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A Bibliotecária de Auschwitz: a vida num virar de página

O enigmático título abre caminho a uma narração misteriosa, cujas páginas se enchem de dor e sofrimento, mas também de coragem e esperança de sobreviver para contar a história. A Bibliotecária de Auschwitz é uma obra sobre o Holocausto, sobre um bloco particular onde a vida dita ‘normal’ parecia restabelecida e sobre uma mulherzinha que o jornalista espanhol Antonio G. Iturbe descobriu e quis dar a conhecer ao mundo. E ainda bem que o fez. E ainda bem que o conseguiu de uma maneira tão especial.

Dita é a bibliotecária de Auschwitz que dá nome ao livro. É apenas uma rapariguinha, checa, judia, que foi levada para o gueto de Terezín e dali para Auschwitz, onde os mais cientes questionam o porquê da existência de um campo familiar em que, para além do trabalho forçado e dos assassínios em massa nas câmaras de gás, se mantêm vivas mulheres e crianças. A jovem vive rodeada pelos pais, amigas e os SS que observam cada passo que dão; menos no Bloco 31, onde se juntam as crianças para as entreter durante o dia e onde Fredy Hirsch ergueu uma verdadeira escola. Contra todas as expectativas, existem até oito livros em papel, dos quais Dita se torna guardiã e distribuidora, recrutando igualmente ‘livros vivos’ para contarem histórias e ensinarem as crianças. Num campo onde o terror domina, a biblioteca clandestina, que para todos os efeitos nunca existiu, é uma forma de voar para bem longe daquela prisão.

Mais do que sobreviver, num sítio em que a comida escasseia e o sabor de uma maçã ou de um ovo cozido dificilmente se conseguem recordar, o que acontecia no Bloco 31 faz as crianças “sentirem-se pessoas”: remete para a vida antes da guerra, sem medo, em que a única preocupação são as coisas superficiais. Num lugar tão sombrio, negro e triste como Auschwitz, as pessoas encontram a felicidade a jogar à macaca na neve, a apanhar flocos de neve com uma rede, ou nas histórias dos livros que as fazem rir e conhecer o mundo. Ensinar aquelas crianças torna-se uma missão; fazê-las felizes é sobretudo ocultar-lhes tudo o que acontece fora daquele pequeno bloco e tentar abstraí-las de uma realidade que pode ser também o seu futuro.

“Era tão pequena que já quase não se lembra de como era o mundo quando não havia guerra. Tal com esconde os livros debaixo do vestido naquele lugar onde lhe roubaram tudo, assim guarda na cabeça um álbum de fotografias feito de recordações. Fecha os olhos e tenta lembrar-se de como era o mundo quando não existia o medo.”

Dita contrasta com toda a indiferença, a dor e o medo que a rodeiam. Irradia boa disposição e esperança, mesmo que não as sinta. É apenas uma adolescente, mas a responsabilidade, o risco que corre na sua tarefa de bibliotecária e todo este crescimento forçado a que a guerra obrigou tornam-na uma mulher. “Para se ser criança é preciso ter uma infância”, pensa a certa altura nas palavras do autor, e a sua foi ouvir constantemente a mãe a resignar-se e a tentar protegê-la com um “é a guerra, Edita” a que nunca se conformou. A coragem com que se movimenta entre as ameaças, as pessoas famintas e as figuras assustadoras como a do Doutor Mengele, tornam-na também uma verdadeira heroína no meio daquele inferno nazi onde o diabo se sentiria em casa.

E acompanhamos a sua vida no campo, onde o chefe do bloco 31 se torna um ídolo de bravura para Dita. Fredy é o grande impulsionador desta biblioteca pública onde todos os mundos são possíveis na imaginação – na nossa também. É um exemplo de resistência, apesar das suas aparentes boas relações com os SS; é um homem com um “sorriso enigmático” que nunca se rende, que nunca se deixa derrotar, mesmo quando deixa de poder ser ele a liderar as vitórias. É curioso – e até algo desgastante, na obra – como Dita (a personagem) procura freneticamente descobrir a verdade sobre Hirsch, reabilitando a sua memória que se recusa a crer ser a de um homem derrotado, para nunca deixar de acreditar na sua coragem e firmeza.

Acompanhamos a vida de Dita: os seus pais, Margit, as pessoas que vai conhecendo na ‘escola’, as suas ‘fotos na cabeça’ – as recordações do passado que nos vão sendo oferecidas em flashbacks saudosistas. Nos campos por onde passa observamos sempre, em descrições muito vivas e cruas, o horror que aquela jovem mulher viveu a tentar sobreviver. Há até momentos em que tudo à volta é tão terrível que a já nem medo se tem; a indiferença e a inconsciência são as maiores conquistas dos que construíram estas prisões. E torna-se importante para nós seguir Dita até ao fim, ver como acabou (se acabou) a sua história: ela é a nossa heroína, a quem nos agarramos ao longo da obra, em quem confiamos para nos levar para fora daquele abismo.

Dita Polachova (Dita Kraus, após o casamento com Ota Kraus), no romance com o apelido Adlerova. © Jornal Opção

Se ela é o livro, os livros são a outra parte relevante da narrativa. Se Iturbe é autor, então todos os outros escritores cujos livros são relatados, citados e integrados na obra são co-autores desta ficção entrelaçada com a realidade. É um livro para verdadeiros amantes de livros, que conhecem a história d’O Conde de Montecristo e se deixam levar pelos recantos que Uma Breve História do Mundo, de H. G. Wells, dá a conhecer, tal como todos os que contactam com os livros escondidos em Auschwitz. O que representam – a consciência, a resistência, a reflexão – é ainda mais relevante.

A escrita jornalística literária de Antonio G. Iturbe é notória, particularmente, nos traços de investigação que cada capítulo encerra, na forma como seguimos as personagens e até na crueza com que nos deparamos com as situações relatadas. É verdade que embeleza (se é que podemos usar tal palavra) certas passagens e a própria Dita (a real) afirma que o escritor ficcionou muito o que, para ela, não passam de muitas memórias difusas do passado.

Iturbe pega sobretudo nos sentimentos – no que Dita sentiu, no que ele próprio sentiu ao visitar Auschwitz e ao conhecer aquela mulher – e transforma-os em palavras. Por outro lado, é simplista na sua formulação, é cru, é realista, como um romance deste género pede. Reflecte a realidade com um poder visual incrível, descrevendo de forma muito viva todos o espaços. Tudo isto permite-nos navegar por entre as paredes de Auschwitz, sentir os cheiros desagradáveis e tocar nas lombadas estragadas dos livros que Dita procura preservar como pode.

Antonio G. Iturbe, o autor de A Bibliotecária de Auschwitz.   ©Eduardo Martins (iOnline)

Diz-se que este A Bibliotecária de Auschwitz é uma história de “heroísmo cultural”. Mais que isso, é acima de tudo o relato de uma realidade histórica, uma ficção bem construída à volta de factos reais e a história de uma rapariga que sobreviveu ao terror de uma vida que nem vida se pode chamar verdadeiramente. A semelhança com Anne Frank é inevitável e Iturbe não deixa de a homenagear neste romance. Choca e horroriza quem o lê e ao mesmo tempo comove – e as pequenas coisas aquecem o coração. Se Dita o tivesse lido durante a sua permanência no campo familiar, encostada no seu esconderijo e pronta a guardá-lo nos bolsos do vestido a qualquer momento, decerto o teria achado igualmente fascinante.

NOTA: 9/10

*Por opção da autora, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945

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