Cheatahs-cover

Crítica: Cheatahs, de Cheatahs

Com data de lançamento marcada para 10 de Fevereiro e carimbado com o selo de qualidade da abençoada Wichita Recordings (casa de nomes como Los Campesinos!, Cloud Nothings ou FIDLAR), Cheatahs é a estreia homónima em longa-duração deste grupo londrino formado em 2009 pelas mãos de Nathan Hewitt, James Wignall, Dean Reid e Marc Raue. O registo, que sucede a um trio de EPs promissores, afirma-se como uma autêntica droga sonora e promete ser, contra toda as expectativas (ou falta delas), um dos grandes álbuns de 2014.

E é logo em Geographic, abertura de facto do disco, que percebemos os ingredientes usados por estes moços: canções rasgantes, em bom lo-fi, carregadas de um fuzz reminiscente daquilo que de melhor se fez nos anos 80 e 90 da música alternativa. Sentem-se, aqui e ali, parecenças com as peças mais “sérias” de contemporâneos como Wavves ou FIDLAR, despidas das referências omnipresentes aos estupefacientes, mas, no geral, esta é uma obra que se dedica mais à homage das suas influências do que à tentativa de se inserir nas novas tendências.

Dinosaur Jr. é o primeiro nome que vem à cabeça durante a primeira metade do LP, e depressa percebemos a falta que nos fazia uma banda assim; agora que os Yuck desistiram completamente de ser os herdeiros dessa instituição norte-americana, cabe aos Cheatahs reclamarem para si essa tarefa hercúlea, usando para isso todo o seu arsenal de pedais para criar um disco que nos põe a cabeça a andar à roda. Para além disso, os pontuais cheiros ao punk e post-punk de Mission of Burma ou Hüsker Dü dão a este registo uma pungência tremenda.

Na segunda metade do LP, porém, os Cheatahs despem-se de americanices e viram-se para o seu lado do lago atlântico para irem buscar aos My Bloody Valentine algum do seu shoegaze, rico em camadas de deliciosa distorção, para mascararem as suas melodias. O resultado, apesar de ficar, evidentemente, aquém da matriz original (já todos sabemos que só os My Bloody Valentine conseguem ser os My Bloody Valentine), não deixa de estar recheado de qualidade, ao nível de algumas das melhores incursões dos Ringo Deathstarr pelo género, e prova que os Cheatahs são daquelas raras bandas capazes de jogar, e ganhar, em vários campeonatos em simultâneo.

Cheatahs album cover

Com tanta qualidade, confesso que foi difícil encontrar algum defeito que sobressaía. O único digno de nota acaba por ser mesmo o “afogamento” das vozes, que, por estarem tão enterradas na mistura e carecerem de força e carisma, raramente conseguem espreitar pelo meio do festival de barulhinho bom que para aqui vai. Contudo, esta pequena nota de rodapé pouco afecta a qualidade deste Cheatahs, que no geral se mantém em níveis estratosfericamente elevados.

Caso ainda não estejam convencidos da premente necessidade de obter e ouvir este disco por inteiro e precisem de uma lista de pontos altos por onde começar, a fervilhante Geographic, a deliciosa Northern Exposure, a estival Get Tight, a perfurante Leave to Remain, a hipnotizante Fall e a juvenil Cut the Grass apresentam-se como as faixas que mais provavelmente vos deixarão siderados, isto, claro, se forem como eu e adorarem distorção no 11, riffs pungentes, uma secção rítmica a suar as estopinhas e uma atitude repleta de teen angst no geral. De lado deverão ficar Mission Creep e Kenworth, faixas menos conseguidas que falham em causar uma impressão duradoura.

Resumindo, com a sua estreia homónima os Cheatahs apresentam-se de uma maneira estrondosa, criando um conjunto de 12 faixas feito por (e para) melómanos bem cientes da tradição da música alternativa anglo-saxónica dos últimos 30 anos. É em Cheatahs que a distorção ensurdecedora dos Dinosaur Jr., as densas paredes de som dos My Bloody Valentine e a acutilante verve dos Hüsker Dü se unem e prosperam. Com tantas referências, seria de esperar que este fosse um disco desprovido de identidade própria, mas a verdade é que a mistura de influências acaba por trazer ao de cima uma assinatura muito própria, rica em estilo e em substância. E isso faz com que seja ainda mais delicioso o festim rock deste Cheatahs.

Nota final: 9.4/10

*Este artigo foi escrito, por opção do autor, segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945.

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