Os Filhos do Rock

Barões: «Todas as paixões acarretam sacrifícios»

O Espalha-Factos recuou ao início da década de 80, onde reinava a conjugação sexo, Sagres e rock n’roll, e falou com os Barões, uma das grandes promessas da nova música portuguesa. Polémicos mas realistas, o menino João Pedro, o Zé Paulo e o Garrafa saltaram dos ecrãs da RTP1, onde são as estrelas da série Os Filhos do Rock, e mostraram-nos de que cabedal são feitos.

O vosso single já toca a toda a hora na rádio, mas estamos à espera do vosso primeiro longa-duração. Há novidades quanto ao disco, ou vamos ter de esperar por ele mais tempo?

JP: As coisas boas demoram a amadurecer! Não estamos com pressa só porque agora é que se lembraram que o rock existe em Portugal. Estamos a trabalhar nisso, como estaríamos se não tivéssemos tido esse êxito, e como continuaremos a estar mesmo depois desta vaga eléctrica esmorecer e aparecer outra merda qualquer. Os Barões hão-de ter um disco cá fora quando tiverem uma mão cheia de pérolas para arremessar aos fãs, e nunca antes disso!

Zé Paulo: A única novidade que podemos adiantar é para se prepararem, porque quando o disco sair não queremos que sejam apanhados desprevenidos.

Garrafa: Há novidades quanto ao LP, brevemente. Mas ainda vamos ter que esperar mais um bocadinho. Deixar crescer a vontade mais um pedacinho!

As músicas serão cantadas em português?

Garrafa: Para já, e acho que é o mais óbvio, vamos continuar a fazer rock português e em português!

JP: Só falo noutra língua quando sou interpelado por turistas ou quando estou eu no estrangeiro. Temos uma língua muito rica e muito antiga, que já morreu por amor, já bradou aos monstros do mar e aos deuses do céu e é capaz de instigar fogo a pelotões na frente da batalha. Acho que chega… Para o que há a ser dito. E, além do mais, já é tão difícil dizer na minha língua como é fodido ter uma dor de dentes, quanto mais pôr uma língua alheia a lamber as minhas cáries.

Zé Paulo: Eu falo por mim, só sei falar português. Portanto, para alguma letra ser escrita ou entendida por mim tem que ser em português. Mas não quer dizer que isto para nós seja dogmático. Quando começámos cantávamos em inglês e podemos lá voltar se nos apetecer e se na altura nos fizer sentido.

Quais são as vossas principais inspirações criativas? Interessa-vos o contexto social e político?

JP: Queres dizer referências ou inspirações??? É que que se fores um artista tudo serve para desenvolver “o ponto de vista criativo”. Só inspirar um boa golfada de ar já me inspira, por exemplo. O que me faz ficar com tusa para escrever uma boa canção tanto pode ser um riff do Keith Richard como uma conversa que ouvi na rua, ou uma trovoada numa noite ao volante de um carro, ou um cão acorrentado no jardim de um vizinho. Uma certa graça que ela tem no tirar o cabelo dos olhos. (Acende um cigarro.)

A inspiração é uma maneira de atentar nas coisas do mundo. E, como tal, interessa-me tudo. E mais do que o contexto, no subtexto tudo pode ser social, político. A malha do Keith é uma manifestação de libertação sexual, se a sentires. A conversa na rua é cidadania, se a ouvires. Viajar estrada fora pode ser deserção, inconformismo. E um cão preso é sempre uma distopia. Agora, o que me faz acreditar que temos a capacidade e o poder de acrescentar ruído a esta cacofonia toda… Os meus exemplos…. São, de facto, gajos como o Jim Morrison, o Lennon, o Dylan, o RimbaudNietszche… Para responder à tua pergunta.

Zé Paulo: A inspiração vem de todo o lado, das merdas que te acontecem na vida, da noite mal dormida, do que estes gajos andam a fazer ao país e à vida das pessoas. Acho que isto já responde à segunda parte da pergunta. Interessamo-nos com o que se passa à nossa volta. Não vivemos, nem queremos, numa bolha. Essa também é a função da música: instigar as mentes para a mudança e despertar as que estão adormecidas.

Garrafa: As nossas principais inspirações criativas, uma pergunta engraçada. Eu inspiro-me na música, no prazer que tenho em tocar e em estar com estes meus irmãos! E eles sabem o que isso quer dizer! Depois as coisas surgem…

Como avaliam a eleição de uma mulher para o cargo de Primeiro-Ministro [Maria de Lurdes Pintassilgo]?

JP: Quê, de zero a vinte? Nota máxima! No Ocidente as mulheres podem não ter uma grande tradição na área da política, mas sabem manter a casa arrumada, os filhos limpinhos e pôr comida na mesa. São qualidades de género e características evolutivas que nem os nossos homens políticos nem as nossas mais ferrenhas feministas deviam subestimar.

Garrafa: Epá! Perguntas complicadas a esta hora! Para mim as mulheres são o sal da vida. Mas, como em tudo, sal a mais faz mal!

Zé Paulo: Se for como os gajos que lá costumam estar é-me igual que seja uma mulher.

Sentem-se bem como um power trio? Ou consideram incluir mais elementos na banda?

JP: Sentimo-nos muito bem obrigado, porquê? Tocas alguma coisa?

Zé Paulo: Sentimo-nos muito bem e não percebo essa pergunta. Gostava de saber se a fizeram aos Police, por exemplo. Queres dizer que sentes que o nosso som precisa de mais algum elemento?

GarrafaPower trio!!! Sim, acho que é mesmo assim que nos sentimos bem, como a santíssima trindade! Ah!

Para que artista adorariam abrir um concerto?

