama art house Kapò [1960]) e em 1961 é requisitada especialmente por Jean-Pierre Melville para contracenar com Jean-Paul Belmondo no polémico Léon Morin, prêtre. Melville terá dito que não teria feito este filme se Riva ou Belmondo tivessem recusado o seu convite e terá escolhido Riva pelo seu “erotismo intelectual nato“, capaz de implicar veracidade à personagem de Barny, uma viúva descrente que alimenta uma relação de fortes implicações sexuais com o padre Léon Morin (Belmondo). Entre críticas que reclamavam da “brejeirice gratuita” do filme e lhe chamavam de indecente, a longa-metragem de Melville acabou por ser um sucesso.

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Léon Morin, prêtre (1961)

No restantes anos da década de 60, Riva foi somando importantes papéis tanto no cinema francês como no italiano, trabalhando com realizadores como Georges Franju ou Luciano Salce. Contudo, tornou-se difícil para Emmanuelle replicar, nas décadas de 70 e 80, o seu sucesso precedente. Apesar de continuar a ser uma presença assídua no cinema francês, os filmes em que participava não causavam grande comoção internacional. A própria explica que recusou “muitos papéis, papéis comerciais” que não trariam nada de novo ao cinema, mas que também se arrepende de o ter feito e que não deveria ter sido “tão drástica“. Apesar de tudo, Riva sempre arranjou tempo e disponibilidade para projetos alternativos, mas de grande qualidade, como a terça parte da trilogia das cores de Kieslowski, Trois couleurs: Bleu (1993).

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Trois couleurs: Bleu

A carreira de Emmanuelle viria a ganhar um novo marco substancial apenas anos mais tarde, num colossal ressurgimento, com o internacionalmente aclamado Amour (2012), de Michael Haneke. O realizador austríaco escreveu Amour para ser interpretado por Jean-Louis Trintignant, ator com quem Riva havia contracenado pela primeira vez em 1965, mas, inicialmente, não tinha qualquer atriz em mente para o papel de Anne. Desconhecendo o trabalho de Riva após Hiroshima mon amour, Haneke achou a atriz credível como esposa de Trintignant e depressa terá percebido que ela era a escolha certa para o papel. Amour é a história de um casal de idosos cuja vida muda drasticamente após Anne sofrer de uma trombose e começar progressivamente a perder as suas capacidades, tanto motoras quanto mentais. Um assombroso ensaio sobre o amor e a morte, que venceu a Palm d’Or em Cannes (e o Oscar e o Golden Globe para melhor filme estrangeiro) e que, na opinião de Nanni Moretti, presidente do júri, deveria também ter arrebatado os galardões para melhor ator e melhor atriz. Como tal vai contra as regras do festival, ambos os atores foram convidados a aceitar o prémio em palco,  acompanhando Haneke.

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Amour (2012)

Emmanuelle Riva viria também a ser nomeada para os Oscars como melhor atriz (a 12.ª atriz francesa a consegui-lo), e a ganhar um BAFTA e um César, tudo pelo seu trabalho em Amour. Parece ter sido a consagração desta atriz francesa que chegou ao mundo do espetáculo já tardiamente, mas que o marcou o cinema mundial de forma inabalável.

A francesa, que pratica tiro com arco desde que filmou Hiroshima mon amour, também já publicou três livros de poesia e um de fotografia, com retratos da sua viagem ao Japão, intitulado Tu n’as rien vu à Hiroshima. No próximo ano, em março, estreia a título póstumo o seu último filme, Alma, da islandesa Kristín Jóhannesdóttir.

Atualizado a 29/01/2017, 19h31.