Um elogio a uma mulher e uma crítica acérrima à religião, assim chega Filomena, de mansinho, ingénua, mas simplesmente surpreendente, como a protagonista. Nomeado para quatro Oscars da Academia, o filme de Stephen Frears (A Rainha, 2006) tem por base a história verídica de Philomena Lee e balança entre o drama e os sorrisos que o típico humor britânico faz surgir.

Filomena faz-nos recuar até à década de 50, a uma Irlanda profundamente católica. Philomena (Judi Dench) engravida ainda adolescente e, ao ser rejeitada pela família, entra para o convento de Roscrea, onde é forçada a entregar o filho para adopção. 50 anos depois, Philomena continua sem se conformar com os acontecimentos e faz inúmeros esforços para encontrar o filho, sem resultados. Até que conhece o jornalista Martin Sixsmith (Steve Coogan).

O argumento não é original, mas é único na história que lhe deu origem. Baseado na obra The Lost Child of Philomena Lee, escrita pelo verdadeiro Martin Sixsmith, o filme – tal como o livro – é uma denúncia, uma chamada de atenção, uma forte crítica social. Os acontecimentos que estão na base de Filomena são tudo menos fáceis de digerir, por muitas que sejam as críticas à religião que já surgiram no Cinema. Stephen Frears espelha neste trabalho o drama de muitas irlandesas, que, ainda hoje, procuram os seus filhos.

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Apesar da temática pesada, o humor surge subtilmente personificado em Philomena e nos comentários mais inesperados de Martin. As conversas entre ambos são encantadoras. Aliada a essa empatia, toda a história está construída para nos aproximar da protagonista e do jornalista, partilhando a dor desta mãe e a indignação do seu companheiro de viagem na procura do seu filho – a certo momento, também nós faremos parte desta jornada.

Ao desencontro entre mãe e filho, está directamente relacionada a fé e a descrença dos protagonistas. Philomena Martin têm duas visões bastante diferentes do mundo e da religião: ele é agnóstico, pouco interessado em histórias de “interesse humano”, arrogante e sarcástico. Ela é extremamente religiosa, apesar de tudo o que já passou e que a poderia fazer perder a fé, ingénua e preocupada com o que para si são as questões maiores (será que o filho é obeso? Tudo por causa das enormes doses que servem nos EUA). É nestas duas personagens, contudo, que acompanharemos uma forte mudança de perspectivas – quer de personalidade e atitude, quer nas suas crenças. É assim que Philomena Martin Sixsmith se tornam marcantes para o espectador.

A renitência inicial que Martin demonstra vai dando lugar à confiança e interesse no caso de Philomena. Para além de ali estar a possibilidade de renascer no mundo jornalístico, está também uma história que, a certa altura, quer genuinamente desmascarar. Steve Coogan veste na perfeição a pele de Martin Sixsmith e coloca-lhe a arrogância necessária, bem como um sentido de humor elegante, numa prestação que merece mais destaque do que aquele que lhe têm dado. Por sua vez, a veterana Judi Dench justifica as nomeações que tem recebido, numa interpretação contida mas arrepiante, na pele de uma mulher simples, corajosa e persistente.

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A montagem de Filomena alterna entre passado e presente, pondo-nos a par da sua história ao mesmo tempo que também o jornalista a fica a conhecer. Curiosa é a opção de, a certo momento, podermos assistir a filmes caseiros ficcionados que se misturam com os do verdadeiro filho de Philomena Lee. O trabalho de fotografia, a cargo de Robbie Ryan, é interessante, favorecendo os cenários já de si fabulosos. A acompanhar, em tom de embalo, está a magnífica banda sonora de Alexandre Desplat.

Entre o apelo à lágrima e os inevitáveis sorrisos, Filomena ultrapassa em muito a barreira da história comovente, tornando-se, sim, uma lição de vida, da qual passamos a fazer parte. Stephen Frears oferece-nos neste trabalho uma homenagem a uma mulher, ao seu filho e à sua história de luta. E, tal como Martin, nós também não vamos querer perdoar quem os separou.

7.5/10

Ficha Técnica:

Título Original: Philomena

Realizador: Stephen Frears

Argumento: Steve CooganJeff Pope, baseado no livro The Lost Child of Philomena Lee de Martin Sixsmith

Elenco: Judi Dench, Steve Coogan, Sophie Kennedy ClarkBarbara Jefford

Género: Drama

Duração: 98 minutos

Crítica escrita por: Inês Moreira Santos

*Por opção da autora, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945