Começou na quinta-feira (6 de Fevereiro) o festival  internacional de dança contemporânea em Guimarães. O GUIdance já vai na sua quarta edição e por lá já passaram grandes nomes da dança contemporânea mundial como as companhias belgas Peeping Tom e C de la B, os australianos Australian Dance Theatre ou a japonesa Kaori Ito. Este ano são 15 espetáculos nacionais e internacionais, alguns com estreia absoluta, para além das masterclass e das conferências que vão acontecer ao longo destas duas semanas no Centro Cultural Vila Flor e na Plataforma das Artes e da Criatividade.

Fica no singelo, peça da autoria de Clara Andermatt, foi ontem apresentada no grande auditório do Centro Cultural Vila Flor. Tendo como inspiração as danças tradicionais e folclóricas do nosso país, este espetáculo tinha tudo para cair no popularucho e espampanante, no entanto foi exatamente o oposto que aconteceu. Um espetáculo com gosto que recria as raízes do folclore nacional sem nunca o deturpar, levando-o aliás a um outro nível, mais rebuscado e bonito.

O cenário e os figurinos remetem-nos para o rural: cadeiras de madeira, saias rodadas, coletes e camisas brancas assumem-se no palco como personagens por si só. Acordeão,  gaita de foles, ferrinhos, guitarra, bombos e outros instrumentos de precursão são tocados ao vivo, marcando a sonoridade de toda a sala. Os tradicionais passos de danças como chamarrita, fandango ou ao corridinho são adaptadas para a dança contemporânea, no entanto existe sempre uma constante interligação que nos faz desligar do presente e viajar até ao passado campesino, onde aqueles que melhor e mais rápido dançavam conseguiam reconhecimento. Em Fica no singelo tudo foi pensado ao pormenor, desde as coreografias, aos jogos de luzes, passando pelo que é dito e tocado.

ficanoSingelo_

O espetáculo começa com simples trocas de lugar entre o espaço, aos poucos movimentos suaves de braços começam a surgir. O resultado final? Os intérpretes com os braços esticados acima da cabeça, fazem os tradicionais estalidos com os dedos, pedindo ao público para os acompanhar, porque afinal “dançar é isto, partilha” diz um dos bailarinos. E é mesmo. A dança é um tipo de linguagem único que nos permite transmitir ao outro algo mais abstrato e indefinido, mas que afinal é tão comum a todos, como as bases da nossa cultura.

Despem-se casacos, coletes e camisas para facilitar os movimentos, os músicos ocupam os seus lugares, ouve-se “Chamarrita a dançar!”. Começa aqui o cruzamento entre estes dois mundos da dança que, apesar de não ser inédito foi extremamente pensado e muito bem conseguido.

Neste espetáculo há lugar para tudo: um baile mandado, cantares ao desafio, declamações aceleradas de dizeres populares, um solo de gaita de foles, uma luta entre dois homens que acaba com a intervenção de duas mulheres que mostram de que são realmente feitas.

ficanosingelo

Vejo esta peça como uma corrida desenfreada para se atingir um passado distante que aparentemente teima em cair no esquecimento, mas o que Clara Andermatt vem mostrar é que afinal está bem próximo e pode ser reajustado ao agora. Fica no singelo é um espetáculo único que me surpreendeu muito pela positiva, principalmente pela lavagem que foi dada ao folclore. Mas não é só o aspeto visual que importa, mas sim aquilo que passa do palco para o espetador. Ao sair da sala, senti que entranhei um pouco das danças tradicionais portuguesas, que esta nova roupagem pode ser abordada e explorada ainda mais. Há que tornar o passado atual, há que dar a volta mas sem nunca perder a base de partida. A cultura tradicional portuguesa tem tantas caraterísticas por onde se pode pegar e moldá-las face à atualidade. É preciso explorá-las e, se o resultado final for tão bom quanto este espetáculo, então penso que a salvação da cultura portuguesa pode passar por aqui.

Para terminar os mais curiosos podiam participar num baile popular, comandado pelos bailarinos que aconteceu no átrio da sala de espetáculo. Depois de vermos o resultado final, por que não fazer uma retrospetiva e descobrir o que originou este espetáculo? Desta forma, a lição sobre dança popular portuguesa fica totalmente aprendida.

Fica no singelo não só mostrou ao público que o folclore é atual, como permitiu que este experimentasse as raízes tradicionais da dança portuguesa. É repetindo os gestos, retransformando os movimentos, renovando a música e reinterpretando as danças que a recordação se torna presente “Não deixa de ser suficiente para lembrar que a cultura é uma expressão da construção humana”*

ficanosingelo2

Direção e Coreografia: Clara Andermatt
Direção Musical: Luís Pedro Madeira e Clara Andermatt
Composição: Luís Pedro Madeira
Desenho de Luz: José Álvaro Correia
Figurinos: José António Tenente
Paisagem sonora electrónica: Jonas Runa
Intérpretes criadores: André Cabral, Bruno Alves, Francisca Pinto, Joana Lopes, Linora Dinga, Sergio Cobos, Catarina Moura, Luís Peixoto, Quiné Teles

Duração: 1h15 (sem intervalo)

*frase retirada do programa oficial do GUIdance 2014