JP: Acho que não tenho muito perfil para porteiro. (Risos.) Adorar… Não estou a ver assim ninguém, mas não me importava de tocar antes de quem quer que fosse. Quero é tocar!

Zé Paulo: O João Pedro tem razão, nós queremos é tocar. Mas se puder ser antes do Neil Young, melhor!

Garrafa: Acho que a pergunta está mal formulada, sem querer ofender ninguém, claro. Mas acho que devia ser: quem é que eu gostaria que abrisse um concerto nosso? Os Rolling Stones, podia ser. Acho que eles iam gostar, e vocês?

E os UHF? Afastados os problemas iniciais, havendo agora partilha de baixista, há planos para uma digressão conjunta?

JP: Nós não partilhamos um baixista, que fique bem claro, com ninguém, que já não é a primeira vez que oiço essa imprecisão. O Zé Paulo, que é o baixista dos Barões, e como é um gajo cheio de boa vontade e espírito de entreajuda (não é?), fez um especial favor a uns amigos dele lá da outra banda, de substituir numa ocasião o baixista deles que não pôde ir. Foi só isso! É claro que eles agora queriam mais, porque também são ambiciosos à sua maneira e têm ouvido para a música, mas não faz parte dos nossos objectivos sermos músicos de sessão.

Zé Paulo: Os UHF são UHF e os Barões são os Barões. Tivemos os nossos desentendimentos, que foram ultrapassados. Toquei com eles porque gosto de tocar. E se for com gajos bons, como eles são, tanto melhor! Mas agora a vida segue o seu rumo e cada um mija com a sua!

Garrafa: Eles são bons. Podia ser bastante interessante. É uma boa ideia!

Em que salas portuguesas e estrangeiras ambicionam tocar?

JP: Nas melhores.

Zé Paulo: Em todas as que tenham malta com vontade de nos ouvir!

Garrafa: Eu, pessoalmente, gostava muito de tocar no Dramático de Cascais! Acho que tem muita pinta.

Sentem que a explosão do rock em Portugal está a ser devidamente acompanhada pela comunicação social?

JP: O rock (soletra carregando o ‘r’ com certo asco) chega a quem tem que chegar . Também perdia o sentido se fôssemos muitos e tivesse sempre a passar em todo o lado: na rádio, na televisão, nos jornais… Ia passar a ser uma coisa dominante; logo, ia deixar de ser marginal e contra-cultura, que é isso o que o rock é. Isto não é só música. Quem quer, sabe onde o encontrar. O rock não é uma cultura para as massas. As massas divertem-se com pop.

Zé Paulo: Acho que fazem o trabalho deles. Para mim, desde que não se ponham a inventar ou com opiniões pedantes sobre uma música e uma cultura que desconhecem, tudo bem. Também, a comunicação social tem que ser educada para a diferença, e nós estamos cá para isso.

Garrafa: Sinto que há uma comunicação social especializada que está também a crescer, e que essa, se calhar por força das circunstâncias, acompanha porque precisa dessa explosão. Porque não crescermos juntos?

O Xavier Bastos tem sido um dos grandes promotores da vossa carreira. Há alguma perspectiva de projectos conjuntos?

Zé Paulo: O Xavier é um amigo de longa data a quem devemos muito e que muito admiramos. Por isso, e sempre que haja oportunidade, trabalharemos juntos. Mas por agora não temos mais a adiantar sobre isso.

JP: O Xavier é um daqueles gajos raros… um sonhador. E um lutador. Atenção, este gajo está a marcar passo e vai deixar obra. É uma pessoa altamente inspiradora. Sem ser um músico, que não é, é um grande promotor e divulgador da música que está a ser feita aquém-e-além-mar e tem aberto portas e ajudado aí muito boa gente. Antes de ele ter voltado, nós estávamos todos muito mais sozinhos, muito mais isolados, muito mais fechados… Muito mais estúpidos. Tem o tipo de perfil que nós procuramos nos nossos melhores amigos. Gajos entusiasmados com as coisas que fazem e em que acreditam, e capazes de mobilizar e estimular quem estiver por perto. E, por isso, contamos com ele por perto… Seja para o que for, claro.

Garrafa: Para já temos a maquete que fizemos com ele, e parece-me um bom início.

O Zé Paulo despediu-se da Lisnave. Não têm medo de largar tudo pelo rock?

Zé Paulo: Não.

JP: (Começa a rir desbragadamente e engasga-se numa baforada do cigarro.) O Zé Paulo provavelmente não deixou a Lisnave só por causa do rock. Estragava-lhe as unhas. Aquilo é fodido: todos os dias, trabalho duro, pensas o quê?! (Outra gargalhada, recompõe-se, dá uma passa lenta e profunda no cigarro.)

Todas as paixões acarretam sacrifícios. Para se chegar mais perto de umas coisas, afastamo-nos de outras, é assim na vida, o que é que queres que eu te diga… Só há uma coisa que eu não largava pelo rock, e sabes qual era?… Era a guitarra (risos).

Garrafa: Temos mais medo que o rock nos largue!

Onde se imaginam daqui a 30 anos?

Garrafa: A tocar juntos, de bengala, ou assim. Já com muita tosse, porque da maneira que estes dois despacham cigarros…

JP: Se fosse precisamente aqui era bom sinal.

Zé Paulo: A fazer música, melhor ainda que a que fazemos hoje, com cada vez mais malta a ouvir-nos e a curtir. Mas sobretudo a divertirmo-nos com o rock, que para mim é o mais importante. Gostamos daquilo que fazemos e daqui a trinta anos vamos continuar a fazê-lo!!

Fotos: ©Mercês Tomaz Gomes

(Com Ana Margarida CoelhoAlexandra Silva e Henrique Lourenço.)

Os Filhos do Rock é uma série produzida pela Stopline, transmitida todos os sábados, às 23h59, na RTP1.

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